Crônicas do Cotidiano

Gordofobia, a gente se vê por aqui…

Já que resolvi que ia virar post, segue um textão… 😛

Então, eu tenho tendência a engordar. Sempre tive.  Aos 17 anos, por cerca de 24 horas, eu tive meu peso dito ideal. Olhei no espelho e me achei esquelética e fui comer um bolo de chocolate.  Fora esse breve momento, eu fui falsa magra, acima do peso, obesa, e muito obesa.  Magra mesmo, nunca fui.

Meu formato de corpo inclui coxa grossa mas que nunca passa muito de X de diâmetro (estando eu normal ou obesa), estômago alto e barriga. Muita barriga. Zero de quadril que não fui dotada com essa parada ai não, ou melhor, não aparente. 3 filhos de parto normal garantem que pode não ser padrão mulher brasileira cinturinha e quadrilzão, mas tá lá…

No auge das minhas crises de hipertireoidismo, onde supostamente eu deveria estar perdendo peso a rodo (e estava!), ainda assim nunca fui magra. E nem faço questão. Tem um peso X lá, que foi variando com a idade onde eu estou ok com a minha pessoa. Já tô bem crescidinha para achar que Barbie é padrão pra alguma coisa e para entender o que meu corpo é ou deixa de ser enquanto potencialidades.

Se eu for pensar em um peso ideal pra mim, não relacionado ao IMC mas ao meu bem estar, ele estará fatalmente na faixa do sobrepeso para o resto da humanidade que fica fazendo essas contas e medindo índice de gordura corporal. E eu sempre vou ter barriga, porque eu tinha aos 17 anos quando todos os outros ossos do meu corpo eram aparentes e eu odiei aquela imagem no espelho…

Meu peso saudável é diferente do seu peso saudável. Tem gente  com obesidade que tem os exames muito mais lindos e perfeitos que muitos magros por aí, e que comem melhor e de forma mais saudável que muitos magros por aí.  Então me incomoda muito quando alguém vem taxar de forma peremptória a relação entre saúde e gordura, assim como beleza e gordura (hoje por exemplo sai de casa me sentindo bonitona! Tem mais haver com humor que com peso, vai por mim…!).  Essas coisas não estão diretamente relacionadas. Elas se intercambeiam a depender do que é que você come, o quanto você absorve, e o quanto você se deixa influenciar pelos padrões externos que lhe são impostos.

Mas gordo não é, nem nunca será, sinônimo de feio nem sinônimo de quem come mal.

E isso nos traz até hoje de manhã.

Saltei do ônibus e atravessei a Presidente Vargas na altura do prédio com vidro fumê que é um super espelho. Olhei pro meu cabelo que estava especialmente do meu agrado hoje, pro meu echarpe, pro meu reflexo lá no vidro e me senti bem. Pra quem anda a melancolia em forma de gente, se sentir bem é sempre bem vindo! Tava tocando uma música que eu gosto e apesar de uma dor de garganta bem chata, eu estava até com alguma disposição de começar a semana que promete ser puxada.

Ai uma dona me aborda na rua. A fala, entreouvida com o fone do ouvido, é que ela precisava de uma informação.  Eu queria muito conseguir passar direto e ignorar, mas o tanto quanto eu odeio gente é o quanto eu não consigo ser sem educação com estranhos… Vai entender!

Não era um pedido de informação. Ela começou um discurso de que estava abrindo um espaço de refeição saudável e que ia me presentear com 3 dias de almoço gratuito. De graça, quase tudo, menos injeção na testa. E era uma injeção na testa.  Disfarçada, mas era.

Ela foi falando, e eu já me esquivando porque odeio gente e ela não parava de falar, mas eu sempre me sinto refém nessas situações e vou sendo levada. Até que ela falou:

_ Então, porque as minhas refeições saudáveis são com o objetivo de reduzir medidas abdominais. – E fez um gesto na altura da minha barriga.

MigXs, algo morreu por dentro. Pequeno, mas rápido e certeiro, houve uma morte.  Daquela sensação que meu reflexo me deu de que eu estava bem, ou da boa sensação de que minha perna não estava doendo carregando meu peso, ou de algum resquício de fé na humanidade.

Queria dizer pra vocês que me virei e deixei ela falando sozinha. Ou que virei e perguntei pra ela desde quando comida saudável estava necessariamente ligada a minha circunferência abdominal. Mas só fiquei olhando pra cara dela, e falei um tá tá, mas tô com pressa e ela foi embora, para abordar algum(x) outr(x) gord(x) e esmagar sua auto-estima em troco de 3 refeições gratuitas.

Totalmente pró refeições saudáveis.  Fora os dias de ‘jaca’, não como carboidrato vazio tem meses.  Perdi 13 kilos pq achei que precisava perdê-los para o meu bem estar pessoal. E pretendo perder mais ou menos isso a mais.  Mas por mim. Não porque alguém no meio da rua achou minha circunferência abdominal larga demais.

Larga é a idiotice dela, que perdeu uma possível freguesa. Nem de graça, colega. Nem de graça.

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2 comentários em “Gordofobia, a gente se vê por aqui…

  1. a beleza não tem mesmo nada a ver com o peso. Estou no auge do hipertireoidismo e detestando meu reflexo no espelho por estar magra demais. DEvemos tentar manter o peso que nos faz sentir-se bem. A opinião alheia a gente pega-pisa-e-joga-fora.

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