Jornada

Toda vez que as paixões apontam, se reviram, se revoltam, mar em cólicas no ócio dos dias, eu busco A Palavra. As vezes falada, quase sempre escrita, que cure, que abra, traduza, resolva, que resuma, console, encontre, perdure. Que seja o nome do que não foi nomeado, que consolide o silêncio, que abra os caminhos. A Palavra.

Toda santa e profana vez, essa força que se insinua, que rasga a carne buscando ser dita, que se prende em cada entranha, que liberta, que me prende.

Nunca a acho. Nunca alcanço. E desisto dela, inconstante, ciente do fracasso, recolhida ao silêncio de ostra, pérola ou câncer, rascante silêncio da porta fechada, do que nunca foi dito, da ausência da Palavra.

E quando olho pra trás, A vejo tão perto. Como diabos eu não A  vi chegando?  Ali, de soslaio, me olhando do canto, namorando minha língua, quase dita. Sempre quase.

E quando outra onda me alcança, é nela que penso. Que me agarro, que me lanço. A palavra. A maldita Palavra. A bendita Palavra. A Palavra.

Toda vez que as paixões apontam.

Toda vez.

Sobre perdas e dores.

Meu pai morreu fazem 6 meses hoje. É tanto sofrimento condensado dentro da gente, que parece que fazem 6 anos. Ou 6 dias. Eu não sei ao certo. Dói sempre como se fosse agora, mas há uma eternidade em tempo de correntes se arrastando desde do dia que eu recebi a notícia.

Lembrei dele hoje. Como lembro todos os dias. Mas não lembrei que faziam 6 meses. Esses dias pra trás andei especialmente triste. A gente tinha adotado um bichinho silvestre em necessidade que nos ajudou a passar pelo primeiro natal sem o pai, um canal de amor, sabe? E fiquei sabendo que ele havia morrido. Soube depois, bem depois, poque eu sou esse mar de instabilidade ambulante, que tem 6 meses que não sabe onde fica o chão, ou o teto, como mergulhador de caverna, se guiando por instinto, torcendo pra ter calculado certo o ar… E ai ninguém quis me contar.  Entendo. Eu não queria ser o portador de más notícias pra quem chora sem motivo aparente a cada um passo ou dois, e fica olhando perdido pra frente, e passa cada dia esperando pelo próximo chegar.  Bem entendo.

Então eu estava lá, esperando o próximo dia chegar. Entre um trabalho e  outro li o post de um amigo. Eu precisei ler umas 6 vezes. Não fazia sentido. Eu devia estar entendendo errado. Cliquei no link do post, outro post, e li algumas vezes também. Sai buscando páginas de amigos querendo encontrar um primeiro de abril, não é isso, é boato, sei lá… Assim como eu li a mensagem sobre meu pai inúmeras vezes e perguntei como assim?  como se tratasse de alguma impossibilidade. Eu me senti desconectada de mim mesma explicando pra mim que era aquilo mesmo, e que essas coisas acontecem. E voltei ao post original e li mais algumas vezes… Eu tinha perdido um amigo querido.

Larguei tudo que eu estava fazendo e fui almoçar. Mandei mensagem para a esposa dele, tentando lembrar do que eu precisei ouvir quando meu pai morreu. Só saber que eu era amada. E as pessoas se importavam.  Brinquei com a comida, garfo rodando no prato, até a última e penosa garfada. Voltei pro escritório. Peguei o celular para mandar mensagem para amiga amada muito próxima desse amigo no exato momento que chegava mensagem dela avisando aos amigos de longe do ocorrido.

Vieram à mente, em ondas de saudade e amor, várias lembranças.Uma delas, registrada em VGA de uma das primeiras máquinas digitais que eu vi na vida, virou meu post de despedida. E eu estava tentando lidar. Acontece. A vida segue. Eu preciso seguir meu trabalho, eu…

E então como bigorna em desenho animado, eu me toquei que era dia 21. E que 6 meses atrás meu pai tinha ido embora, assim sem aviso, a despeito das eventuais mazelas de saúde, mas sem aviso, sem tempo pra que a gente se preparasse pro que não há preparo… A dor misturada de todas as perdas do mundo bombeada junto com o sangue pelo meu coração, tomou conta de mim como se fosse tudo do qual eu era feita.

Pensamentos desconexos sobre o quanto de dor eu tinha direito de sentir se misturaram com a total e completa incapacidade de parar de chorar.  As vozes das pessoas no escritório foram ficando cada vez mais distantes e irritantes, como se eu não pertencesse aquele plano, como versassem sobre outra matéria, matéria viva, e eu, bem, eu não.

Fui embora, amparada por amiga, tomar um café cheio de açúcar, pra me culpar depois, pelo açúcar e pela dor, porque o que meu não é dor é culpa. E o que não é culpa é dor.

E vim pra casa velar nossa dor. Nossas perdas. No plural. Não só minha dor, que se confunde hoje comigo, indissolúvel de mim mesma, mas a dor de todos que conheceram meu pai e conheceram o Cláudio, e que são melhores hoje do que seriam se não os tivesse conhecido, e que seguirão tropeçando na ausência da qual a saudade é feita, nas memórias que são bálsamo e tormento sempre ao mesmo tempo, porque diz do que já foi e nunca mais será.  Vim pra casa chorar.  Porque o mundo lá fora nos pede que escalemos parede sem reentrâncias e tem dias que simplesmente não dá. Apenas não dá.

E lembrar do meu amigo, um gigante doce, ranzinza e bem humorado, porque somos feitos de contradição. E do meu pai, um velhinho doce, ranzinza e bem humorado, porque de fato somos feitos de contradição.

Diferente da maioria das pessoas que conheço, eu não acredito num depois. É do que mais (ou só) sinto inveja nessa vida…  Mas mesmo sem acreditar, gosto da imagem idílica de que há um lugar onde depois que deixamos de ser, vamos viver e esperar pelo dia de reencontrar com quem não partiu ainda.  Talvez, como no sonho do Matheus, esse lugar seja dentro de nós.  E no fundo do meu peito, hoje meu pai e o Cláudio estão tomando cerveja,  perguntando porque não os apresentei em vida, e contando causos entre si…

Bebam uma por nós. E mandem ondas de amor. Porque a vida será todos os dias um pouco mais triste para a gente por aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Sinistro

Demorou a cair a ficha. Os primeiros meses do ano são áridos financeiramente e eu não estava esperando. Acho que o pior foi não estar esperando.  Porque eu sempre estou esperando. Boas coisas, coisas ruins, eu traço cenários até dormindo. “E SE?” é minha expressão favorita e eu memorizo possibilidades de tanto medo das surpresas. O CID 10  chama de Ansiedade Generalizada. Eu chamo de outra terça feira.

Comecei o dia meio mal dormida, chegando cedo no trabalho, e antes de pegar no batente fui pagar uma conta. O saldo me causou estranheza.  Pela hora do dia, as contas agendadas teriam já batido, aquele dinheiro não fazia sentido. Pedi o estrato.

Havia um depósito desconhecido. Nada ai meu deus acabo de ficar rica, vou fugir pras Bahamas e não sei porque, mas mesmo modesto, substancial a ponto de ser notado mesmo eu não tendo esse controle assim tão específico do quanto deveria ter na minha conta naquela manhã.

Na sequência do depósito, e naquele momento eu não sabia se antes ou depois, haviam débitos que por instantes não reconheci.  A idéia (insana) que me ocorreu era  que alguém havia depositado algo na minha conta e estava tirando aos poucos. Não fazia sentido algum, e eu rodava que nem peru tonto na véspera da ceia.

Eu sou dessas. Apavoro primeiro. Penso depois. Raramente faço coisas apavorada, o apavoramento me trava o que é uma benção. Dá até pra disfarçar bem o fato deu apavorar primeiro…  Aqueles instantes de “ai meu deus ai meu deus ai meu deus” costumam ser só verborragia, ou desespero silencioso.  O passo seguinte é sempre um bom passo. Eu paro. Eu analiso o cenário (o que é que eu não pensei que desembocou nisso aqui?), divido o problema em pedaços e tento ir, apesar da ansiedade de resolver logo, um passo de cada vez.

Passo 1, esses débitos são meus?   Peguei as ultimas contas pagas, reconheci todos os valores debitados, dei conta de cada saída entre ontem e hoje, nada estava fora do ordinário nesse pedaço.

Passo 2, é de fato um depósito? Se sim, eu conseguia  identificar?  Fiquei ali olhando, pensando o que podia ser aquele dinheiro. Decifrando de onde podia ter vindo através do que vinha escrito… a primeira parte foi fácil: Sispag, o sistema de pagamento do Itaú.  Mas isso não é para salários e afins que rodam dentro do itaú?  Ok, algo rodado através do itau. Eu tinha algo pra receber pelo itaú?  E ai as 3 letrinhas que vinham depois, antes de muitos e muitos números, se encaixaram no fundo da minha mente, como uma bigorna que cai em um jogo de tetris demoníaco…

“sin”.

Procurei pela minha irmã online para perguntar se tinha caído algo na conta dela também. E fiquei aqueles momentos parecendo nem respirar. O tempo suspenso, uma grande névoa, a visão turva, o peito se fechando em nó…

A confirmação veio instantes depois, e junto um comentário pragmático de bom uso para o dinheiro que me causou  nem estranheza, mas inveja. As pessoas são diferentes. E lidam de forma diferente com eventos iguais.  Eu, apertada de dinheiro, pensando em cortes, sabendo que iria ter que fingir ser boa negociante e regatear preços e serviços, olhava para aquele dinheiro como um monstro que tivesse se apossado da minha conta bancária. O que era ridículo, infantil, desproporcional, mas aquela linha no extrato bancário doía em mim e eu não consegui atinar nenhum uso que não me cortasse por dentro… No fundo, ainda não pensei.

Era a parte que me cabia do seguro de vida do meu pai.  Um seguro pequeno, que me coube um pequeno pedaço. Que fazia diferença no orçamento do mês e ainda assim….  Tudo conseguia pensar é que eu queria trocar aquilo, o resto do que estava na minha conta, e uma dívida 1000 vezes aquele valor por ele de volta e não podia. Tudo que eu podia era olhar aquele dinheiro inesperado na minha conta.  E chorar.

“sin”. De sinistro.

sinistro
adjetivo
  1. 1.
    frm. que usa preferencialmente a mão esquerda (diz-se de pessoa); esquerdo, canhoto.
  2. 2.
    que pressagia acontecimentos infaustos; agourento, funesto.

Sobre colheres, motivação e outras histórias.

Eu queria muito explicar pra vocês sobre a Teoria das Colheres, mas estou cansada e acho mesmo que gastei minha penúltima colher vivendo mais uma semana da forma mais produtiva, sociável e positiva que me foi possível.

Todas as vezes que as vozes (opsss) que reverberam dentro de mim gritam sem piedade o quão fracassada, limitada e ridícula eu sou, eu listo para mim mesma todas as coisas que andei fazendo, inacreditavelmente incríveis, que incluem ter levantado da cama e passam por tarefas bem executadas e em dia que aparentemente nem todo mundo é capaz de fazer no meu lugar.  Mas não é fácil. As vozes gritam alto e eu já nasci rouca.

E da mesma forma que por muito tempo o que era meu e o que era eu viviam em concha (pérola e câncer) escondidas dos olhos do mundo, essa sucessão interminável de pessoas normais, bem sucedidas, bem resolvidas, enquadradas com perfeição no que a sociedade espera delas, vivem diariamente suas lutas, suas dores, suas dúvidas. E elas podem ter saído vitoriosas quando se colocam na sua frente em toda a glória da normalidade, mas só elas sabem o quão sangrenta foi a batalha vivida.  Eles apenas escolheram enfrenta-las solitariamente e em silêncio estoico, porque, que triste, não sabiam melhor…

Hoje, indo pro trabalho, no meio de um capítulo do livro Alucinadamente Feliz (Jenny Lawson),  me senti como quem havia levado um soco na base do estômago e um abraço ao mesmo tempo. Segurei o choro e deixei o mais complacentemente possível que aquela sensação ficasse ecoando através do dia, cheio e cansativo como o anterior. A epifania vivida me cedeu uma série de colheres extras para passar pelo dia, e uma delas eu guardei bem escondida para poder ter a energia para escrever esse texto. E era uma colher das grandes, porque há muito o que dizer…

As pessoas tem várias teorias sobre quais são os desejos mais profundos e viscerais do homem enquanto espécie e o que o tirou um dia  da caverna e o tira hoje da cama. Somos uma planeta de ansiosos, deprimidos e neuróticos. Os melhores de nós,  profundamente decepcionados com o rumo da humanidade, e que ainda assim se levantam todos os dias, e insistem no que quer que seja sua rotina, seus objetivos e seus sonhos.  Mas o que os move?

Passei bons anos nos bancos da faculdade, lendo um sem número de autores, cada qual com sua idéia pseudo original da força motriz primeira que nos define e do desejo primordial que nos impulsiona. Ou versa vice vice versa…  Também durante a vida, as vezes tristemente sóbrios, as vezes totalmente enebriados, por puro diletantismo e descompromissados do viés da Academia, nos pegamos entre amigos discorrendo sobre nossas teorias, tão boas quanto qualquer outra.

Poder, Sexo, Inveja do Falo, Fixação na Mãe, Vontade Divina, Pura Inércia, a busca pela outra metade da laranja, a pura necessidade subsistência, karma, a cobiça e a ganância, os combinados imaginários, o desejo de ficar doidão ou mero tédio…  Já disse, teorias que dado a complexidade do objeto, são tão boas como outras quaisquer.

Mas sei lá, hoje tomada pela sensação dupla de soco no estômago fit abraço na alma, tive a sensação de que não existe sentimento mais avassalador do que o de, se sabendo único, se reconhecer no outro. Se sentir imbuído de pertencimento e validação.

Recapitulando minha vida inteira, meus gozos mais profundos vieram desses lugares de pertencer.  Gozos que foram físicos e muito mais que isso. De me sentir digna e merecedora. De entender que nunca estamos sós. De que a sensação de não sermos passíveis de ser compreendidos é uma falácia e que esse espaço de encontro onde sua batalha é a minha batalha e eu respeito as suas cicatrizes e a sua quantidade de colheres é O espaço.

Eu queria completar esse post te explicando a teoria das colheres. Mas só sobrou um pequeno espaço na minha ultima colher do dia pra dizer que tenho muito orgulho do que consigo fazer com o que eu tenho em mãos.  Ainda que as vezes, em alguns dias, seja só levantar da cama.

Sobre leite, dedos verdes e minhas mesquinharias.

Então, textão. É crônica do cotidiano mas tem muito texto, o que configura em textão. Esquece, vai pro blog… é muito textão.
A filha jovem adulta tem médico e te intima a ir junto. Ela tem as mais variadas queixas de saúde, então ir num clínico é sempre um ÓTIMO primeiro passo.
Chegamos dentro do horário e somos atendidas rapidamente. Ontem, voltando de uma ida ao bar próximo, a filha foi assaltada. Graças aos bons ventos, não aconteceu nada, apenas levaram a bolsa preta amada que partilhávamos (update: descobri que não foi a bolsa preta. UHU, oba!!!!), a chave de casa (essas fechaduras tão precisando de descarrego), o fone de ouvido e a identidade. O celular, junto ao corpo, ficou. E o susto. Esse também ficou. O mundo é mal e não tem lugar seguro. Ela estava em grupo, poucos quarteirões de casa. Fazer o que? Torcer pra ser sempre só um susto. Mas fato é que ela estava sem identidade.
Gente, amil é show. Tendo cadastro online, eles só precisam da carteirinha. Médico marcado online. Identidade fornecida online. Burocracia zero. Quase arrependida de não te feito amil e ter feito sulamérica. Ou não. Amil tava mais caro! Beleza. Entra no consultório e a médica pergunta qual a queixa?
– Nenhuma – ela diz.
Até tentei lembrar de algumas, ela fez uma cara blasê de quem diz, tá, mas não é por isso que estou aqui. Fiquei foi quieta, né? Pega os pedidos de exame, vai no laboratório para tirar dúvidas e caçamos um lugar pra tomar café. No shopping eu não ia. No 45 tava tudo fechado. Achamos um café junto à praça e sentamos ela foi lá pedir e pagar.
Volta com duas xícaras de café com leite, que não estava dos melhores, mas pelo menos tirou a sensação de estômago em jejum. E daqui a pouco a moça traz um copo de leite, também parte do pedido.
Tem toda uma explicação metafísica pro copo de leite. Algo como não tinha ‘café com leite’ no menu mas na hora de pedir no balcão o café grande virou café com leite mas já tinha pago o leite e ….
Não importa. Estamos nós na mesa com um café com leite cada e um longo e espumante copo de leite.
– Ai que saudade do meu irmão!
Amor? Nem… é que o irmão ama leite puro.
As tentativas de se livrar do leite foram várias. Inclusive uma nobre. Tá lá um senhor em condição de rua passando pela frente do lugar e perguntando pros transeuntes:
– Me paga um café com leite?
A filha gentilmente conversa com o senhor: – Não tenho como lhe pagar um café com leite. Mas o senhor aceita o meu copo de leite?!
– Com café. Me paga um café com leite?
– Então, não posso, mas o senhor aceita meu leite?
– Não obrigada, diz o senhor. E vira pro próximo que passa: Me paga um café com leite.
Eu tento engolir o pensamento classe média soberba de, pô, na falta do café com leite, com fome, eu beberia leite, ou qualquer outra coisa que me oferecessem. Mas puxa, o sujeito tem todo direito de não gostar de leite, né?
Um rapaz resolve pagar o tal do café com leite pro cara e o senhor rebate:
– É grande? Quero grande. E com açucar. Muito açucar. Já colocou açucar? Tem que ser muito.
Desculpa, minha empatia morreu no muito açucar.
Papo vem, papo vai, canela no leite, filha bebendo o leite em goles pequenos e sofridos seguidos por “odeio leite” ocasionais, minha natureza humanas hipponga vivendo do que a natureza dá, veio a tona quando um menino passou com uma rosa.
– Não gosto de flores. Estão mortas. Só gosto das que caem das árvores, porque ai é uma lembrança e ela já estava caindo mesmo…
– Mas e se eu te der uma planta no vaso?
– Não posso, tenho dedo podre, tem quem tenha dedo verde, eu tenho dedo podre pra planta…
E ai, o pensamento do dia, do mês, do ano, quiça da vida sai da boca da filha de 18 anos:
– Cada pessoa só tem dedo verde pra uma coisa na vida. O seu é para amigos.
Favor fazer 5 minutos de silêncio e compreender a profundidade da fala e do reconhecimento externo. Minha rede de proteção é tão bem intrincada que é reconhecida como a minha habilidade natural de fazer nascer, crescer e florescer alguma coisa. No caso, vocês. Voltamos a programação normal que a hipponga não apareceu ainda…
Passado os minutos de baque e reflexão sobre a frase, entre um gole e outro de leite, a conversa segue:
– Só se for cactus. A planta. Alias, quero ajeitar aquela nossa porta da rua. Colocar um tapete legal. Um Cactus na porta de entrada. E um Caçador de Sonhos.
– Mãe, tu é uma hippie.
Nunca neguei… sério, nunca.
Na praça velhinhas fazem ginástica.
– Eu, olha lá filha. Eu no futuro próximo.
– Tu é aquela primeira da fila lá, fazendo cara de o que é que eu fiz com a minha vida, enquanto segura a bola e a colega do lado, tb na frente da fila, massageia a barriga.
– Tia, posso ir pro fim da fila?
– Eita burra. No fim da fila vc massageia a da frente e ninguém te massageia.
– Melhor que na frente… mas eu posso ser a penúltima.
Passamos pelos aparelhos de exercício para terceira idade, e tá lá, duas senhoras fazendo certinho e um senhor que não conseguia coordenar os movimentos.
– Pra frente um pra trás o outro, Pra frente um pra trás o outro. – dizem as senhoras.
E tá lá o senhor fazendo ambos pra frente, ambos pra trás.
– Viu mãe? Pra frente um pra trás o outro.
– Ih, esquece. Na vida eu sou aquele senhor ali do tudo pra frente ou tudo pra trás…
Chegando na boca do metro, nos despedimos.
– Viu, você que queria ter entrado do outro lado, olha que passeio agradável nos fizemos, vimos as velhinhas com a bola, as outras no aparelho, Pra frente um pra trás o outro, Pra frente um pra trás o outro e o senhor ali tomando banho no chafariz ( não tinha visto, ela aponta, eu podia ter continuado sem ver!).  Passeio agradabilíssimo.
Tá né? Era o que tinha pro dia.
No metro, tudo certo até a central. E ai o pior de mim vem a cena. Entra família com cachorro, gato, papagaio e periquito, ou pelo menos filharada, sogros, tias, sombrinha, cadeira de praia, farnel e o escambau.  Nada disso me incomoda. É o caminho da praia, e obrigada pelo metrô que vai até a zona sul, e até pra barra, e possibilita ao menos esse entretenimento… o que me tirou do sério foi a forma, não o conteúdo. Eles entram aos berros, no empurra empurra, na risadaria, e aquele alegria sem contenção, que empurra os que já estavam no carro sem licença ou desculpa, e que te jogam contra os outros e reagem aos risos, como se fosse engraçado quase cair, naquele calor, em cima dos outros, enfim, isso me exaspera. Eu tenho problemas sérios com a ausência de contenção que se esparrama no espaço alheio. Tenho problemas  sérios com ausência de contenção e pronto. Mas essa parte eu sei que é a minha mesquinharia. A parte da falta de educação não deveria ser problema se indignar. Deveria?  Nunca sei.  O empurra empurra no vagão enquanto alegria de férias, encarando o apertamento do transporte coletivo como diversão e não fardo e a seletividade no que se recebe (leite não…) deveriam me incomodar? Ou é parte desse pior eu, esse que é o oposto do dedo verde para amigos, que trouxe para a minha vida gente que tá lá pra me segurar se eu cair do abismo, na hora que for e do jeito que for?
Vou levar pra refletir, e vou refletindo isso no elevador quando a vizinha da sobreloja no prédio do trabalho chama o elevador subindo (pra que, senhor? Pra que) e quando a porta abre eu aviso que está a caminho do 5°.  Ela entra mesmo assim, dando de ombros, nenhuma palavra, e enche o elevador com cheiro de quem toma banho de perfume doce, e faz o café com leite se revirar dentro de mim.  Nem, ESSE é o pior de mim. O que eu penso nesse momento é de longe o pior de mim. E eu salto do elevador sem dizer nem bom dia.

Eu sou uma pessoa de muitas querências. Querer é um verbo que me perpassa, muitas vezes me define. Mas apenas quero, não invejo.

Eu não tenho inveja de quem tem dinheiro.
Eu não tenho inveja de quem tem posses.
Eu não tenho inveja sequer de quem está apaixonado.
Eu não tenho inveja de quem tem bom senso, lucidez, ou se mistura no fluxo da normalidade.
Eu não tenho inveja de quem tem paciência, tranquilidade, segurança.
Eu não tenho inveja de quem faz amigos fácil, se relaciona com estranhos, gosta de gente.
Eu não tenho inveja de nada. Absolutamente nada, exceto uma. Grande, que me consome, me mastiga por dentro todos os dias. Cria ao meu redor esses muros intransponíveis, e cujo eco provoca avalanches que me soterram mal o dia iniciou.

eu tenho inveja, profunda e avassaladora inveja, de quem tem fé.

“Não sinta ciumes de sua irmã.
saiba que diamantes e rosas
são tão desconfortáveis quando saem dos lábios de alguém quanto sapos e rãs:
mais frios, também, e mais pontiagudos e cortantes.

Lembre-se do seu nome.
Não perca a esperança – o que você procura será encontrado.
Confie nos fantasmas. Confie naqueles que você ajudou vão ajuda-lo por sua vez.
Confie em seus sonhos.
Confie em seu coração, e confie na sua história.” (Neil Gaiman)

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O tudo e o nada.

De todas as mortes no RPG que meus personagens tiveram, a que mais me marcou foi uma em Kult, onde minha personagem, na fronteira do nada, no princípio dos tempos, se perdeu da trilha e deixou de existir. Foi paulatinamente esquecida. Esse jogo, coisa de duas décadas atrás, aconteceu com uma pessoa que definitivamente não existe mais. Guardo semelhanças, mas se eu me encontrasse com essa eu de antes, na rua sem aviso, era capaz deu não me reconhecer. E definitivamente não seria capaz de me entender.

Em retrospectiva, a personagem apagada da existência. Não deixou marcas. Ninguém a carregar algum fardo. Sem sentir ou deixar nenhum sofrimento. Sem manter nenhuma responsabilidade ou laço com o real, porque simplesmente nunca foi, me parece muito mais uma dádiva, uma generosidade da entropia, com ela e para com os seus. Cujas vidas poderiam até ser menos ricas sem ela, mas nesse contexto imaginário, nunca saberão porque nunca souberam. Assim como ela, porque nunca foi.
O niilismo supremo, mergulhado em balsamos para as culpas cristãs, os fardos que carregamos, as razões porque não desistimos de tudo, hoje, agora, da próxima vez que ficar tudo dificil…

Enfim, elucubrações filosóficas… Eu não fui talhada para a morte, quase tanto como não fui talhada para a vida.
E na esfera dos desejos impossíveis, fantasiosos e imaginários, apenas o deixar de ser.