Palavra que cura · poesia

Nomear

Achei que a palavra me libertaria. Busquei por ela sob cada móvel, nos cantos, nos vãos. Nas dobras das cortinas inexistentes. Nos abismos existenciais frequentes.

Achei que a dor doía porque não tinha nome. Era órfã. Não podia ser acalentada.
Como endereçar-se a uma coisa sem nome? Como a chamar quem não tem nome para ser chamada?

E ai eu descobri que toda vez que eu coloco um nome, eu coloco em uma caixa.
E guardo a caixa no fundo do fundo do meu peito. E toda vez que eu guardo a caixa, eu de alguma forma, aceito.

E o ato de guardar é físico, como um nó que desce pela garganta
se instala nos ombros e dorme, o sonho agitado dos infames
E nos dias  tristes eu pego as caixas. Uma a uma, em fila indiana
As identifico calmamente
Abro-as,  cada dor em sua vez,
As pego no colo, embalo, e choro.
Depois as guardo novamente.

Elas nunca vão embora quando eu nomeio.
Nunca, em tempo algum.
Viram parte da paisagem, do meu corpo, da minha história
Viram minha herança inglória.
Viram essa ferida no meu seio.

Por onde passam as caixas que guardo
E onde entulho as que ainda não tem nome
E fico procurando as palavras que as nomeiam
Como se dar um nome fosse dar trilhas que norteiam
Fosse dar sentido ao que é caos.
Fosse acalmar essa angústia que ferve.

Não dá. Não é. Não serve.

 

 

 

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