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O poder do amor

Minha mãe melhorou com a ausência do meu pai. Descontos feitos para o quanto se pode melhorar aos 84 anos e contando as perdas neurológicas cumulativas dos últimos 18 anos. E não vou me esquivar do olhar vazio quando eu pergunto quem eu sou. Mas tudo isso a parte, ela melhorou.

De vez em quando eu acho que a ficha cai. Não a da lembrança, mas a ficha da percepção de que há coisas que ela perdeu. É como se ela olhasse para dentro em busca de algo que não está mais lá. E aí eu vejo os olhos dela marejarem… Mas sempre pode ser só o reflexo dos meus. É que eu imagino o tamanho da dor dessa consciência, se ela vem ainda que em ondas, de que não se sabe mais, emocionalmente, o que se costumava saber, uma epifania intermitente de que não habitamos mais o nosso próprio corpo e nos vemos na frente de estranhos que supostamente deveríamos amar. Ou talvez seja eu me permitindo sentir a dor de ser a estranha que ela costumava amar.

Mas passa, e ela não sabe quem eu sou, mas polida e resignada, aceita a minha palavra como verdade, aceita meu beijo e meu eu te amo, antes de virar a pagina da revista que ela finge que interessadamente vê.

Eu podia ter começado esse texto dizendo que minha mãe melhorou sob os cuidados da minha irmã, com as novas cuidadoras ou com o incansável trabalho de fisioterapia dos últimos 11 anos que achou solo fértil o suficiente para florir. Teria sido mais respeitoso, mais justo, menos amargo. Mas eu tomo meu café sem açúcar e escolhi começar pela afirmação de que ela melhorou com a ausência do meu pai. É sintomático, fala de mim que se reconstrói no acumulo das perdas, no peso das escolhas, no fardo das ausencias.

Assisti hoje logo cedo, mal tinha pulado da cama, um video do Marcos Piangers sobre o poder do EU TE AMO. Essa é uma frase de tremendo impacto e poder. EU TE AMO. Ela desconcerta, desestabiliza e depois constrói. Desci as escadas comovida, um tanto quanto virada no meu avesso, e disse pra minha mãe, Eu te amo. Impacto. Nesse lugar facetado que é dentro dela, eu quase podia ver os neurônios em histeria, buscando conexões já perdidas, cientes que não há como se ficar impassível frente ao amor. Impacto. Ela me olha e é como se ela desejasse desesperadamente saber quem eu sou, pra responder eu também .

Já tem mais de 5 anos que trabalho incansavelmente contra meu Woody Allen interior (o critico chato e quase depressivo que me aponta o obvio sob a ótica do ridículo, ou, como aprendi na faculdade perdendo metade do glamour, o superego) para me permitir dizer repetidas vezes para todas as pessoas que fazem parte do amálgama que sou: EU TE AMO. E nos piores dias, isso me dá o poder de rasgar a teia da inércia, por amar e ser amada, falar e ouvir, e fazer coisas grandiosas. Eventualmente grandiosas como sair da cama de manhã. Eventualmente mudar a vida de alguém.

Então não é descrença no poder do amor, mas talvez um certo olhar novo sobre a convivência, os espaços, os limites. A compreensão de que esses pactos de cuidados que firmamos são capazes de nos tirar de poços profundos, mas também de atropelar e invadir, ainda que cálido e morno, por ser amor.

Nesses dias, vi a mãe folhear revistas que ela não lê, mas exercita a coordenação motora fina e eventualmente evoca lembranças, ligadas ou não a emoção que as definia quando tudo era encadeado e ela morava dentro de si. Passa bons momentos do dia, após o almoço e o lanche, sentada na cozinha, observando o movimento da casa, nem que seja o som dos pratos sendo lavados, louças guardadas ou a irritante geladeira que apita quando a gente esquece de fechar. Come sozinha, em seu próprio tempo, a sopa, a comida, a sobremesa. Não ha pressa ou impaciência, Apenas não há.

O pai, sentado ao lado dela, repetia incontáveis vezes; Come , Clóris. E virava o prato dela para garantir que tudo estava no campo reduzido de visão que ela tem. Mas logo se impacientava, apreensivo, e lhe tomava o talher, e lhe impunha outro ritmo. Rapidamente ela se enfastiava e a refeição terminava com comida ainda no prato. Ela ia com ele para a sala, imediatamente após as refeições, para se sentar nas poltronas confortáveis que ele comprou pra ela, porque a cadeira de rodas era dura e desconfortável e ele precisava ter certeza que ela estava sempre confortável, mesmo sabendo que era impossível de fato estar. Não o tempo todo, pelo menos. As vezes se davam as mãos, as duas poltronas lado a lado, e o silêncio sepulcral frente a TV que ela na verdade nunca entendeu direito (fato, a mãe se confundia com os comerciais no meio das novelas ou filmes, e nos fazia gargalhar quando perguntava o que um coisa – a novela – tinha que ver com a outra – o comercial.)

Tudo isso era ato de amor. De devoção, de cuidado, de culpa, de ignorância, de ansiedade, de impaciência. Mas sobretudo de amor. Chegava a ser lindo de olhar. Ou terrível. A preocupação crescente de que tudo fosse para ela. Por devoção, por cuidado, por culpa, por ignorância, por ansiedade, por impaciência. Mas sobretudo por amor.

EU TE AMO desconcerta, desestabiliza e então constrói. Constrói muitas coisas. Coisas que libertam e que prendem. Coisas que revelam e que cegam. Coisas que estimulam e que acomodam.

Não é absoluto. Não é a panaceia que irá nos redimir dessa vida que se extingue paulatinamente desde o dia que nascemos. Não é, eu vos digo, nem a verdade nem a luz. Não vem pronta de fábrica , independente do sujeito que a profere, das histórias que se carrega, dos medos que se tem.

Se feriu, não era amor. Quem disse? Talvez fosse. Todos os meus amores perdidos, todas as vezes que o coração se partiu, todas as vezes que errei, todos os espaços que invadi, todos os segredos que fucei, todas as bobagens que eu fiz.

EU TE AMO é só essa expressão de poder, que transcende a gente – já que somos só a imperfeição de sermos o que quer que sejamos – , e aí desconcerta, desestabiliza e então constrói.

Sabe-se lá o quê.

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