Paradigmas e comportamentos

Sobre o Estado Laico, Políticas Públicas, a Hipocrisia e o Aborto

A discussão do momento é, com a indicação da nova ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci, é a legalização do aborto.

Vamos começar essa conversa esclarecendo alguns pontos? Pessoalmente? Eu sou contra o aborto. Nunca fiz um. Nunca pensei em fazer um. Acho muito, muito difícil cogitar qualquer situação em que eu faria um. Mas a discussão da legalização do aborto não deveria ser pessoal.  O aborto sim.  A legalização dele? NUNCA.

Legalização do aborto é questão de saúde pública, de política de Estado. Ou deveria ser. É mais do que respeitar o direito último que temos sobre nosso próprio corpo, é garantir que ao se ver nessa situação, uma mulher tenha amparo e segurança. E deixar de hipocrisia, porque abortos, queiramos ou não, acontecem aos montes todo santo dia. É parar de financiar a máfia das clínicas clandestinas. É transformar de fato em laico esse Estado híbrido em que vivemos, onde religião influencia políticas públicas, em detrimento das crenças individuais da população.  Continue lendo “Sobre o Estado Laico, Políticas Públicas, a Hipocrisia e o Aborto”

Pensamentos Aleatórios

A quase síndrome do ninho quase vazio

Sinceramente, achei que isso não ia ser problema. Ou melhor, deixa eu contextualizar essa coisa toda. Eu não sei se é meu lado psicótico que tá falando mais alto, ou todo mundo tem vários lados. Eu sou sim, chorona, emotiva, dramática. Minha vó, que o universo a tenha, me chamava de manteiga derretida. Por um dá cá aquela palha lá estava eu desidratando, toda melosa… Mas eu tenho a impressão que não é esse lado que fala mais alto pros outros ou até pra mim. Eu sou pragmática, ríspida, seca até. Nunca passei pela fase do “desliga você” “não desliga você” “ah não, desliga você” com namorado no telefone. Nunca fui de grandes demonstrações de afeto que saíssem do nada. Tenho uma objetividade seca com a vida e as coisas nela. O que é meio contraditório com a chorona, melosa e carente, ou com a surtada, surreal e idealista que também mora por aqui. Mas esquizofrenias a parte, eu não sou bibelô. Continue lendo “A quase síndrome do ninho quase vazio”

Crônicas do Cotidiano

Fiat Lux

Tales de Mileto, o primeiro filósofo ocidental registrado na história, dizia que o conhecimento mais difícil a ser atingido era conhecer a si mesmo. E o mais fácil era dar conselho (se fosse bom, a gente vendia!). Restava então conhecer a natureza.

Então, no remoto ano de 600 a.C., Tales estava lá entediado de olhar pra a água e para a lua, sobre os quais suas teorias, a despeito da falta de instrumental, se mostraram bastante acertadas, e também de saco cheio de montar teoremas geométricos, igualmente acertados, resolveu brincar com uma pedrinha de âmbar amarelo.

Joga a pedrinha pra cá, empurra a pedrinha pra lá, e o âmbar, devidamente atritado, revela sua mágica propriedade de atrair pequenas partículas ao seu redor. Eureka! (Opss, pensador errado!) Sem saber, ele tinha descoberto a eletricidade, mais especificamente, a eletricidade estática.

A sorte é que a descoberta parou por aí. Com um pouco mais de instrumental para lhe dar respaldo, ele, ávido observador da natureza, poderia ter descoberto mais, entendido seu funcionamento e suas propriedades, aprendido a canalizar essas forças naturais, e eventualmente, reproduzi-las. Se ele tivesse feito tudo isso, teria entrado para a história como o inventor da maior e mais viciante droga de todos os tempos. E estaríamos irremediavelmente viciados não há séculos, mas há milênios… É que somos uma raça resiliente, mas incrivelmente dependente. Junk people total, desesperados por mais uma dose no exato segundo que nos tiram a tal da energia elétrica! Continue lendo “Fiat Lux”

Cotidiano

Pesadelo acordada: de volta à escola

A maternidade é definida por muitas coisas, e a maioria delas não tem o glamour que é vendido em propaganda do dia das mães…

Nos primeiros anos são as manchas de papinha e golfada nas camisas. O leve odor de pomada para assadura que insiste em não sair das mãos. E obviamente o duro aprendizado de conviver com a insônia forçada. Depois são os programas de índio; as sacolas absurdamente lotadas de “coisas de criança” ao invés de coisas de adultos; a perda progressiva da habilidade de conversar civilizadamente com qualquer ser que tenha idade mental superior a 10 anos de idade; os cagoetes de corujice; as unhas sempre sujas de guache e massinha apesar de terem sido meticulosamente limpas segundos atrás e um leve ar insana-descabelada-louca-varrida que acompanha o ritmo insano de se correr atrás de crianças. Continue lendo “Pesadelo acordada: de volta à escola”

Crônicas do Cotidiano · Reminiscências

Pra não dizer que não falei das flores

Por ontem, pelo teu legado, pela tua história, pela trajetória e pelo por vir, Feliz Aniversário Mãe.

Meios e Mídias · Paradigmas e comportamentos

Pequenos manifestos pela arte democrática

A arte é um bem coletivo, a ser compartilhado. E não é só o prazer de ver (e estou feliz de estar colaborando para a sua divulgação lá no Espaço Imoral), é também o prazer de fazer. A arte não comercial, não profissional, descompromissada de provocar qualquer reação além da alegria que é produzir alguma coisa é algo que temos quando criança, e perdemos a medida que valores estéticos externos nos policiam, limitam, cerceiam. O que pode acontecer mais cedo ou mais tarde, mas fatalmente acontece. É a professora que esquece de elogiar, é o irmão mais velho que pergunta com cara de espanto “mas isso era pra ser o que mesmo?”, é a mãe que guarda em gavetas empoeiradas as dezenas de produções infantis…

É por isso que todas as iniciativas que visam ensinar a fazer arte, e mais importante que isso, provar que todo mundo é capaz de se manifestar artisticamente, são extremamente louváveis. São pequenos manifestos pela arte democrática, livre e sem fronteiras.  O canal por assinatura Disney Chanell transmite um programa britânico, produzido por Neil Buchanan  e Tim Edmunds, chamado Art Attack (ativo entre 1990 e 2007). Continue lendo “Pequenos manifestos pela arte democrática”

Reminiscências

Causos: Trabalho Infantil

Abraçando o mundo - 2004 - fotografia +  cutoutNessas minhas buscas por produções mais ou menos artísticas que já me aventurei (e vale lembrar que estou me referindo a tal arte diálogo, e não óh, que espetacular artista eu sou… lol. Eu sei que não sou, ok?), acabei esbarrando em uma referência de um causo da Lelê, quando ela tinha 5 para 6 anos. Espoleta desde sempre, ela já me causava fios brancos e noites insônes.  A casa inteira ia dormir, e ela ficava lá, brigando com o sono.

Uma bela madrugada, estava eu na internet, e ela acordada. O irmão do meio ia dormir num canto e ela corria lá para azucrinar. Ele se levantava e ia dormir em outro lugar, e não dava 5 minutos e lá estava ela azucrinando de novo.  Desde aquela época ela já tinha preferência de azucriar o do meio e não o mais velho, e já tinha complexo de Sheldon e determinava lugares da casa que eram de sua propriedade, mesmo que não o fossem de fato.  O irmão, cansado de pular de cama em cama, foi dormir n sofá do escritório, que ela chamava de “cama dela” e lá veio ela de novo: “Tê! Você está na minha cama. Eu ia dormir aí…” E ela pulou em cima dele. Continue lendo “Causos: Trabalho Infantil”