Pensamentos Aleatórios

Epifania do óbvio

Eis que de súbito, epifania do óbvio, construir memórias.

Hoje é sempre difícil, confuso, real. Há que se levantar da cama, varrer, lavar. Há que se pagar as contas, sentir dor, brigar. Tomar decisões que não se queria, querer decisões que não se pode tomar. idiossincrasias travestidas de dia, e vice versa versa vice outra vez de novo again.

Amanhã é sempre dúbio, mistério, segredo. Escuro tunel que nos leva do aqui até lá. Viver para ele é quase não viver, esperando, esperando, esperando… pelo que talvez, um dia, quem sabe, há de chegar.

Mas a gente sempre pode se lembrar. Da música de ninfa, do menino gritando ‘É o picolé…’ Do anel que não se queria, do filme que nem se gostou. Da dor que virou alegria, dá luz tão forte, ah a luz. A luz.  Do homem pisando na lua que se viu mas nem se viu. De mariposas dormindo na janela. De borboletas voando ao sol. Da casa do meio do nada. Do sonho que já se sonhou. Dos cabelos, curtos e lindos, dos cachos encostando nos ombros, do cachecol, do muro, a mesa do bar. Do avistar a distância, do platônico, do ideal. Dos pés nas folhas secas, da alma em outro lugar. Das palavras bem escritas no guardanapo que se achou. Da caixa de memórias que se foi, a caixa, não as memórias, nunca elas, nunca… Do batom que não saia, do rímel que já escorreu. Jaboticabas, estrelas, asa delta, dama da noite. Grama molhada, cheiro de terra, cheiro de chuva, marcar página de agenda com flor que morreu. Ladrilhos de rubi, avencas na janela, dias brancos, Gilberto Gil. Casaco azul, mais azul que o céu acima, e um tempo que toda dor se curava com rima.

Ah, Adriana, és agora um museu? De memórias na parede do pensamento que já esqueceu? Uma sexta feira em volta da fogueira de mais de 20 anos atrás? Certeza das coisas que tive, daquilo que é só meu?

Não, eu disse, de súbito, epifania do óbvio. Construo memórias. O telefonema, o abraço, o sorriso, a empatia, a ajuda, o muro. Na minha dor de hoje, uma lembrança terna amanhã. Nada tão grande, nada abissal, apenas ternura o suficiente pra viver o hoje, outra vez, na próxima manhã. Só o suficiente pra dissipar o mal. E saber que sem notar, sem querer, nem ouvir nem ver, uma lembrança se cria agora, uma memória se faz. Pra se lembrar amanhã de tudo que hoje parecia nunca mais.

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Pensamentos Aleatórios

Horário de Verão

Houve um tempo que eu gostava do horário de verão. Eu tinha saias brancas rodadas e muitos sonhos que rodavam junto. Os primeiros dias, onde o sol dizia ainda não, e o relógio dizia sim, eram o preço a pagar pelos últimos, noite alta a se despedir do sol com canções de boas vindas à lua. E no fim de tudo, porque nunca havia sentido que haviam me roubado uma, a hora de presente, extra, nova, para rodar a saia e sonhar.

Depois a vida era outra. O dia era curto. Era então só o pesadelo das crianças insones e sonadas. Não dormiam porque ainda era cedo sem ser. Não queriam acordar, ainda era cedo sem ser. O corpo desregulado, sem horários, sem noção. Mas no último dia me concediam de volta a hora roubada, para dormir ou viver, como bem me aprouvesse.

E a vida mudou outra vez. Hoje foi só essa hora a mais, que não pedi e não queria. Leva de volta. Essa, e outras mais. A hora devolvida foi a errada, torta,morta. Já se foi e eu nem vi. Quero outra hora, não essa. Quero a hora onde haviam saias para rodar.

Pensamentos Aleatórios

Insonia

Insonia. Insone.
O corpo pede, a mente protesta.
A mente implora. O corpo nega.

Da incapacidade de mente e corpo desejarem juntos o abandono, a rendição, o repouso. Mal dos notívagos, dos tristes, dos aflitos. A hora passa. Todos os sons se aguçam e preenchem o silêncio.

Alguém se vira na cama. O cachorro suspira. O computador geme. Um grilo distante e insistente que me lembra o de Mário Quintana a perfurar as implacaveis solidões noturnas. Terá ele encontrado o mais puro diamante perdido? Terá ele se perdido em sua loucura? O grilo… Eu. Ambos.

Insonia. Os dedos tamborilando no teclado. O livro resgatado mal folheado. A lista de interminaveis por fazer sendo gerida. O lençol amofanhado no canto. O travesseiro que chama meu nome.

Insone. Uma leve lembrança de ter sentido sono horas atrás. A dúvida que consome do e se… E se eu tivesse deitado, a despeito de tudo. E se. A despeito deitado tivesse tudo. E nada. E se.

A promessa da música que talvez amanhã seja bom pra algo. “Mamãe, Mamãe”, ecoa a voz do passado de uma memória construida, puramente emocional, “hoje já é amanhã?”. Não. Hoje é Hoje. Resto do dia que já foi. Um hoje que perdura. Dia, após dia, após dia. Só será amanhã se eu dormir. E eu não durmo. Renitente. Casmurro. Teimoso. Eu simplesmente não durmo.

Apago, ocasionalmente, quando um, corpo ou mente, perde a briga, cai ferido… apago. Mas não durmo. Insone. Insonia.

E nunca chega amanhã.

Pensamentos Aleatórios

Eu, essa casa do outro.

Eu sempre tive essa coisa de olhar, virar um pouco a cabeça e então, de súbito, pura epifania, entender. É como se o mundo fosse uma gigantesca ilusão de óptica, e fosse só uma questão de mudar a perspectiva, só um pouquinho, e tudo mudava. E era possivel alternar as imagens, entender as profundidades da percepção que o homem comum, a olho nú, sente tanta dificuldade de ver: a perspectiva alheia e a propria natureza humana.

Essa compreensão da natureza humana traçou meus primeiros rumos, depois abandonados e engavetados por contingências mil, mas nunca me abandonou. E mais, eu nunca errei. Continue lendo “Eu, essa casa do outro.”

Pensamentos Aleatórios

A segunda pele.

Papéis no mundo são construidos. Por hábito, por contingências, por resultado dessa amalgama de defeitos e qualidades… E todos temos os nossos. Eles nem sempre são o reflexo perfeito da nossa natureza, mas como segunda pele, acabam virando quem acreditamos ser.  Acabam virando nossa pele. E são esses papeis os nossos cartões de visita pro mundo, cujo feedback é sempre de “esta é você”. E completa-se o ciclo: escolhemos, conscientemente ou não como nos apresentamos ao mundo e o mundo nos envia a confirmação de quem somos, e não demora muito, quem realmente somos não está mais lá.

Não é uma máscara, é uma pele. Não é uma mentira, é um ajuste ao real. Não é um segredo, é uma memória nunca percebida e há muito perdida.  É o que aprendemos ser. Continue lendo “A segunda pele.”