Paradigmas e comportamentos

Sobre o Estado Laico, Políticas Públicas, a Hipocrisia e o Aborto

A discussão do momento é, com a indicação da nova ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci, é a legalização do aborto.

Vamos começar essa conversa esclarecendo alguns pontos? Pessoalmente? Eu sou contra o aborto. Nunca fiz um. Nunca pensei em fazer um. Acho muito, muito difícil cogitar qualquer situação em que eu faria um. Mas a discussão da legalização do aborto não deveria ser pessoal.  O aborto sim.  A legalização dele? NUNCA.

Legalização do aborto é questão de saúde pública, de política de Estado. Ou deveria ser. É mais do que respeitar o direito último que temos sobre nosso próprio corpo, é garantir que ao se ver nessa situação, uma mulher tenha amparo e segurança. E deixar de hipocrisia, porque abortos, queiramos ou não, acontecem aos montes todo santo dia. É parar de financiar a máfia das clínicas clandestinas. É transformar de fato em laico esse Estado híbrido em que vivemos, onde religião influencia políticas públicas, em detrimento das crenças individuais da população.  Continue lendo “Sobre o Estado Laico, Políticas Públicas, a Hipocrisia e o Aborto”

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Paradigmas e comportamentos

O ranço… ah o ranço!

Ao postar vários links de artigos interessantes sobre essa questão da doença do Lula, eu disse que não havia mais o que falar. Mas o fato é que sempre há, quando o incômodo gerado é tão grande, e a decepção com o ser humano se aprofunda ainda mais…

Na minha época de militância, nos referiamos ao ranço. Aqueles militantes raivosos, que cuspiam e bababam, que nem cachorro louco nas assembléias, sobre palanques improvisados, e gritavam “QUESTÂO DE ORDEM” a cada palavra do ‘adversário’, como se tudo fosse questão de vida ou morte…  Esses eram os que tinham o ranço. Trauma de infância, brincávamos. Freud explica! Daquele sentido do que se decompõe em contato com o ar de substâncias gordurosas, e fica renitente na sua boca quando se dá o azar de comer algo rançoso, veio esse sentido de mágoa mal resolvida, raivinha, rancor… Diziamos quer era que nem catapora, doença de criança, que uma hora eles iam crescer e isso ia passar. Será? Nisso, e em várias outras coisas, acredito que estávamos errados.

Mas depois dos embates acalorados, iamos todos beber cerveja no buteco mais próximo, e rir dos nossos próprios discursos, das nossas próprias neuroses, das nossas próprias idiossincrazias. Nem todos, é fato, mas muito de nós. Mas sobre aqueles cujas diferenças ideológicas eram ‘deal breaker’, tão fortes que impediam a saudável convivência social, não desejavamos o mal. Talvez engasgar durante o discurso, ou esquecer o que ia dizer e ficar lá em cima gaguejando… talvez. Mas não o mal, a morte, a doença, a vingança pequena e mesquinha de que o que desejava acontecesse e eles se vissem em maus lençois, pois como bons paladinos da suposta verdade, achavamos que se isso acontecesse, eles veriam que estavam errados o tempo todo, e nós, certos, sempre certos… e mesmo em nossa prepotência, queriamos o bem. Lutavamos pelo que quer que acreditassem, da manutenção do ensino público, gratuito e de qualidade ao ponto de encontro da próxima passeata, querendo o melhor, para nós, e para eles, os que ousavam discordar de nós (ah, como a juventude é deliciosamente prepotente…).

Viviamos nos primeiros momentos pós-ditadura. A Abertura era algo tão novo como criança que acaba de nascer. Não a conheciamos, não a entendiamos, não  sabiamos muito bem do que se tratava… então a palavra era preciosa, pensada, concatenada. Essa tal liberdade de dizer o que vinha na mente era tão nova, fresca, que era tratada com o respeito que merecia. Eu podia falar, e talvez tivesse que ouvir, então eu pensava no que ia falar…

Se algum sentimento vil, odiento, asqueroso, cruel e mesquinho me acometia, guardava pra mim, o afundava no fundo de algum baú escondido na alma até que se desfisesse, e limpava o ranço com cuidado, porque não queria ser como aqueles, os rançosos, que inflavam de ódio nos discursos mais banais…  Era um respeito com o outro, mas no fundo, era um respeito comigo. Desejar o mal, o fracasso, e em última instância, a desgraça e a morte não era bonito, e isso era claro pra todos nós. Na política, nas relações pessoais, e mesmo frente aos ilustres desconhecidos cujas ações nos revoltavam: que eles parassem, caissem no anonimato, sumissem, reconhecessem seus erros ou simplesmente perdessem o poder, mas era só.

E então o que era novo virou velho. Muitos se habituaram, toda uma nova geração nasceu e cresceu sob outra edge. E ninguem mais dá valor. É corriqueiro e banal, fala-se o que quer, sempre, sem pensar, sem ponderar, sem notar o quão cretino é a maioria dos pensamentos que nos cruzam a mente. O mundo não tinha mais filtro de boçalidade, o mundo era dos rançosos.

E não bastasse, foi dado a todos os seus 5 segundos de fama. Blogs, redes sociais, toda a tal da internet, ligando minha palavra ao mundo inteiro ao alcance de um clique… e todo dia alguém posta uma idiotisse absurda em um twitter/facebook/G+/blog da vida… a própria midia escrita/televisionada, para ficar no mesmo pé da internet, brigando desesperada por sua fatia cada vez menor de ‘meio de informação’, segue a mesma linha, cospe boçalidade como se fosse notícia, profere idiotisses como se fosse comentários inteligentes, repete os mesmos erros de quem nunca entendeu de fato o que a liberdade de expressão significa, de fato, pra quem em algum momento não a possuiu.

Esquece o Lula. Há quem ame, há quem odeie. E há quem odeie tanto que seja incapaz de ver os avanços que esse pais viveu nos últimos anos. Há quem seja tão rançoso que se apegue aos erros (e sempre há erros) e o tranforme em vilão de um filme imaginário. Esquece. Sua opinião pessoal aqui é tão irrelevante como meu poder de influência sobre a sua opinião… Esquece o SUS. E o fato de que com todos os defeitos, quem grita aos quatro ventos que o sistema não funciona, normalmente nunca o utilizou e baseia seu discurso em pura hipocrisia. Não precisa entender todo os sistema de roldanas de poderes federais, estaduais e municipais que são necessário, com índices tendendo a zero de falcatruas e desvios, que seriam preciso para que o sistema, bom em teoria, funcionasse perfeitamente na prática. Ou o fato de que muitos dos hospitais de ponta, estado da arte mesmo, para transplantes e câncer, entre outras coisas, são públicos ou de alguma forma financiados pelo SUS. Ou que em muitos lugares, e em  muitos níveis, ele de fato funcione (a parte médica, não exames porque sou impaciente e preguiçosa e nunca quis ficar na fila ou esperando vaga, mas a parte médica do meu tratamento de hipertireoidismo, até a presente data, foi toda feita pelo SUS, com direito a passar na frente quando eu passei mal, a ser atendida em dia de visita externa, ou seja, que o médico não atenderia no posto, por já estar lá, e ficar comodamente esperando numa sala de espera não tão chique mas confortável, como no passado, quando morava no Rio, esperei  por consultas médicas pagas e com hora marcada, nem mais, nem menos tempo, nem mais, nem menos conforto…). Esquece também que se essa campanha idiota de “Lula se trate no SUS” fosse olhada sob alguma luz que não a do ranço, se veria o quão idiota é alguém que trabalha e tem condições financeiras tirar a vaga de outra pessoa no SUS, ou inflacionar ainda mais um sistema que na prática está longe do ideal…  Tudo isso é irrelevante, não importa, não faz a menor diferença.

O que importa é o desejar o mal. Ao se discordar de uma pessoa, politicamente, se desejar o mal. A morte. A doença. Achar graça, ironia, justiça divina ou outra idiotisse. Que ranço é esse?

Poderia ser algo pessoal, afinal, outros ex-presidentes, políticos de alto escalão e seus familiares já adoeceram gravemente, e ninguém saiu por aí dizendo “BEM FEITO! Vai se tratar no SUS, seu FdP!”… mas se é pessoal, se baseia em que? Alguém realmente acredita que ele, Lula, é um ser tão desprezível assim, que mereça um tratamento pior (não no que diz respeito ao SUS, mas ao desejo de quem o manda pro SUS) que outros que vieram antes dele? Sério mesmo? As pessoas são tão cegas e desmemoriadas assim?  Ou tem haver com o fato de ter sido alguém pobre, sem estudo, que galgou os degrais até se tornar uma figura pública, influente, de liderança reconhecida internacionalmente?! SE é isso, de onde vem essa mesquinharia toda, essa inveja, esse, de novo, ranço?!

Mas talvez sejam só os novos tempos… Todo mundo se acha importante, inteligente, capaz de proferir frases bombásticas, e não entendem que apenas abriram a latrina de seus pensamentos, que nem tudo que a gente pensa vale a pena falar em público, que algumas coisas a gente devia ter vergonha de falar…

Inclusive de pensar, mas pelo menos, em nome do que resta de dignidade na raça humana, de falar!

Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

A Onda (ou todo ser humano é um fascista)

Todo ser humano almeja o poder. Todo ser humano necessita de identificação de grupo. Todo ser humano deseja ‘fazer parte’, não importando do que. Todo ser humano quer ser considerado especial e melhor que os que não fazem parte de seu seleto grupo. Todo ser humano deseja estar certo. Todo ser humano deseja silenciar as vozes dissidentes. Todo ser humano deseja que suas ações sejam justificadas. Toda individualidade se anula frente ao poder do coletivo. Todo ser humano é um fascista por essência. Pesado? Irreal? Reducionista? A verdade é dura, triste e indesejável, e ainda assim, é uma verdade. Todo ser humano é, em essência, um fascista. E disso se trata o filme alemão Die Welle, de 2008

A Onda (Die Welle) é um filme mais pretensioso (no bom sentido) e dramático que seu homônimo A Onda (The Wave – 1981), mas ambos contam a mesma história, que é baseado em um livro (The Wave, de Todd Strasser, também de 1981) que por sua vez, conta um fato verídico ocorrido na década de 1960, numa ‘high school'(o equivalente ao nosso 2o grau) em Palo Alto, California. Continue lendo “A Onda (ou todo ser humano é um fascista)”

Paradigmas e comportamentos · Pensamentos Aleatórios

O suor, o futebol, o mel e as tropas da ONU…

Luis Fernando Verissimo tem uma crônica (do meu recém lido O Melhor das Comédias da Vida Privada) em que se refere a uma frase publicitária perfeita e o efeito que ela faria em seu criador (A Frase). Lembrei disso numa série de associações aleatórias por conta das propagandas do Rexona Men SportFan que é simultaneamente estúpida e genial. Vez por outra certas propagandas sintetizam com perfeição alguns conceitos, no caso, o efeito zumbificante  que o futebol exerce em algumas pessoas. E não são poucas…

Já é de domínio público a frase intelectualóide e esquerdista (notem que há diferenciação disso para intelectual e de esquerda…) de que “o futebol é o ópio do povo“, parte da mais-de-domínio-público-ainda política de Pão e Circo.  É que reducionismo pouco é bobagem… Em sua essência fundamental, isso não deixa de ser verdade, mas assim como nós somos feitos de átomos e átomos se reduzem a um quark, e um quark não nos define, esse reducionismo não define o fenômeno futebol.

E o mesmo caso dos reducionismos que afirmam peremptoriamente que televisão, internet e videogames emburrecem… Ou que intervenções são, por essência e natureza, um abuso de poder. O quê de verdade que existem nessas afirmações nem de longe encontram seu correlato total na realidade.  A verdade (ou o que podemos apreender como verdade de dada situação) é sempre muito mais complexa do que a análise de suas partes… Continue lendo “O suor, o futebol, o mel e as tropas da ONU…”