O tudo e o nada.

De todas as mortes no RPG que meus personagens tiveram, a que mais me marcou foi uma em Kult, onde minha personagem, na fronteira do nada, no princípio dos tempos, se perdeu da trilha e deixou de existir. Foi paulatinamente esquecida. Esse jogo, coisa de duas décadas atrás, aconteceu com uma pessoa que definitivamente não existe mais. Guardo semelhanças, mas se eu me encontrasse com essa eu de antes, na rua sem aviso, era capaz deu não me reconhecer. E definitivamente não seria capaz de me entender.

Em retrospectiva, a personagem apagada da existência. Não deixou marcas. Ninguém a carregar algum fardo. Sem sentir ou deixar nenhum sofrimento. Sem manter nenhuma responsabilidade ou laço com o real, porque simplesmente nunca foi, me parece muito mais uma dádiva, uma generosidade da entropia, com ela e para com os seus. Cujas vidas poderiam até ser menos ricas sem ela, mas nesse contexto imaginário, nunca saberão porque nunca souberam. Assim como ela, porque nunca foi.
O niilismo supremo, mergulhado em balsamos para as culpas cristãs, os fardos que carregamos, as razões porque não desistimos de tudo, hoje, agora, da próxima vez que ficar tudo dificil…

Enfim, elucubrações filosóficas… Eu não fui talhada para a morte, quase tanto como não fui talhada para a vida.
E na esfera dos desejos impossíveis, fantasiosos e imaginários, apenas o deixar de ser.

Dos bálsamos e olores.

Senta, que lá vem história…
 
Ia falar do meu inferno astral das trolhas voadoras que sempre começa em novembro e vai até abril, mas que esse ano eu tô sem estrutura pra lidar… Ai toca o telefone e é Leticia Telles com aquela voz doce de pedinte sabe? E eu já tamborilando na mesa pensando: Ai vem…
 
Corta a cena. Em um passado remoto, quando o Matheus Telles era uma coisinha rosada e loirinha, das tiradas espirituosas e da alma de poeta (hoje ele só não é loirinho…), ele foi um dos ganhadores do concurso de literatura da escola, o Maria Helena Xavier Fernandes, com uma poesia muito linda sobre medo. Dia desses pra trás (te preciso o dia, 24/08, fazer o que…) revirando as coisas do pai pra organizar documentos, dor profunda era as vezes entrecortadas por pequenos achados, e um deles foi a cópia do pai do livrinho onde tinha as obras vencedoras. Eu lembro dele subindo no palco, todo orgulhoso, pra ler a poesia pra família toda…
A gente já sabia que ele era um poderoso contador de histórias, uma alma velha com uma grande bagagem, e alguma preguiça de colocar no papel. E o reconhecimento dos seus pares, ali, no palco, era uma injeção de auto estima e de validação. Óbvio que ele passou por vários outros momentos depois, na cozinha, fora dele, onde ele foi validado, mas esse momento ao menos pra mim, era a lembrança representativa da validação dele.
Marfelo Lacerda teve a dele muito antes, medalhista em olimpíadas de matemática. Lembro que ele saia por ai ostentando aquela medalha com um orgulho enorme, e a alegria que era ver ele tão cheio de si mesmo. Depois ele foi pra outros lados, artista multifacetado do ‘dizain’ e compositor de músicas lindas!!! Mas ele teve esse momento exatas de sair pra todo canto com aquela medalha no pescoço, aquela que referenda do que se é capaz! Ai agora comecinho do mês ele fez o primeiro show solo dele. Tava lá, nervosão. Lotou o stúdio que ele alugou para o evento, amigos todos prestigiando, ele se sentiu feliz e validado e o dinheiro deu até pra comprar umas coisas pras artes. Uma arte validando a outra. Eu achei digno. E no meio de dias tristes, fiquei feliz.
 
Vamos retomar o telefonema? Então, era Letícia com a voz doce de pedinte, e eu confesso, exasperada com as trolhas voadoras de novembro, e com o rebote da noite mal dormida, já estava esperando más notícias. Não é como se 2016 tivesse me trazido boas notícias de graça ao telefone, né? As poucas boas noticias, talvez presentes de grego até, mas as poucas, vieram de batalhas difíceis, sofridas, que deixaram talhos enormes que em agosto vieram a se abrir e das quais eu ainda estou costurando, todos os dias, um de cada vez.
 
Mas era minha caçula, que em 7 dias fará 18 anos, meu bebê, que virou uma moça bonita e avoadinha. Já fui lá prestigiar ela no teatro várias vezes, e bater palmas pra ela, orgulhosa, mas ela ali era sempre parte do grupo, peça, e ainda não tinha tido esse momento de quando os holofotes se viram momentaneamente pra você e eu queria isso pra ela. Essa momento onde alguém olha especificamente pra você, te tira do meio do grupo, e valida algo especifico que você faz. E ela bem merecia, nesse ano mais que em qualquer outro, por um momento assim.
 
– Mãe, sabe o concurso Maria Helena? Eu ganhei. E a premiação é amanhã.
 
2016 tem sido um ano horrível, em todas as esferas. Doloroso. Difícil. Um ano de revirar no lodo. Um ano de feridas expostas. Mas eu sou muito grata ao universo por cada vez que ele se vira na minha direção e estende as mãos com um balsamo qualquer. Duplamente grata, quando esse bálsamo atinge um filho meu.

Oi, bom me ver, estava com saudade de mim.

5a feira, meio dia. Dedos tamborilam na mesa enquanto olho minha check list para quinta e sexta. Quase metade já havia sido feita. Sinto uma certa impaciência porque não sei o que fazer na sequência, e saio pra almoçar.

Está quente lá fora. Sinto pouca fome, é cedo para quem costuma almoçar quase 14 horas e como disse, está calor. Mas como na quantidade e qualidade de costume e volto pro escritório. Os pés doem um pouco. Já estão doendo tem tempo. Eu ando pesada pra eles, coitados.

De volta pra minha mesa, espirro água termal na cara, e me pego me sacudindo na cadeira. Há uma onda de energia ativa que quase dá pra ver. Abro um chat com a amiga e comento que meu T4 deve estar explodindo, mas depois de fechar começo a notar algumas coisas. Não parece um surto de hipertireoidismo.

De fato eu estava irriquieta. Mas estava focada. Ia fazendo as tarefas sem checar a lista, apenas indo lá para tickar as danadas (prazer de todo portador de TDA, Ansiosos e afins). Me lembrei de coisas que eu não tinha colocado na lista mas precisavam ser feitas. Não estava irritada nem nervosa. Não estava cansada nem desanimada. Eu simplesmente queria produzir e parecia que não havia tarefas boas o bastante.

Olhei de relance a lista. As tarefas mais simples estavam todas feitas. E não incompletas como vinha acontecendo. Documentos guardados no lugar certo, relatórios devolvidos para suas gavetas, rascunhos descartados.  Tudo que era começado , tinha a sua finalização de forma organizada.

Ataquei as tarefas mais chatas. As que demandavam atenção, concentração. Elas foram gerando sub tarefas quer fui delegando para minha assistente, e engatamos num eficiente bate bola de tarefas. Ela me devolvida as demandas, eu tratava, passava outra tarefa, e rapidamente fechamos um trabalho chato que vinha se arrastando por meses.

Olhei pra minha lista de tarefas. Não tinha terminado o expediente, e a única tarefa que sobrava era especificamente uma tarefa de sexta feira. Parte dos colegas encerraram seu dia, mas eu estava achando um desperdício não aproveitar aquela energia produtiva.

Parei uns instantes olhando em volta. A mente funcionando afiada como uma navalha nova foi fazendo conexões e fui listando novas tarefas, pendências menos importantes mas que alguma hora precisariam ser endereçadas.

Deixei pré-prontos planilhas e relatórios para o mês seguinte, hábito que eu criei pra garantir nunca perder o prazo de uma prestação, mas que nos últimos meses me roubavam um tempo precioso de olhar perdido de “o que é mesmo que eu tenho que fazer aqui? Como faço pra não perder essa formula? Qual é mesmo a coluna que tenho que linkar agora?”…  Hoje, em pouco mais de uma hora ela estava pronta, conferida, correta, esperando dezembro chegar.

Comecei a fazer aqueles backups que você sabe que precisa fazer e fica adiando. Calculados milimetricamente para o primeiro DVD de dados preciosos terminar junto com o fim possível do expediente, e já engatilhado os que seriam gravados depois.

Andei até a Central pra pegar o metrô com uma dor nos pés tão grande que na véspera faria eu me arrastar, mas peguei o metrô, depois meu ônibus andando devagar mais firme.  Vim lendo no ônibus. Descansada, sem precisar reler parágrafos, sem sentir os olhos fechando de cansaço.

E tudo que eu conseguia sentir era gratidão.  Em 22 de agosto meu pai me deixou no susto, sem aviso prévio, sem nota explicativa no rodapé. Estava lá. Não estava mais.  A perda dele me foi , como seria de se esperar, uma dor tão inexplicável e profunda. E me paralisou. A tristeza, para além da esperada, me tomava no meio do dia, no ônibus, no trabalho, em casa, e eu só conseguia chorar. Nada estava bom. Nada era interessante. Minhas crises de ansiedade começaram a  ficar insuportáveis.  Meus bloqueios de fobia social me fizeram querer ficar em casa, em posição fetal, sem ver ninguém. Tudo era custoso. Falar com gente conhecida era custoso. Falar com gente amada era custoso. Eu só não queria falar.  Eu estava quebrada, desmontada em mil pedaços e não sabia por onde começar a me montar. Não dormia mais de uma hora seguida. Não conseguia parar de comer. Não conseguia me lembrar das coisas mais corriqueiras. E meu spam de atenção tendia a zero.

Eu já tinha estado em lugares bem parecidos com esse. Mas dessa vez eu fui buscar ajuda. De todos os lugares onde eu podia buscar ajuda. Pareceu piorar no começo. Me forçar a estar com gente. Me forçar a trabalhar. Os remédios dando efeitos colaterais antes de começarem a funcionar. As tentativas e erros de dosagens e associações. A tática kamikase pra lidar com a tireoide.

Mas havia as pessoas. As pessoas ali ao alcance da minha mão.

Pessoas que me ampararam. Que ficaram silenciosamente ao meu lado. Que me mandaram procurar ajuda. Que estenderam a mão para me ajudar. Que garantiram que eu tivesse ajuda. Que me deram a mão a cada tropeço no caminho. Que tiveram paciência e generosidade. Que mesmo distantes olharam por mim.

Tudo isso nesse intrincado caminho de volta à vida. de reconstrução de si, ainda tateando e cambaleando, ainda sem saber se o dia intelectualmente-profissionalmente perfeito vai se repetir amanhã. Mas ele é possível. Eu vi.  Ainda que não tenha voltado ao meu normal ainda, ele aconteceu hoje, vai acontecer outra vez. E outra. E outra também.

5a feira. Eu acordei e no decorrer do dia, lembrei de mim mesma, e me reconheci.

Apologia à Pale Ale.

Assistindo a segunda temporada de Falling Skies. De fato eu tinha parado na primeira. Quase acabando e pensando aqui cá comigo, o único jeito de nunca ser manipulado é ter um grau de desconfiança no outro e um grau de desprendimento com a opinião ou a posição ou o que seja, que te permita a não-ação. Ou a ação unica e exclusivamente guiada pelas correntes (o que é a total manipulação, mas de um jeito tosco: já que vou ser manipulado mesmo, sigo o fluxo, apenas isso…) e nenhum apego a consequência da ação (ou da não ação).


A verdade é tão multi-facetada que não é possível, de fato, diferencia-la do engano de boa fé ou da completa manipulação intencional. Se é que existe verdade. Ou boa fé.


O pensamento crítico não é , per si, garantia de imunidade às garras da manipulação. Ele, o pensamento crítico, é muitas vezes engenharia reversa de obra já feita, justificativa racional do que optamos por acreditar.

Sério… é a porra de uma série de Scifi, mas está me dando um crise existencial de cunho filosófico…

Tenho que parar com essa história de querer ficar bem e tomar medicamentos controlados e ir a médicos e essas coisas todas e ir tomar cerveja.

Cerveja é a unica verdade; No fundo do copo de uma boa American Pale Ale saem sempre as melhores decisões…

Eremita

De tempos em tempos eu tenho a impressão que sou só eu.
Perdida.
Insone.
Confusa.
Assustada.
Cansada.
Paralisada.
Dispersa.
Infeliz.

De vez em quanto, eu me sinto o eremita que já quis ser.
No alto do alto do alto da montanha que habita em mim.
Gritando pro abismo alguma bravata sem sentido
E de resposta, só o eco, que nunca sabe o que diz.

De tempos em tempos.
De quando em quando.
De hora em hora.
Agora.

Agora.

Spoiler. O que que tem?

A gente tem que ter um certo peso. Uma certa aparência. Uma certa realização profissional. Um certo poder aquisitivo. Uma certa cor de pele. Uma certa sexualidade. Uma certa religião. Uma certa posição política. E agora, um certo ritmo para assistir série na TV.

Spoiler é agora institucionalizado. Ainda fazem graça com você: “Pô, tá todo mundo falando, todo mundo já viu, eu tinha que esperar você?”
Todo mundo não, cara pálida. Talvez o grupo que gire em torno do seu umbigo, talvez. Pelo visto, nem isso.

Eu lembro quando alguém soltava um spoiler sem querer num grupo de amigos, como era condenado ao ostracismo… Paria social. Agora, paria social é quem tem mais o que fazer da vida e não viu a série XYZ no INSTANTE em que ela foi lançada na TV a cabo.

Se vira, mané…. se não quer saber, não acesse a internet. Problema seu. Não mandei não ver, não ter TV a cabo, não ter pirateado a série, ter hora pra dormir, ter hora pra acordar, ter vida social, ter feito outras escolhas. Não mandei. Eu vi, e vou abrir minha boca grande para contar o final. Só porque eu posso. Só porque eu quero. Só porque preciso que o mundo saiba a minha opinião a respeito do episódio que meu amigo ainda não viu. E tá reclamando porque é dos mimimis (no meu caso, #mimidri porque eu patenteei essa parada e ninguém paga as minhas contas).

Grande bobagem, né? É só a pinóia de uma série de TV, que tem HQ relacionada (que podia ou não ser respeitada na adaptação)… Mas é só mais uma prova de que as pessoas não tem um pingo de respeito umas pelas outras. Só não tem.

Eu (e os outros eus)

As vezes tenho essa recorrente sensação de que faço de conta bem demais. Que adaptada e conformada, como a boa menina que eu sempre fui, represento os papeis que me cabem nas histórias que me acontecem.

Já fui outra que não essa.  E antes disso outra mais.  Já fui muitas.  Todas cascas. Capa. Personagem. Papel.

Quando esperam bem de mim, performo. Atendo. Supero. Comercial de margarina. O show de Truman. A vida como ela (parece que) é.
Quando esperam mal de mim. performo também. Patético papel secundário do pior ator que há de performar. Pífio. Sofrível… E vamos todos mudar de canal.

Mas são todos só papeis.

Aquela que foi um dia
Aquela que se perdeu
A que fez o longo caminho de volta
A que prevaleceu.

No fundo, eu mesma, dentre todos os outros eus, senta no chão e encara a longa escada que nunca há de subir. Para fora. Eu. Apenas eu. Só eu. Se é que eu ainda existe em algum lugar.

As vezes tenho essa recorrente sensação que Eu já nem mora mais aqui.