O Sinistro

Demorou a cair a ficha. Os primeiros meses do ano são áridos financeiramente e eu não estava esperando. Acho que o pior foi não estar esperando.  Porque eu sempre estou esperando. Boas coisas, coisas ruins, eu traço cenários até dormindo. “E SE?” é minha expressão favorita e eu memorizo possibilidades de tanto medo das surpresas. O CID 10  chama de Ansiedade Generalizada. Eu chamo de outra terça feira.

Comecei o dia meio mal dormida, chegando cedo no trabalho, e antes de pegar no batente fui pagar uma conta. O saldo me causou estranheza.  Pela hora do dia, as contas agendadas teriam já batido, aquele dinheiro não fazia sentido. Pedi o estrato.

Havia um depósito desconhecido. Nada ai meu deus acabo de ficar rica, vou fugir pras Bahamas e não sei porque, mas mesmo modesto, substancial a ponto de ser notado mesmo eu não tendo esse controle assim tão específico do quanto deveria ter na minha conta naquela manhã.

Na sequência do depósito, e naquele momento eu não sabia se antes ou depois, haviam débitos que por instantes não reconheci.  A idéia (insana) que me ocorreu era  que alguém havia depositado algo na minha conta e estava tirando aos poucos. Não fazia sentido algum, e eu rodava que nem peru tonto na véspera da ceia.

Eu sou dessas. Apavoro primeiro. Penso depois. Raramente faço coisas apavorada, o apavoramento me trava o que é uma benção. Dá até pra disfarçar bem o fato deu apavorar primeiro…  Aqueles instantes de “ai meu deus ai meu deus ai meu deus” costumam ser só verborragia, ou desespero silencioso.  O passo seguinte é sempre um bom passo. Eu paro. Eu analiso o cenário (o que é que eu não pensei que desembocou nisso aqui?), divido o problema em pedaços e tento ir, apesar da ansiedade de resolver logo, um passo de cada vez.

Passo 1, esses débitos são meus?   Peguei as ultimas contas pagas, reconheci todos os valores debitados, dei conta de cada saída entre ontem e hoje, nada estava fora do ordinário nesse pedaço.

Passo 2, é de fato um depósito? Se sim, eu conseguia  identificar?  Fiquei ali olhando, pensando o que podia ser aquele dinheiro. Decifrando de onde podia ter vindo através do que vinha escrito… a primeira parte foi fácil: Sispag, o sistema de pagamento do Itaú.  Mas isso não é para salários e afins que rodam dentro do itaú?  Ok, algo rodado através do itau. Eu tinha algo pra receber pelo itaú?  E ai as 3 letrinhas que vinham depois, antes de muitos e muitos números, se encaixaram no fundo da minha mente, como uma bigorna que cai em um jogo de tetris demoníaco…

“sin”.

Procurei pela minha irmã online para perguntar se tinha caído algo na conta dela também. E fiquei aqueles momentos parecendo nem respirar. O tempo suspenso, uma grande névoa, a visão turva, o peito se fechando em nó…

A confirmação veio instantes depois, e junto um comentário pragmático de bom uso para o dinheiro que me causou  nem estranheza, mas inveja. As pessoas são diferentes. E lidam de forma diferente com eventos iguais.  Eu, apertada de dinheiro, pensando em cortes, sabendo que iria ter que fingir ser boa negociante e regatear preços e serviços, olhava para aquele dinheiro como um monstro que tivesse se apossado da minha conta bancária. O que era ridículo, infantil, desproporcional, mas aquela linha no extrato bancário doía em mim e eu não consegui atinar nenhum uso que não me cortasse por dentro… No fundo, ainda não pensei.

Era a parte que me cabia do seguro de vida do meu pai.  Um seguro pequeno, que me coube um pequeno pedaço. Que fazia diferença no orçamento do mês e ainda assim….  Tudo conseguia pensar é que eu queria trocar aquilo, o resto do que estava na minha conta, e uma dívida 1000 vezes aquele valor por ele de volta e não podia. Tudo que eu podia era olhar aquele dinheiro inesperado na minha conta.  E chorar.

“sin”. De sinistro.

sinistro
adjetivo
  1. 1.
    frm. que usa preferencialmente a mão esquerda (diz-se de pessoa); esquerdo, canhoto.
  2. 2.
    que pressagia acontecimentos infaustos; agourento, funesto.

Sobre colheres, motivação e outras histórias.

Eu queria muito explicar pra vocês sobre a Teoria das Colheres, mas estou cansada e acho mesmo que gastei minha penúltima colher vivendo mais uma semana da forma mais produtiva, sociável e positiva que me foi possível.

Todas as vezes que as vozes (opsss) que reverberam dentro de mim gritam sem piedade o quão fracassada, limitada e ridícula eu sou, eu listo para mim mesma todas as coisas que andei fazendo, inacreditavelmente incríveis, que incluem ter levantado da cama e passam por tarefas bem executadas e em dia que aparentemente nem todo mundo é capaz de fazer no meu lugar.  Mas não é fácil. As vozes gritam alto e eu já nasci rouca.

E da mesma forma que por muito tempo o que era meu e o que era eu viviam em concha (pérola e câncer) escondidas dos olhos do mundo, essa sucessão interminável de pessoas normais, bem sucedidas, bem resolvidas, enquadradas com perfeição no que a sociedade espera delas, vivem diariamente suas lutas, suas dores, suas dúvidas. E elas podem ter saído vitoriosas quando se colocam na sua frente em toda a glória da normalidade, mas só elas sabem o quão sangrenta foi a batalha vivida.  Eles apenas escolheram enfrenta-las solitariamente e em silêncio estoico, porque, que triste, não sabiam melhor…

Hoje, indo pro trabalho, no meio de um capítulo do livro Alucinadamente Feliz (Jenny Lawson),  me senti como quem havia levado um soco na base do estômago e um abraço ao mesmo tempo. Segurei o choro e deixei o mais complacentemente possível que aquela sensação ficasse ecoando através do dia, cheio e cansativo como o anterior. A epifania vivida me cedeu uma série de colheres extras para passar pelo dia, e uma delas eu guardei bem escondida para poder ter a energia para escrever esse texto. E era uma colher das grandes, porque há muito o que dizer…

As pessoas tem várias teorias sobre quais são os desejos mais profundos e viscerais do homem enquanto espécie e o que o tirou um dia  da caverna e o tira hoje da cama. Somos uma planeta de ansiosos, deprimidos e neuróticos. Os melhores de nós,  profundamente decepcionados com o rumo da humanidade, e que ainda assim se levantam todos os dias, e insistem no que quer que seja sua rotina, seus objetivos e seus sonhos.  Mas o que os move?

Passei bons anos nos bancos da faculdade, lendo um sem número de autores, cada qual com sua idéia pseudo original da força motriz primeira que nos define e do desejo primordial que nos impulsiona. Ou versa vice vice versa…  Também durante a vida, as vezes tristemente sóbrios, as vezes totalmente enebriados, por puro diletantismo e descompromissados do viés da Academia, nos pegamos entre amigos discorrendo sobre nossas teorias, tão boas quanto qualquer outra.

Poder, Sexo, Inveja do Falo, Fixação na Mãe, Vontade Divina, Pura Inércia, a busca pela outra metade da laranja, a pura necessidade subsistência, karma, a cobiça e a ganância, os combinados imaginários, o desejo de ficar doidão ou mero tédio…  Já disse, teorias que dado a complexidade do objeto, são tão boas como outras quaisquer.

Mas sei lá, hoje tomada pela sensação dupla de soco no estômago fit abraço na alma, tive a sensação de que não existe sentimento mais avassalador do que o de, se sabendo único, se reconhecer no outro. Se sentir imbuído de pertencimento e validação.

Recapitulando minha vida inteira, meus gozos mais profundos vieram desses lugares de pertencer.  Gozos que foram físicos e muito mais que isso. De me sentir digna e merecedora. De entender que nunca estamos sós. De que a sensação de não sermos passíveis de ser compreendidos é uma falácia e que esse espaço de encontro onde sua batalha é a minha batalha e eu respeito as suas cicatrizes e a sua quantidade de colheres é O espaço.

Eu queria completar esse post te explicando a teoria das colheres. Mas só sobrou um pequeno espaço na minha ultima colher do dia pra dizer que tenho muito orgulho do que consigo fazer com o que eu tenho em mãos.  Ainda que as vezes, em alguns dias, seja só levantar da cama.

Sobre leite, dedos verdes e minhas mesquinharias.

Então, textão. É crônica do cotidiano mas tem muito texto, o que configura em textão. Esquece, vai pro blog… é muito textão.
A filha jovem adulta tem médico e te intima a ir junto. Ela tem as mais variadas queixas de saúde, então ir num clínico é sempre um ÓTIMO primeiro passo.
Chegamos dentro do horário e somos atendidas rapidamente. Ontem, voltando de uma ida ao bar próximo, a filha foi assaltada. Graças aos bons ventos, não aconteceu nada, apenas levaram a bolsa preta amada que partilhávamos (update: descobri que não foi a bolsa preta. UHU, oba!!!!), a chave de casa (essas fechaduras tão precisando de descarrego), o fone de ouvido e a identidade. O celular, junto ao corpo, ficou. E o susto. Esse também ficou. O mundo é mal e não tem lugar seguro. Ela estava em grupo, poucos quarteirões de casa. Fazer o que? Torcer pra ser sempre só um susto. Mas fato é que ela estava sem identidade.
Gente, amil é show. Tendo cadastro online, eles só precisam da carteirinha. Médico marcado online. Identidade fornecida online. Burocracia zero. Quase arrependida de não te feito amil e ter feito sulamérica. Ou não. Amil tava mais caro! Beleza. Entra no consultório e a médica pergunta qual a queixa?
– Nenhuma – ela diz.
Até tentei lembrar de algumas, ela fez uma cara blasê de quem diz, tá, mas não é por isso que estou aqui. Fiquei foi quieta, né? Pega os pedidos de exame, vai no laboratório para tirar dúvidas e caçamos um lugar pra tomar café. No shopping eu não ia. No 45 tava tudo fechado. Achamos um café junto à praça e sentamos ela foi lá pedir e pagar.
Volta com duas xícaras de café com leite, que não estava dos melhores, mas pelo menos tirou a sensação de estômago em jejum. E daqui a pouco a moça traz um copo de leite, também parte do pedido.
Tem toda uma explicação metafísica pro copo de leite. Algo como não tinha ‘café com leite’ no menu mas na hora de pedir no balcão o café grande virou café com leite mas já tinha pago o leite e ….
Não importa. Estamos nós na mesa com um café com leite cada e um longo e espumante copo de leite.
– Ai que saudade do meu irmão!
Amor? Nem… é que o irmão ama leite puro.
As tentativas de se livrar do leite foram várias. Inclusive uma nobre. Tá lá um senhor em condição de rua passando pela frente do lugar e perguntando pros transeuntes:
– Me paga um café com leite?
A filha gentilmente conversa com o senhor: – Não tenho como lhe pagar um café com leite. Mas o senhor aceita o meu copo de leite?!
– Com café. Me paga um café com leite?
– Então, não posso, mas o senhor aceita meu leite?
– Não obrigada, diz o senhor. E vira pro próximo que passa: Me paga um café com leite.
Eu tento engolir o pensamento classe média soberba de, pô, na falta do café com leite, com fome, eu beberia leite, ou qualquer outra coisa que me oferecessem. Mas puxa, o sujeito tem todo direito de não gostar de leite, né?
Um rapaz resolve pagar o tal do café com leite pro cara e o senhor rebate:
– É grande? Quero grande. E com açucar. Muito açucar. Já colocou açucar? Tem que ser muito.
Desculpa, minha empatia morreu no muito açucar.
Papo vem, papo vai, canela no leite, filha bebendo o leite em goles pequenos e sofridos seguidos por “odeio leite” ocasionais, minha natureza humanas hipponga vivendo do que a natureza dá, veio a tona quando um menino passou com uma rosa.
– Não gosto de flores. Estão mortas. Só gosto das que caem das árvores, porque ai é uma lembrança e ela já estava caindo mesmo…
– Mas e se eu te der uma planta no vaso?
– Não posso, tenho dedo podre, tem quem tenha dedo verde, eu tenho dedo podre pra planta…
E ai, o pensamento do dia, do mês, do ano, quiça da vida sai da boca da filha de 18 anos:
– Cada pessoa só tem dedo verde pra uma coisa na vida. O seu é para amigos.
Favor fazer 5 minutos de silêncio e compreender a profundidade da fala e do reconhecimento externo. Minha rede de proteção é tão bem intrincada que é reconhecida como a minha habilidade natural de fazer nascer, crescer e florescer alguma coisa. No caso, vocês. Voltamos a programação normal que a hipponga não apareceu ainda…
Passado os minutos de baque e reflexão sobre a frase, entre um gole e outro de leite, a conversa segue:
– Só se for cactus. A planta. Alias, quero ajeitar aquela nossa porta da rua. Colocar um tapete legal. Um Cactus na porta de entrada. E um Caçador de Sonhos.
– Mãe, tu é uma hippie.
Nunca neguei… sério, nunca.
Na praça velhinhas fazem ginástica.
– Eu, olha lá filha. Eu no futuro próximo.
– Tu é aquela primeira da fila lá, fazendo cara de o que é que eu fiz com a minha vida, enquanto segura a bola e a colega do lado, tb na frente da fila, massageia a barriga.
– Tia, posso ir pro fim da fila?
– Eita burra. No fim da fila vc massageia a da frente e ninguém te massageia.
– Melhor que na frente… mas eu posso ser a penúltima.
Passamos pelos aparelhos de exercício para terceira idade, e tá lá, duas senhoras fazendo certinho e um senhor que não conseguia coordenar os movimentos.
– Pra frente um pra trás o outro, Pra frente um pra trás o outro. – dizem as senhoras.
E tá lá o senhor fazendo ambos pra frente, ambos pra trás.
– Viu mãe? Pra frente um pra trás o outro.
– Ih, esquece. Na vida eu sou aquele senhor ali do tudo pra frente ou tudo pra trás…
Chegando na boca do metro, nos despedimos.
– Viu, você que queria ter entrado do outro lado, olha que passeio agradável nos fizemos, vimos as velhinhas com a bola, as outras no aparelho, Pra frente um pra trás o outro, Pra frente um pra trás o outro e o senhor ali tomando banho no chafariz ( não tinha visto, ela aponta, eu podia ter continuado sem ver!).  Passeio agradabilíssimo.
Tá né? Era o que tinha pro dia.
No metro, tudo certo até a central. E ai o pior de mim vem a cena. Entra família com cachorro, gato, papagaio e periquito, ou pelo menos filharada, sogros, tias, sombrinha, cadeira de praia, farnel e o escambau.  Nada disso me incomoda. É o caminho da praia, e obrigada pelo metrô que vai até a zona sul, e até pra barra, e possibilita ao menos esse entretenimento… o que me tirou do sério foi a forma, não o conteúdo. Eles entram aos berros, no empurra empurra, na risadaria, e aquele alegria sem contenção, que empurra os que já estavam no carro sem licença ou desculpa, e que te jogam contra os outros e reagem aos risos, como se fosse engraçado quase cair, naquele calor, em cima dos outros, enfim, isso me exaspera. Eu tenho problemas sérios com a ausência de contenção que se esparrama no espaço alheio. Tenho problemas  sérios com ausência de contenção e pronto. Mas essa parte eu sei que é a minha mesquinharia. A parte da falta de educação não deveria ser problema se indignar. Deveria?  Nunca sei.  O empurra empurra no vagão enquanto alegria de férias, encarando o apertamento do transporte coletivo como diversão e não fardo e a seletividade no que se recebe (leite não…) deveriam me incomodar? Ou é parte desse pior eu, esse que é o oposto do dedo verde para amigos, que trouxe para a minha vida gente que tá lá pra me segurar se eu cair do abismo, na hora que for e do jeito que for?
Vou levar pra refletir, e vou refletindo isso no elevador quando a vizinha da sobreloja no prédio do trabalho chama o elevador subindo (pra que, senhor? Pra que) e quando a porta abre eu aviso que está a caminho do 5°.  Ela entra mesmo assim, dando de ombros, nenhuma palavra, e enche o elevador com cheiro de quem toma banho de perfume doce, e faz o café com leite se revirar dentro de mim.  Nem, ESSE é o pior de mim. O que eu penso nesse momento é de longe o pior de mim. E eu salto do elevador sem dizer nem bom dia.

Eu sou uma pessoa de muitas querências. Querer é um verbo que me perpassa, muitas vezes me define. Mas apenas quero, não invejo.

Eu não tenho inveja de quem tem dinheiro.
Eu não tenho inveja de quem tem posses.
Eu não tenho inveja sequer de quem está apaixonado.
Eu não tenho inveja de quem tem bom senso, lucidez, ou se mistura no fluxo da normalidade.
Eu não tenho inveja de quem tem paciência, tranquilidade, segurança.
Eu não tenho inveja de quem faz amigos fácil, se relaciona com estranhos, gosta de gente.
Eu não tenho inveja de nada. Absolutamente nada, exceto uma. Grande, que me consome, me mastiga por dentro todos os dias. Cria ao meu redor esses muros intransponíveis, e cujo eco provoca avalanches que me soterram mal o dia iniciou.

eu tenho inveja, profunda e avassaladora inveja, de quem tem fé.

“Não sinta ciumes de sua irmã.
saiba que diamantes e rosas
são tão desconfortáveis quando saem dos lábios de alguém quanto sapos e rãs:
mais frios, também, e mais pontiagudos e cortantes.

Lembre-se do seu nome.
Não perca a esperança – o que você procura será encontrado.
Confie nos fantasmas. Confie naqueles que você ajudou vão ajuda-lo por sua vez.
Confie em seus sonhos.
Confie em seu coração, e confie na sua história.” (Neil Gaiman)

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O tudo e o nada.

De todas as mortes no RPG que meus personagens tiveram, a que mais me marcou foi uma em Kult, onde minha personagem, na fronteira do nada, no princípio dos tempos, se perdeu da trilha e deixou de existir. Foi paulatinamente esquecida. Esse jogo, coisa de duas décadas atrás, aconteceu com uma pessoa que definitivamente não existe mais. Guardo semelhanças, mas se eu me encontrasse com essa eu de antes, na rua sem aviso, era capaz deu não me reconhecer. E definitivamente não seria capaz de me entender.

Em retrospectiva, a personagem apagada da existência. Não deixou marcas. Ninguém a carregar algum fardo. Sem sentir ou deixar nenhum sofrimento. Sem manter nenhuma responsabilidade ou laço com o real, porque simplesmente nunca foi, me parece muito mais uma dádiva, uma generosidade da entropia, com ela e para com os seus. Cujas vidas poderiam até ser menos ricas sem ela, mas nesse contexto imaginário, nunca saberão porque nunca souberam. Assim como ela, porque nunca foi.
O niilismo supremo, mergulhado em balsamos para as culpas cristãs, os fardos que carregamos, as razões porque não desistimos de tudo, hoje, agora, da próxima vez que ficar tudo dificil…

Enfim, elucubrações filosóficas… Eu não fui talhada para a morte, quase tanto como não fui talhada para a vida.
E na esfera dos desejos impossíveis, fantasiosos e imaginários, apenas o deixar de ser.

Dos bálsamos e olores.

Senta, que lá vem história…
 
Ia falar do meu inferno astral das trolhas voadoras que sempre começa em novembro e vai até abril, mas que esse ano eu tô sem estrutura pra lidar… Ai toca o telefone e é Leticia Telles com aquela voz doce de pedinte sabe? E eu já tamborilando na mesa pensando: Ai vem…
 
Corta a cena. Em um passado remoto, quando o Matheus Telles era uma coisinha rosada e loirinha, das tiradas espirituosas e da alma de poeta (hoje ele só não é loirinho…), ele foi um dos ganhadores do concurso de literatura da escola, o Maria Helena Xavier Fernandes, com uma poesia muito linda sobre medo. Dia desses pra trás (te preciso o dia, 24/08, fazer o que…) revirando as coisas do pai pra organizar documentos, dor profunda era as vezes entrecortadas por pequenos achados, e um deles foi a cópia do pai do livrinho onde tinha as obras vencedoras. Eu lembro dele subindo no palco, todo orgulhoso, pra ler a poesia pra família toda…
A gente já sabia que ele era um poderoso contador de histórias, uma alma velha com uma grande bagagem, e alguma preguiça de colocar no papel. E o reconhecimento dos seus pares, ali, no palco, era uma injeção de auto estima e de validação. Óbvio que ele passou por vários outros momentos depois, na cozinha, fora dele, onde ele foi validado, mas esse momento ao menos pra mim, era a lembrança representativa da validação dele.
Marfelo Lacerda teve a dele muito antes, medalhista em olimpíadas de matemática. Lembro que ele saia por ai ostentando aquela medalha com um orgulho enorme, e a alegria que era ver ele tão cheio de si mesmo. Depois ele foi pra outros lados, artista multifacetado do ‘dizain’ e compositor de músicas lindas!!! Mas ele teve esse momento exatas de sair pra todo canto com aquela medalha no pescoço, aquela que referenda do que se é capaz! Ai agora comecinho do mês ele fez o primeiro show solo dele. Tava lá, nervosão. Lotou o stúdio que ele alugou para o evento, amigos todos prestigiando, ele se sentiu feliz e validado e o dinheiro deu até pra comprar umas coisas pras artes. Uma arte validando a outra. Eu achei digno. E no meio de dias tristes, fiquei feliz.
 
Vamos retomar o telefonema? Então, era Letícia com a voz doce de pedinte, e eu confesso, exasperada com as trolhas voadoras de novembro, e com o rebote da noite mal dormida, já estava esperando más notícias. Não é como se 2016 tivesse me trazido boas notícias de graça ao telefone, né? As poucas boas noticias, talvez presentes de grego até, mas as poucas, vieram de batalhas difíceis, sofridas, que deixaram talhos enormes que em agosto vieram a se abrir e das quais eu ainda estou costurando, todos os dias, um de cada vez.
 
Mas era minha caçula, que em 7 dias fará 18 anos, meu bebê, que virou uma moça bonita e avoadinha. Já fui lá prestigiar ela no teatro várias vezes, e bater palmas pra ela, orgulhosa, mas ela ali era sempre parte do grupo, peça, e ainda não tinha tido esse momento de quando os holofotes se viram momentaneamente pra você e eu queria isso pra ela. Essa momento onde alguém olha especificamente pra você, te tira do meio do grupo, e valida algo especifico que você faz. E ela bem merecia, nesse ano mais que em qualquer outro, por um momento assim.
 
– Mãe, sabe o concurso Maria Helena? Eu ganhei. E a premiação é amanhã.
 
2016 tem sido um ano horrível, em todas as esferas. Doloroso. Difícil. Um ano de revirar no lodo. Um ano de feridas expostas. Mas eu sou muito grata ao universo por cada vez que ele se vira na minha direção e estende as mãos com um balsamo qualquer. Duplamente grata, quando esse bálsamo atinge um filho meu.

Oi, bom me ver, estava com saudade de mim.

5a feira, meio dia. Dedos tamborilam na mesa enquanto olho minha check list para quinta e sexta. Quase metade já havia sido feita. Sinto uma certa impaciência porque não sei o que fazer na sequência, e saio pra almoçar.

Está quente lá fora. Sinto pouca fome, é cedo para quem costuma almoçar quase 14 horas e como disse, está calor. Mas como na quantidade e qualidade de costume e volto pro escritório. Os pés doem um pouco. Já estão doendo tem tempo. Eu ando pesada pra eles, coitados.

De volta pra minha mesa, espirro água termal na cara, e me pego me sacudindo na cadeira. Há uma onda de energia ativa que quase dá pra ver. Abro um chat com a amiga e comento que meu T4 deve estar explodindo, mas depois de fechar começo a notar algumas coisas. Não parece um surto de hipertireoidismo.

De fato eu estava irriquieta. Mas estava focada. Ia fazendo as tarefas sem checar a lista, apenas indo lá para tickar as danadas (prazer de todo portador de TDA, Ansiosos e afins). Me lembrei de coisas que eu não tinha colocado na lista mas precisavam ser feitas. Não estava irritada nem nervosa. Não estava cansada nem desanimada. Eu simplesmente queria produzir e parecia que não havia tarefas boas o bastante.

Olhei de relance a lista. As tarefas mais simples estavam todas feitas. E não incompletas como vinha acontecendo. Documentos guardados no lugar certo, relatórios devolvidos para suas gavetas, rascunhos descartados.  Tudo que era começado , tinha a sua finalização de forma organizada.

Ataquei as tarefas mais chatas. As que demandavam atenção, concentração. Elas foram gerando sub tarefas quer fui delegando para minha assistente, e engatamos num eficiente bate bola de tarefas. Ela me devolvida as demandas, eu tratava, passava outra tarefa, e rapidamente fechamos um trabalho chato que vinha se arrastando por meses.

Olhei pra minha lista de tarefas. Não tinha terminado o expediente, e a única tarefa que sobrava era especificamente uma tarefa de sexta feira. Parte dos colegas encerraram seu dia, mas eu estava achando um desperdício não aproveitar aquela energia produtiva.

Parei uns instantes olhando em volta. A mente funcionando afiada como uma navalha nova foi fazendo conexões e fui listando novas tarefas, pendências menos importantes mas que alguma hora precisariam ser endereçadas.

Deixei pré-prontos planilhas e relatórios para o mês seguinte, hábito que eu criei pra garantir nunca perder o prazo de uma prestação, mas que nos últimos meses me roubavam um tempo precioso de olhar perdido de “o que é mesmo que eu tenho que fazer aqui? Como faço pra não perder essa formula? Qual é mesmo a coluna que tenho que linkar agora?”…  Hoje, em pouco mais de uma hora ela estava pronta, conferida, correta, esperando dezembro chegar.

Comecei a fazer aqueles backups que você sabe que precisa fazer e fica adiando. Calculados milimetricamente para o primeiro DVD de dados preciosos terminar junto com o fim possível do expediente, e já engatilhado os que seriam gravados depois.

Andei até a Central pra pegar o metrô com uma dor nos pés tão grande que na véspera faria eu me arrastar, mas peguei o metrô, depois meu ônibus andando devagar mais firme.  Vim lendo no ônibus. Descansada, sem precisar reler parágrafos, sem sentir os olhos fechando de cansaço.

E tudo que eu conseguia sentir era gratidão.  Em 22 de agosto meu pai me deixou no susto, sem aviso prévio, sem nota explicativa no rodapé. Estava lá. Não estava mais.  A perda dele me foi , como seria de se esperar, uma dor tão inexplicável e profunda. E me paralisou. A tristeza, para além da esperada, me tomava no meio do dia, no ônibus, no trabalho, em casa, e eu só conseguia chorar. Nada estava bom. Nada era interessante. Minhas crises de ansiedade começaram a  ficar insuportáveis.  Meus bloqueios de fobia social me fizeram querer ficar em casa, em posição fetal, sem ver ninguém. Tudo era custoso. Falar com gente conhecida era custoso. Falar com gente amada era custoso. Eu só não queria falar.  Eu estava quebrada, desmontada em mil pedaços e não sabia por onde começar a me montar. Não dormia mais de uma hora seguida. Não conseguia parar de comer. Não conseguia me lembrar das coisas mais corriqueiras. E meu spam de atenção tendia a zero.

Eu já tinha estado em lugares bem parecidos com esse. Mas dessa vez eu fui buscar ajuda. De todos os lugares onde eu podia buscar ajuda. Pareceu piorar no começo. Me forçar a estar com gente. Me forçar a trabalhar. Os remédios dando efeitos colaterais antes de começarem a funcionar. As tentativas e erros de dosagens e associações. A tática kamikase pra lidar com a tireoide.

Mas havia as pessoas. As pessoas ali ao alcance da minha mão.

Pessoas que me ampararam. Que ficaram silenciosamente ao meu lado. Que me mandaram procurar ajuda. Que estenderam a mão para me ajudar. Que garantiram que eu tivesse ajuda. Que me deram a mão a cada tropeço no caminho. Que tiveram paciência e generosidade. Que mesmo distantes olharam por mim.

Tudo isso nesse intrincado caminho de volta à vida. de reconstrução de si, ainda tateando e cambaleando, ainda sem saber se o dia intelectualmente-profissionalmente perfeito vai se repetir amanhã. Mas ele é possível. Eu vi.  Ainda que não tenha voltado ao meu normal ainda, ele aconteceu hoje, vai acontecer outra vez. E outra. E outra também.

5a feira. Eu acordei e no decorrer do dia, lembrei de mim mesma, e me reconheci.