Crônicas do Cotidiano

Para a minha mãe.

Mãe,

Falei com você agora no telefone, mas não sei se você falou Comigo. Não sei se você sabe com quem falou, se se lembra de mim quando eu não estou na sua frente (ou mesmo quando estou), ou se sequer se lembra que falou ao telefone.

Tentei não encompridar a conversa, porque a gente tem esse medo imenso de você se lembrar. Se lembrar que não é mais quem foi, se lembrar que sente de fato saudade, se lembrar que o pai não está ai para te encher de flores pelo dia das mães.  Só disse que te amava, estava com saudades e te mandei um beijo.  Liguei mais por mim, eu sei. 

Falei com você no telefone mesmo sabendo que você não estava propriamente falando comigo, porque tenho esse pânico constante de um dia não poder mais te ligar e pelo menos falar comigo mesma essas coisas. O que é, eu sei, cruel e egoista, porque a gente te prendeu dentro do seu corpo, acho que pelo milagre que eu pedi , quase 19 anos atrás, e que veio torto e incompleto, e desde então eu não peço mais anda. Tenho medo das coisas que eu poderia pedir, e de existir de fato um deus que me atenda, assim, torto, como ele acha que deve, como ele entendeu que eu quero… e errar.

No mais mágico dos pensamentos mágicos acho que fui eu quem te prendeu. Que naquele dia em 1998, em cima de uma cadeira limpando vidros com a Lelê na minha barriga, porque limpar os vidros era a única coisa que eu podia controlar, eu castei uma âncora que te prendeu na terra, junto à gente, e eu nunca serei capaz de desfazer o feitiço, porque eu não sei deixar nada que eu amo apenas ir…  E ao mesmo tempo, sabendo que eu não fiz nada, nem deus nem magia, fico olhando essa fina linha que a cada dia fica mais fina e imaginando que ela um dia pode se quebrar,  a despeito da tua herança arretada, de quem nasceu descendendo dos Feitosa de Inhamum, e esse teu sangue de Lampião, diluído mas vivo, não sabe viver sem ser com a peixeira na mão, e não abandona a batalha sem muita luta…

E por isso te liguei. E falei com você mesmo que você não fosse capaz de falar comigo, no sentido de verdadeiramente falar comigo, e tenha voltado ao almoço sem nenhum sobressalto quando o telefone desligou.  Porque ainda que só pra mim mesma, eu tinha que te agradecer por tudo que você fez por mim, seu melhor, sempre seu melhor, mesmo quando não funcionou.

Porque todo dia eu tento o meu melhor, e sei que nem sempre dou pros meus filhos o que de fato eles precisam. Sei que as vezes protejo quando eles precisam ser cobrados, ou cobro quando eles precisam de proteção. E nunca sei quanto, e nunca sei quando… E imagino que deva ter sido assim pra você também.

Essa maternagem que não vem com manual, que coloca sobre a gente uma responsabilidade que é tão grande, em relação ao outro, quando a gente mal dá conta da gente mesmo. E que o comercial de margarina mente pra gente, e que é muito difícil, e no passado era ainda mais, admitir que a gente nunca vai ser aquela mãe da propaganda, aquela que nunca erra, que sorri com os dentes tão brancos que chega a doer, e tem o absoluto controle sobre aquela cena familiar que a gente não consegue nem reproduzir. E vive sobre a sombra dela , se afogando em culpas,  com os ombros arqueados pelo peso que é a imperfeição.

Então eu te liguei pra sem dizer quase nada, te dizer isso tudo. Que eu te amo imperfeita e estou tentando aprender a me amar assim também.  Que eu sinto saudade daquela que habitava seu corpo, hoje presa aí dentro, com todos os seus inúmeros defeitos e todas as suas maravilhosas qualidades, e que ainda me inspiro em você quando o dia de trabalho é longo, e eu quero descansar mas sei que não posso parar.  E quando do meu jeito torto, quase torpe, vivo esse simulacro de equilíbrio tentando adivinhar quando é hora de cobrar e quando é hora de acolher…

Obrigada, mãe.

Por absolutamente tudo. Tudo. Sem exceção.

E desculpa, não pelas minhas imperfeições, mas por todas as vezes que não dei o meu melhor.

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