Pensamentos Aleatórios

O meio caminho

Lembrei, de súbito, da última vez que eu rezei.  Rezava enquanto me equilibrava fora do meu centro e limpava o vidro da porta da sala.  Minha ultima oração foi grandiosa,  Não era possível fazê-la ao pé da cama, no genuflexório, ou em espaços que cheirassem obviedade ou simplicidade. Era uma oração em queda livre, num poço úmido e escuro, e era preciso faze-la empregando suor do rosto, esforço, algum tipo de surrealidade que fizesse jus ao tamanho do milagre.  

Foi uma oração longa. Ela não se encerrava quando eu dormia. Com o passar dos dia. Com as palavras que eram faladas. Ela seguia.  Era um som contínuo no fundo da minha nuca, por meses,  Era uma espécie de tábua onde eu me agarrava, e sobre a qual naveguei minha vida.  Em algum momento ela cessou.

Não cessou por ter sido atendida.  Mas também não cessou por ter sido ignorada. Em algum lugar, no meio do caminho, o pedido incompleto era uma espécie de piada, olhava pra mim com escárnio. Como alguém que chega numa obstrução do caminho e já não pode mais desejar subir e não consegue desejar descer. E fica.   Num espaço entre o que se temia e o que se desejava.  Um espaço que não lhe pertencia.

Acho que esse foi o entendimento. Todas as minhas orações tinham me levado a esses lugares.  Longe de qualquer coisa. Nem medo nem desejo.  O lugar do contentamento, do que bastava, do merecimento, do não ouse sonhar mais.  O meio caminho.

Passei a achar que esse era o espaço onde eu pertencia. E onde eu conseguia chegar. E eu não precisava rezar para isso. E nunca mais rezei. Talvez tenha balbuciado uma oração ou duas aprendida na infância, mantra pra distrair cérebro do pavor da realidade.  Aquela oração que dizem que pertence a ordem da inexistência de ateus em aviões em queda. Mas nunca mais acreditei.  O deus que tudo vê morreu no meio de uma ladeira ingrime, entre o desespero e o milagre,  Sentada nas pedras dessa encosta, eu vi deus morrer, tão sozinho quanto eu.  O enterrei entre as pedras. E nunca de fato voltei.

Duas vezes depois disso eu quis rezar. Quis, solene e profundamente acreditar no deus que tudo vê, e que estende a mão. O que nunca lhe abandona, o que ao seu sofrimento imprime propósito, e ao fim, lhe dá os bálsamos de mil olores para secar suas feridas.  Mas eu o tinha visto morrer. O enterrado eu mesma no chão de pedras que feriram minhas mãos, e ainda tinha cicatrizes para provar.

Então apenas segui até onde eu achava que me cabia. O meio caminho. O tão mais longe do que seria insuportável, o muito distante do que seria almejável.  O meio caminho.

Dessas duas vezes quis desfazer o mal feito, Desviver o vivido. Dessaber o sabido. Não era possível. Nenhum milagre. Nenhum consolo. Só o acúmulo de perdas silenciosas, as feridas sem balsamo, os braços sem abraço. Várias mãos me acenaram. Me ajudaram a chegar no meio caminho.  Amigos mais preciosos que a divindade que não mais me via. E ainda assim, eu parava no meio caminho. Onde era bom o bastante pra mim.

Eu lembrei da ultima vez que rezei. A última oração que eu fiz. A última vez que eu achei que se eu colocasse meu coração totalmente partido nas mãos de um deus, ele me retornaria um coração inteiro.  Entendi que a última vez que eu rezei foi o caminho para que eu perdesse a fé.  E para que vivesse presa por dentro naquele meio caminho que a oração me levou.

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