Palavra que cura · Paradigmas e comportamentos

Feliz Aniversário, Pai.

Hoje meu pai faz 79 anos, só que ele não está mais aqui para fazer coisa alguma.

Eu sempre me assustava quando me dava conta do número de anos que ele acumulava, porque ele demorou a caber na idade que ele tinha. Era uma roupa apertada, a idade, em uma alma grande. Ao menos pra mim, ele tinha sido um rapaz por muito tempo antes de envelhecer. 

Mas não se engane. Era um rapaz teimoso, fruto do seu tempo, cheio de idéias pré-concebidas que ensinaram pra ele. Por isso, o ato de aceitar a diversidade, o novo e a diferença não lhe vinha assim como segunda natureza. Era um esforço, um exercício consciente, um ato deliberado de acolher. E, acho eu, por isso mesmo, mais valoroso. Não foi uma, nem duas, nem três vezes que me vi sentada ao seu lado, a cabeça em seu ombro, tendo a sensação de que havia uma voz silenciosa, morna e grave, que falava de dentro dele para dentro de mim e que dizia : “Eu definitivamente não te entendo, o que não tem a menor importância, porque te amo.”

Dele eu aprendi que amor não não tinha nada a ver com substâncias homogênias, superfícies lisas ou encaixes perfeitos. Também não tinha haver com aceitação cega, negação profunda ou perdão doloroso. Amor era um pacote. Mais que apesar, com. E até que a morte nos separe. Ou bem depois disso.  Amor era incurável. Resiliente estado de se estar junto na presença e na ausÊncia, no acerto e no erro, na estranheza e na compreensão.  E era plural. Maior que o objeto. Inesgotável. Reciclável. Infinito.

Quando finalmente me dei conta que ele havia envelhecido, fui tomada do susto das coisas que acontecem de repente. O espírito adoecido coube na roupa outrora apertada da idade. Talvez não todo dia. Talvez não toda hora. Talvez nem de repente. Eu que o havia seguido, estava afastada, indo de quando em quando. Em algum lugar dentro de mim, onde moram todas as culpas do mundo, me culpei pela ausência. Mas eu me culpo pela quota do ar que esgoto. Nada de novo. Nada.  Mas que me culpe, ou às contingências, aos anos passados, ao peso do silêncio, ou a nada e tudo, ele não era mais um rapaz.

Anunciava a própria morte todo natal e todo aniversário. Sinfonia fúnebre que rebatiamos com muchochos e ironias. Ele praticava o triste desapego dos de idade, dos que cabem nas roupas apertadas dos anos que tem, e sentem que precisarão encolher ainda mais até o fim para seguir cabendo.  Foi quando a tragédia nos trouxe a dolorosa fragilidade da matéria vida, e a constatação de que morte e idade sequer era uma relação necessária. Estavamos vivos. Podíamos morrer.

Nesse mergulho que esses choques provocam, ele desceu aos tropeços uma ladeira perigosa. Perdeu peso. Perdeu vontade. Perdeu até o interesse em repetir as frases fúnebres de sua morte anunciada.

Fomos lá, em procissão busca-lo e o levamos pela mão aos médicos, aos exames, e à profunda investigação do que o afligia, para constar-se que se tratava de dois males incuráveis: a idade e a consciência dela.

Depois disso, ao menos aos meus olhos, afastados por 400 kms e visitas ocasionais, ele voltou a se sentir levemente apertado na tal roupa que nos (ou não nos) cabe. Não era um rapaz, é fato, mas era dificil novamente ver todos aqueles anos na cara cheia de gaiatisse.

Ele pra mim ao menos, não estava especialmente doente, ou especialmente desapegado, ou especialmente velho ou sequer especialmente triste quando o vi pela última vez, na visita reincidente onde o tiramos de casa, resolvemos problemas, apresentamos homenagens e tiramos fotos.

Suas últimas palavras pra mim foram um obrigada (por ter feito tão somente a minha obrigação de ter ido lá quando foi burocraticamente preciso) e um silêncioso pedido de desculpa (ah, de quem será que herdei essa culpa?) na forma de uma nota de 10 reais para pagar o taxi para a rondoviária, que ele não era mais capaz de me levar e nunca deixou de achar que era, de alguma forma, sua obrigação.

Meu pai faz 78 anos hoje.  Eu não estou aqui me desculpando por não estar lá Nem me gabando de ter dobrado a agenda para estar lá.  Não estamos planejando o almoço. Ou indo buscar o bolo. Não estamos nada, porque nada é tudo que há quando finalmente chega o tal ano tão anunciado, o tal do “ano que vem, quando eu não estiver mais aqui…”

Mas em mim, na parte onde fomos feitos da mesma poeira de estrelas, e metade da minha quota eu herdei dele, ele faz 79 anos hoje. Estrelas recocheteiam em mim nesse espaço que é vazio e eu faço força pra não olhar pra dentro, pra ausência.

Incapaz de de fato acreditar em um além, eu faço de conta e me engano, olho pra cima, esse lugar hipotético onde vamos andar sobre nuvens ou o que quer que se haja para fazer, e digo com a voz falhando: “Feliz Aniversário pai. Espero que estejam te tratando bem. Espero que você esteja feliz.”

 

PS: A estranheza é tanta, que o correto é 79 e não 78. Nascido em 25 de agosto de 1938, dia do soldado, prematuro de 7 meses, em Cambuquira, MG…

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