Pensamentos Aleatórios

Plante a Semente

Jason Silva, falando sobre amor e melancolia, citando A. Camus e R. Barthes, diz que no momento em que acontece o avassalador arrebatamento, ele já é passado e memória.  O luto da perda do instante, da cena, do instantâneo episódio que te preenche a alma.

Essa semana, meu tema foi o dilema do ansioso num mundo onde não sabemos para onde vamos. A incapacidade física de aproveitar o caminho, fardo de quem precisa do controle sobre o momento que virá na sequência, mas eu não sei pra onde estou indo, ou porque. Logo tudo  é sobre  o caminho, e eu não consigo focar nele.

Aceito a tarefa de viver até o ponto das lagrimas. O de sentir tanto a ponto da inviabilidade da contenção. Aceito inclusive a minha impossibilidade de estabelecer relações, quaisquer relações, mesmo com os eventos do dia ou as pessoas que passam e se vão que não sejam profundos mergulhos sem garantia de volta.  Mas não aceito essa súbita sensação da falta de propósito.

Eu, a eximia compradora de caríssimas b …. esquece, piada interna impossível de explicar, que dirá constar em minha lápide, não posso me definir por isso. Prefiro me definir pela cerveja clara ondulando no copo. Pelo instante perfeito suspenso no tempo. Pela gargalhada. Pelos amigos semeados no caminho…  E pelo caminho em si, esse que a pressa por mais me impediu de apreciar.

G. Willow Wilson, em TED TALK (nov/2015) sobre sua heroína Kamala Khan, aponta como sinal de resiliência o fato de acreditar que o que fazemos, apesar da imensa e profunda desolação que nos circunda, importa.  E em citação atribuída a Maomé, ela diz o equivalente à Even if the end of time is upon you and you have a seedling in your hand, plant it.

Jocosamente, mas não totalmente fora de propósito, circula o meme que insiste em dizer que o mundo, ao menos tal qual conhecíamos, acabou de fato, como previsto em 2012. De lá pra cá, apenas as entranhas reviradas do nosso próprio fim e a poeira que assenta.  Seguimos, assolados pelo grande luto, por uma epidemia de melancolia, revirando os escombros de nossa própria implosão.

Não obstante, eu tenho não uma, mas inúmeras sementes na minha mão. E em retrospectiva de vida, não há nada diferente que eu tenha feito na minha existência: eu sou plantadora de sementes.  Algumas delas viraram árvores, são responsáveis pelos meus momentos de sombra, quando farta do sol inclemente e  garantem que memórias continuem sendo geradas, ainda que que por frações de segundo de misteriosos arrebatamentos.  Misteriosos porque custam tão pouco, e preenchem a alma por inteiro, e depois… e depois são apenas novas memórias. E por tanto, luto.

Não tenho dúvida que o fim dos tempos está sobre mim. E eu tenho sementes nas minhas mãos.  Eu posso não saber para onde estou indo. Mas sigo plantando as sementes.

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Um comentário em “Plante a Semente

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