Contos

Exercício Literário 3 – Não Intencional

(Livre associação a partir de uma matéria sobre Kristina Söderbaum)

Passou a vida agarrado em desculpas. Explicações desconjuntadas para todos os males. Havia contexto. Pretexto. Longas atas circunstanciadas para todos os eventos da vida, sempre sob sua ótica, de transeunte, vítima, inocente, ausente, mero peão em algum jogo que ele não jogava.

Nunca se responsabilizou por nem um evento enquanto esteve vivo. Mas não era como se vivesse à deriva. Planejava longamente os eventos mais importantes e refletia ainda que rapidamente nas decisões diárias: mas sempre olhando pelo pequeno buraco na caixa onde vivia, que lhe permitia ver a frente, nunca dos lados, nunca para além de si mesmo. 

Não achava que era egoísmo. O que um homem pode fazer além de cuidar de si?  Quem seria por ele, se não ele mesmo, em qualquer cenário? Quem levaria em conta seus anseios e necessidades?  Acreditava que o mundo seguia da mesma forma, e que todos cuidavam de si.  Não via o mal, a intenção do tanque de guerra a passar por cima dos pedestres que estavam no meio da rua. Ou na calçada. Ou em qualquer lugar no caminho.  Que tivessem tido mais cuidado. Que tivessem se protegido e eles mesmos pilotassem tanques. Não era intencional, ou pelo menos, não era pessoal.

Seus malfeitos não tinham nome. Alvo. Não guardava rancor ou inimizades.  Não fazia com intenção de ferir ou por algum ódio, preconceito, desfeita, inveja. Apenas vivia a vida como um rolo compressor em forma humana.

Dizia sempre o que lhe vinha a cabeça, com as devidas ressalvas. A verdade mascarada para cima, é claro, que prudência e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém.  Mas para os lados e para baixo, não media as palavras para que tudo fosse feito de forma a não respingar em suas costas. Mas nunca, nunca mesmo era pessoal.

A bem da verdade não conseguia sequer entender de outra forma a vida, seus hábitos, suas ações. A noção de abrir mão, de dar um passo para o lado, de virar a face ou sair do cenário lhe eram completamente alienígenas.   E para ele, tudo se resumia em intenções. Se ele não intencionava ferir ninguém, como poderia ter culpa pela ferida não intencional?

Quebrou muitos corações. E mentes. Jogou a culpa em subordinados que perderam seus empregos, eventualmente suas esperanças. Puxou meia dúzia de 10 ou 12 tapetes na vida apenas para não ser desviado do rumo. Todas as pessoas que o rodeavam eram de alguma forma degrau de uma escada, para um lugar que ele almejava. Mas nunca olhou nos olhos de nenhum ser vivo e lhe desejou o mal. Simplesmente nunca.

Um dia, que começara como qualquer outro, sentiu uma dor de cabeça. A ela se seguiu um enjoo. A perna não lhe obedecia o comando e quando tentou pedir ajuda, sentiu a boca torta proferir as palavras certas, mas as pessoas pareciam não lhe entender.

Acordou já no hospital, tubos e vozes desconexas que ele não conseguia entender. E permaneceu sem entender por anos a fio, enquanto homens e mulheres de roupas brancas, e apenas esses, entravam em seu quarto, lhe viravam, espetavam, falavam coisas, e ignoravam sua presença silenciosa, prisioneiro de si mesmo.

Morreu numa tarde de 4ª.  Advogados cuidaram dos tramites. Foi enterrado em um belo mausoléu familiar, numa cerimônia inexistente.

Na sua lápide, palavras quaisquer, que se ele tentasse, não saberia mais ler. Mas se o universo fosse irônico o suficiente, citaria seus maiores feitos…

Nunca pediu desculpas.
Nunca teve a intenção.
Nunca chegou onde quis chegar.

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