Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

Vicky, Cristina e o Nada

Eu podia ser ultra cool e dizer que é um ótimo filme de uma ótima fase do Woody Allen e discorrer sobre as diversas conotações filosóficas que o filme apresenta e… Bem, eu podia. Mas Vicky Cristina Barcelona tem um problema que é recorrente na obra do Woody Allen: é um belo tratado,mas sobre o nada. O W.A. é uma espécie cronista visual cujo tema fundamental é a neurose humana. E não nego o seu talento para fazer retratos, muitas vezes divertidíssimos, sobre o tema. Eu não desgosto do trabalho dele, só tenho quase sempre (excessão pro A Rosa Púrpura do Cairo, que é um filme que eu amo de paixão) a sensação de incompletude e inutilidade quando os créditos começam a subir. A idéia é que para ver neurose pela neurose, basta a gente se olhar no espelho: e muitas vezes os filmes do W.A. são só isso: a neurose pela neurose. Continue lendo “Vicky, Cristina e o Nada”

Anúncios
Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

A Onda (ou todo ser humano é um fascista)

Todo ser humano almeja o poder. Todo ser humano necessita de identificação de grupo. Todo ser humano deseja ‘fazer parte’, não importando do que. Todo ser humano quer ser considerado especial e melhor que os que não fazem parte de seu seleto grupo. Todo ser humano deseja estar certo. Todo ser humano deseja silenciar as vozes dissidentes. Todo ser humano deseja que suas ações sejam justificadas. Toda individualidade se anula frente ao poder do coletivo. Todo ser humano é um fascista por essência. Pesado? Irreal? Reducionista? A verdade é dura, triste e indesejável, e ainda assim, é uma verdade. Todo ser humano é, em essência, um fascista. E disso se trata o filme alemão Die Welle, de 2008

A Onda (Die Welle) é um filme mais pretensioso (no bom sentido) e dramático que seu homônimo A Onda (The Wave – 1981), mas ambos contam a mesma história, que é baseado em um livro (The Wave, de Todd Strasser, também de 1981) que por sua vez, conta um fato verídico ocorrido na década de 1960, numa ‘high school'(o equivalente ao nosso 2o grau) em Palo Alto, California. Continue lendo “A Onda (ou todo ser humano é um fascista)”

Crônicas do Cotidiano

Só mais 5 minutinhos…

Eu sou insone e estou desempregada. Isso em um mundo perfeito deveria significar longas horas de sono matinal, para recuperar as horas fixando o teto madrugada a fora e comemorar meu ostracismo. Mas só em um mundo perfeito.

De 2a a 6a o despertador toca as 5 da manhã, para tirar as crianças da cama. As vezes eu mal preguei o olho e lá vem a musiquinha do celular, que para não tomar ódio por ela, eu fico trocando frequentemente… O despertador toca de novo as 5:50, pro caso remoto deu ter voltado a dormir depois de tirá-los da cama, ou de não ter ouvido da primeira vez (E aí é aquela correria pra fazer tudo nos 15 ou 20 minutos que eles teriam restando). Continue lendo “Só mais 5 minutinhos…”

Pensamentos Aleatórios

A quase síndrome do ninho quase vazio

Sinceramente, achei que isso não ia ser problema. Ou melhor, deixa eu contextualizar essa coisa toda. Eu não sei se é meu lado psicótico que tá falando mais alto, ou todo mundo tem vários lados. Eu sou sim, chorona, emotiva, dramática. Minha vó, que o universo a tenha, me chamava de manteiga derretida. Por um dá cá aquela palha lá estava eu desidratando, toda melosa… Mas eu tenho a impressão que não é esse lado que fala mais alto pros outros ou até pra mim. Eu sou pragmática, ríspida, seca até. Nunca passei pela fase do “desliga você” “não desliga você” “ah não, desliga você” com namorado no telefone. Nunca fui de grandes demonstrações de afeto que saíssem do nada. Tenho uma objetividade seca com a vida e as coisas nela. O que é meio contraditório com a chorona, melosa e carente, ou com a surtada, surreal e idealista que também mora por aqui. Mas esquizofrenias a parte, eu não sou bibelô. Continue lendo “A quase síndrome do ninho quase vazio”

Crônicas do Cotidiano

Fiat Lux

Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental registrado na história, dizia que o conhecimento mais difícil a ser atingido era conhecer a si mesmo. E o mais fácil era dar conselho (se fosse bom, a gente vendia!). Restava então conhecer a natureza.

Então, no remoto ano de 600 a.C., Tales estava lá entediado de olhar pra a água e para a lua, sobre os quais suas teorias, a despeito da falta de instrumental, se mostraram bastante acertadas, e também de saco cheio de montar teoremas geométricos, igualmente acertados, resolveu brincar com uma pedrinha de âmbar amarelo.

Joga a pedrinha pra cá, empurra a pedrinha pra lá, e o âmbar, devidamente atritado, revela sua mágica propriedade de atrair pequenas partículas ao seu redor. Eureka! (Opss, pensador errado!) Sem saber, ele tinha descoberto a eletricidade, mais especificamente, a eletricidade estática.

A sorte é que a descoberta parou por aí. Com um pouco mais de instrumental para lhe dar respaldo, ele, ávido observador da natureza, poderia ter descoberto mais, entendido seu funcionamento e suas propriedades, aprendido a canalizar essas forças naturais, e eventualmente, reproduzi-las. Se ele tivesse feito tudo isso, teria entrado para a história como o inventor da maior e mais viciante droga de todos os tempos. E estaríamos irremediavelmente viciados não há séculos, mas há milênios… É que somos uma raça resiliente, mas incrivelmente dependente. Junk people total, desesperados por mais uma dose no exato segundo que nos tiram a tal da energia elétrica! Continue lendo “Fiat Lux”

Cotidiano

Pesadelo acordada: de volta à escola

A maternidade é definida por muitas coisas, e a maioria delas não tem o glamour que é vendido em propaganda do dia das mães…

Nos primeiros anos são as manchas de papinha e golfada nas camisas. O leve odor de pomada para assadura que insiste em não sair das mãos. E obviamente o duro aprendizado de conviver com a insônia forçada. Depois são os programas de índio; as sacolas absurdamente lotadas de “coisas de criança” ao invés de coisas de adultos; a perda progressiva da habilidade de conversar civilizadamente com qualquer ser que tenha idade mental superior a 10 anos de idade; os cagoetes de corujice; as unhas sempre sujas de guache e massinha apesar de terem sido meticulosamente limpas segundos atrás e um leve ar insana-descabelada-louca-varrida que acompanha o ritmo insano de se correr atrás de crianças. Continue lendo “Pesadelo acordada: de volta à escola”

Paradigmas e comportamentos · Pensamentos Aleatórios

Regidos pelo caos

Mamãe e papai me ensinaram a ser uma boa menina: O bem vem para quem faz o bem. Mas num universo regido pela teoria do caos, onde todo sistema é complexo e todos as influências relevantes eu nunca entendi muito bem como essa história de fazer o bem se encaixa no girar das engrenagens. Em certas horas a gente entende perfeitamente por que o homem precisa tanto da noção de deus e da religião.

Eu não sei ser prepotente a ponto de ser atéia. Então não sei se deus é uma idéia inventada ou se é simplesmente um conceito que não podemos atingir com seus tais planos misteriosos escritos em linhas tortas e letra de médico. Me contento em ser agnóstica e dizer que não sei se deus existe e que se existe, não cabe a mim compreendê-lo em sua totalidade. Mas a verdade é que existindo ou não, é um conceito necessário. Porque tem certas horas que o único, mas único consolo que o ser humano pode ter é dizer entredentes: “Deus tá vendo…”

Vendo o esforço. Vendo a tentativa muitas vezes vã de trocar o bem pelo bem. Vendo a impotência frente ao caos. Simplesmente vendo. E anotando nossos pontos em algum caderninho surrado, e nos dando um vale-brinde de pós-vida, céu, wherever… Porque por aqui a coisa tá feia! Continue lendo “Regidos pelo caos”