Crônicas do Cotidiano · Palavra que cura

Mindfulness

Você sempre morou dentro da sua própria cabeça, como quase todo mundo mais que você conhece. E a sua cabeça sempre foi esse ap de frente pra avenida mais movimentada do planeta. Você deu a chave da sua cabeça pra todos os seus amigos, e antes que você percebesse, pros seus inimigos também. Seu molho de chaves pendurado na maçaneta pelo lado de fora, como um Senhor dos Ventos cujo som você mal ouvia, abafado pelas vozes, pelo trânsito, pelo entra e sai de corpos eventualmente estranhos, raramente delicados, que percorriam sua cabeça em uma quinta feira qualquer. Apenas mais uma quinta.Você não previu as hecatombes, os previews de fim do mundo, as avant premieres da vida real, os engavetamentos de veículos em frente a sua portaria ou as raves meio flash mobs que só você não sabia que iam acontecer. Tipo hoje. Tipo agora. Na sua cabeça.

Em que se seja fiel à verdade, você não previu nem a 5a feira qualquer. Terrível erro de calculo no dia que você abriu a janela pela primeira vez, entregou o primeiro molho de chaves a um amigo, se sentiu poderosa demais de gerenciar esse caos todos os dias, correndo atrás do próprio rabo, meio surda pelas buzinas, meio cega pelos faróis.

Mas você podia jurar que tinha a solução. O quarto dos fundos onde só você conseguia entrar. O quarto com propriedades mágicas de onde nada escapava e nada podia verdadeiramente entrar. Você seguia vendo as luzes, ouvindo os sons, vendo o trânsito pela janela embaçada e emperrada, ou olhando a invasão das tropas bárbaras porta adentro da sua casa , pela fresta do quarto onde ninguém podia verdadeiramente te ver. Mas sentiam seu cheiro. Esmurravam a porta. Gritavam impropérios. E você nunca esteve só.

Depois de algum tempo isso parecia uma boa coisa. Nunca estar só. E também parecia natural. Não era assim pra todo mundo? Não era a mente esse lugar onde a vida borbulha e acontece, onde os neurônios se conectam, onde as correlações são feitas, matéria de carbono da primeira estrela que explodiu e criou tudo, onde não havia nada? Você era rica. Profunda. Significativa. Que nunca ousassem te chamar de rasa, sem conteúdo, mundana. A vida só fazia sentido com esse baú de experiências emocionais, essa carga de profunda de melancolia , esse barulho ensurdecedor dos carros vistos pela sua varanda e as manadas que invadiam sua mente e te arrastavam por quilômetros andes de você perceber quem ou o que te atropelou.

Essa era a sua casa. Você a levou para todos os lugares onde seu corpo morou. A carregou nas costas em todos os relacionamentos. Sobreviveu a todas as vezes que ela ganhou vida própria, duplicou de peso e te soterrou.

Não havia outro lugar para morar que não sua própria cabeça e ela não poderia ser de outro jeito que não o jeito que ela era. Certo?

Até um dia que você olhou pela janela, e percebeu que os mesmos carros passavam varias vezes na frente da sua casa, e em dado momento eles se cansavam e paravam. Você não precisava controlar para onde eles iam, podia fechar a janela, esperar o momento em que eles passariam a dizer respeito a você. E poderia gentilmente conduzir as visitas, as tropas, as manadas, porta a fora, trocar as chaves, colocar verdadeiros Senhores dos Ventos na entrada, bons augúrios e alerta, para quando existisse algo ou alguém a quem dar atenção. Derrubar as paredes feitas de frestas do quarto dos fundos, ampliando a sala, iluminando o quarto, reduzindo a tentação de ir se esconder. E ficar sozinha. E se ouvir.

Havia um certo silêncio, mas era possível perceber os carros, as tropas… estavam lá, mas eram ruído de fundo, uma certa qualidade sonora do silêncio que nunca é pleno só de si. E havia uma certa calma, nāo impassível ou imutável, mas um vislumbre de que era possível existir densidade sem caos, profundidade sem trevas, conteúdo sem peso, significado sem dor. Um vislumbre. Só isso. E o silêncio cessou.

Todos os dias o mesmo processo, de filtrar o que entrava, de sentar no meio da sala de estar da mente e observar o que ia, o que vinha, e produzir solitude e silêncio, esse onde o mundo é som de fundo, e você escolhe apenas estar lá não fazer nada, e só ouvir e observar, curioso como um criança, na expectativa genuína de que qualquer coisa poderia vir a acontecer nesse mundo rico que era a sua casa. A sua casa que era sua mente. A sua mente que era você.

Era, você percebeu, um exercício que precisava ser constante, tão constante como tinha sido esconder-se no quarto frente à turba furiosa, ao fim do mundo iminente ou à próxima tempestade anunciada. Um era ação. Contemplativa, mas era ação. O outro reação, de fuga, de medo, o corpo contra a porta cheia de frestas, o pânico, a falta de ar. Ambos demandantes. Cansativos. Mas um era sentada na luz, no centro da sala. O outro, escondida entre um instante e outro, no escuro, sob o som ensurdecedor do mundo acontecendo…

Minha mente é uma sala ampla por onde muitos pensamentos vem e vāo. Lá fora os carros passam, vez por outra estacionam, seus ocupantes tocam a campanha, pedem para subir. Só eu posso apertar o interfone. Ou destrancar a porta. Quando tropas, turbas, manadas, multidões enraivecidas vencem as defesas e me invadem, eu tento dar um passo para o lado, deixo quem passem, me seguro nas quinas da mente e espero ate que elas não sejam mais capazes de me arrastar com elas. E então tento entende-las. Nem sempre é fácil. Mentira, quase sempre é difícil. Mas é sobre o processo, e não sobre o resultado. Nunca foi. O resultado pode nunca chegar. O processo é , portanto, tudo o que há.

Tem alguns dias que quando tudo faz silêncio dentro de mim, no centro da minha sala imaginária, que eu ouço um som diferente ao fundo. Tem um ou dois dias, que junto ao som eu sentir a terra se mexer. Hoje olhei pela janela e vi o mundo se movendo. Verdadeiramente se movendo. E ele anda com enormes pés de barro, em passos cuidadosos na direção para onde, quando me sento no meio da sala, eu tenho olhado em busca de clareza. Eu fiz o meu mundo se mover. E o chão treme sob meus pés, não porque a vida é cíclica ou porque minha poderosa rede se segurança arrasta o mundo para que eu tenha onde pousar. O chão treme porque eu fiz meu mundo se mover.

Há borboletas e pardais saindo de casulos e ninhos no meio do meu estômago e voando sem rumo atrás de como sair. São muitos. Talvez seja medo. Talvez seja expectativa. E eu me sento no meio da sala, solitude e silêncio, e observo essa dança da vida dentro do meu estômago e expiro lenta e longamente, tentando ensinar para eles o caminho por onde sair…

O resto é matéria desconhecida, ainda a se revelar no silêncio de amanhã, ou de depois, ou de depois.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s