poesia

Os outros

Os outros são tão estranhos. No que somos iguais. No que somos avessos. Contrários. Díspares. Trocados. Estranhos.

Deveria haver reconhecimento. Eu também estive aqui. Subi essa escada. Caí desse poço. Tomei dessa água. Morri dessa dor.   Mas há apenas a alteridade. O estranhamento e o distanciamento.  A desgastante tentativa de assistir um filme intimista em uma língua desconhecida, com as legendas em desconfortável atraso e com frases incompletas.  Eu quase entendo… mas não consigo entender. 

Os outros são espelhos manchados, côncavos, trincados. Há um leve vislumbre de reconhecimento, e depois não há mais.  Há apenas reflexos indizíveis de coisas que podiam ser.

Os outros são tudo aquilo que desejo pra mim. E invejo. E cobiço.
E finjo que são feitos de outra matéria.
Mais lúcida.
Mais límpida.
Mais coerente

No que falam
No que sentem
No que mentem

Em tudo que realizaram.
Em tudo que fracassaram.

Os outros são tudo aquilo que não quero em mim. E projeto. E desprezo.
E finjo que eu sou feita de outra matéria.
Mais lúcida.
Mais límpida.
Mais coerente

No que falo
No que sinto
No que minto

Em tudo que realizei.
Em tudo que fracassei.

Mas a mesma matéria na carne, ossos, músculos, entranhas
E os mesmo estranhamento nos olhos dos outros.

Os outros.
Esse indecifrável eu que habita outro corpo.

 

 

 

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