Paradigmas e comportamentos

Sobre o Estado Laico, Políticas Públicas, a Hipocrisia e o Aborto

A discussão do momento é, com a indicação da nova ministra da Secretaria de Políticas para Mulheres, Eleonora Menicucci, é a legalização do aborto.

Vamos começar essa conversa esclarecendo alguns pontos? Pessoalmente? Eu sou contra o aborto. Nunca fiz um. Nunca pensei em fazer um. Acho muito, muito difícil cogitar qualquer situação em que eu faria um. Mas a discussão da legalização do aborto não deveria ser pessoal.  O aborto sim.  A legalização dele? NUNCA.

Legalização do aborto é questão de saúde pública, de política de Estado. Ou deveria ser. É mais do que respeitar o direito último que temos sobre nosso próprio corpo, é garantir que ao se ver nessa situação, uma mulher tenha amparo e segurança. E deixar de hipocrisia, porque abortos, queiramos ou não, acontecem aos montes todo santo dia. É parar de financiar a máfia das clínicas clandestinas. É transformar de fato em laico esse Estado híbrido em que vivemos, onde religião influencia políticas públicas, em detrimento das crenças individuais da população.  Continue lendo “Sobre o Estado Laico, Políticas Públicas, a Hipocrisia e o Aborto”

Meios e Mídias

“The” Alice? There’s been some debate about that.

Vamos brincar de jogo de associação de palavras? Volte no tempo um pouco, antes do anúncio da filmagem de Alice in the Wonderlands. Eu digo para você “Tim Burton”, o que vem a sua mente? Helena Bonham-Carter e Johnny Deep?! Ok, segue daí, o que mais vem a sua mente? Na minha vem logo Edward Mãos de Tesoura, a Noiva Cadaver e O Estranho Mundo de Jack. Se eu continuar a partir daí, palavras como fantasia, realismo fantástico e surrealismo vão pipocar na minha mente. E daí pra Lewis Caroll e Alice no País das Maravilhas seria um pulo. Por isso sorri de orelha a orelha, igual ao Cheshire Cat, quando soube que Tim Burton iria filmar esse clássico dos clássicos! Contingências fizeram com que eu não pudesse ver o filme no cinema, e o vi somente agora, quando ele passou na HBO HD. Foi o quanto durou meu sorriso.

Não me entenda mal, eu não sou purista. Sou totalmente pró liberdade poética e acho que filmes não são livros e vice versa, então não espero ver transcrições literais quando uma adaptação de livro chega as telonas (o mesmo vale para HQs, diga-se de passagem). Respeito muito essa coisa de interpretações autorais e de fato, fico até curiosa para saber como um determinado produtor/diretor/roteirista/ator vai conceber um determinada história/personagem de forma a torná-lo novo, e ainda assim, reconhecível.

Mas o problema aqui é: Tim Burton filmou Alice no País das Maravilhas? “A” Alice? Bom, é discutível. (A seguir, spoilers… leia por conta e risco!) Continue lendo ““The” Alice? There’s been some debate about that.”

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Os afetos, os desafetos e as leis da física

A vida é essa sucessão de histórias que se entrelaçam. Pessoas que vão, vem, cruzam seu caminho das mais variadas maneiras e cujas histórias imprimem marcas na sua vida e vice versa. Boa parte do tempo, você não pensa neles: os afetos e desafetos que ficaram caminho a fora. Mas eles estão lá, são impressões indeléveis, sutis ou não, na sua história.

Durante algum tempo eu tive essa semi-angústia relacionada aos desafetos. Explico. Eu tenho uma daquelas consciências ultra-mega-hiper-super-limpas de que nunca, mas nunca mesmo, fez algo intencionalmente pra magoar alguém. Não vou dizer que caí de amores por todo mundo que cruzou meu caminho. Sentir antipatias, muitas vezes injustificadas e não provocadas, é parte da natureza humana. Gente se agrupa de acordo com interesses em comum, química, leis do magnetismo que atraem ou repelem. Mas nunca me peguei num momento do tipo “não-gosto-de-fulano-então-vou-fazer-isso-pra-que-ele-se-ferre”. Meu potencial sádico tende a zero e nunca tive prazer no sofrimento alheio, por mais desagradável que fosse o alvo potencial. Embora me pegue em momentos invejosos do tipo “quero também” (e ênfase no também), nunca, mas nunca mesmo, tive sequer o pensamento, que dirá ação, no sentido de se não tenho (ou não tenho mais), fulano não pode ter. Também nunca fui do tipo – e isso pode explicar porque mais de uma oportunidade me escapou pelos dedos e porque já perdi o trem da história incontáveis vezes – capaz de pisar em alguém para conseguir um objetivo. Gente pra mim não é escada e me é impossível escalar cabeça por cabeça pra chegar onde quero chegar. Eu peço licença (burra eu, né?), e torço pra que saiam do meu caminho a tempo de pegar o tal trem da história.  Até hoje, tática mal sucedida, mas sem pretensões de modificá-la. Continue lendo “Os afetos, os desafetos e as leis da física”

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Vicky, Cristina e o Nada

Eu podia ser ultra cool e dizer que é um ótimo filme de uma ótima fase do Woody Allen e discorrer sobre as diversas conotações filosóficas que o filme apresenta e… Bem, eu podia. Mas Vicky Cristina Barcelona tem um problema que é recorrente na obra do Woody Allen: é um belo tratado,mas sobre o nada. O W.A. é uma espécie cronista visual cujo tema fundamental é a neurose humana. E não nego o seu talento para fazer retratos, muitas vezes divertidíssimos, sobre o tema. Eu não desgosto do trabalho dele, só tenho quase sempre (excessão pro A Rosa Púrpura do Cairo, que é um filme que eu amo de paixão) a sensação de incompletude e inutilidade quando os créditos começam a subir. A idéia é que para ver neurose pela neurose, basta a gente se olhar no espelho: e muitas vezes os filmes do W.A. são só isso: a neurose pela neurose. Continue lendo “Vicky, Cristina e o Nada”

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Regidos pelo caos

Mamãe e papai me ensinaram a ser uma boa menina: O bem vem para quem faz o bem. Mas num universo regido pela teoria do caos, onde todo sistema é complexo e todos as influências relevantes eu nunca entendi muito bem como essa história de fazer o bem se encaixa no girar das engrenagens. Em certas horas a gente entende perfeitamente por que o homem precisa tanto da noção de deus e da religião.

Eu não sei ser prepotente a ponto de ser atéia. Então não sei se deus é uma idéia inventada ou se é simplesmente um conceito que não podemos atingir com seus tais planos misteriosos escritos em linhas tortas e letra de médico. Me contento em ser agnóstica e dizer que não sei se deus existe e que se existe, não cabe a mim compreendê-lo em sua totalidade. Mas a verdade é que existindo ou não, é um conceito necessário. Porque tem certas horas que o único, mas único consolo que o ser humano pode ter é dizer entredentes: “Deus tá vendo…”

Vendo o esforço. Vendo a tentativa muitas vezes vã de trocar o bem pelo bem. Vendo a impotência frente ao caos. Simplesmente vendo. E anotando nossos pontos em algum caderninho surrado, e nos dando um vale-brinde de pós-vida, céu, wherever… Porque por aqui a coisa tá feia! Continue lendo “Regidos pelo caos”

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Sobre o incomensurável universo e a eventual existência de deus

O universo é infinito e em expansão. Um dia desses, apesar do meu desejo emocional por acreditar em outra coisa (como o atrito da gravidade impelindo o tudo para seu movimento reverso, e voltando a si mesmo para um novo abraço em um big crunch), ele irá se desfazer e ainda assim permanecer sem começo e sem fim, disperso em nuvens de matéria, tão distantes umas das outras, carente de quaisquer energia livre capaz de sustentar movimento ou vida, em um estado de entropia suprema, desfeito e ainda assim existente. O universo é infinito e em expansão, e sem sombra de dúvida, detentor dos mistérios da existência, renitentes às tentativas dos astrofísicos de fazê-lo caber em uma única explicação.

O homem, essa formiga cósmica curiosa e insignificante, povoa o infinito com suas lentes potentes, e registra o absoluto ainda que incapaz de compreende-lo em sua total magnitude. Eu não sei se existe uma força superior, uma energia suprema que atribui significado aos movimentos entrópicos. Gosto as vezes de elocubrar a respeito, metafisicamente distante e próxima, e teorizar que a primeira energia, que continha em sí as forças primordiais do universo e que ao se expandir criou o espaço existente onde nada havia, com força tão inimaginável que do nada criou o infinito, era essa tal força, energia e saber inicial e onisciente, que se espalhou em fragmentos e nos fez não de barro, mas de pó de estrela. Eu não sei se é fato, mas chamo de deus essa matéria primeira que hoje é infinita, e em expansão. E apesar da nossa curiosidade igualmente infinita, a resposta, se existe, não se dará em provas científicas mas em epifanias individuais, relativas como tudo mais no universo. Continue lendo “Sobre o incomensurável universo e a eventual existência de deus”

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A Arte e o Diálogo

Alguém pode me explicar o que é Arte? O Aurélio, o pai (e tábua de salvação) de todos os incultos diz algo como:

atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito, de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação…; a capacidade criadora do artista de expressar ou transmitir tais sensações ou sentimentos ….

Ilustração de Christina Tsevis

Mas como é que se cria uma sensação ou um estado de espírito? E se o caráter é estético, como se dissocia isso de uma avaliação pessoal que é perpassada pela cultura, pela perspectiva e pela história de vida do observador?  E se não se dissocia, a arte ainda é arte sem um sujeito que a observa? Os questionamentos vão em espiral e nunca terminam: Se a arte é obtida por uma técnica específica e as técnicas adquiridas através da tecnologia, a compreensão da arte está vinculada às tecnologias disponíveis? Quaisquer manifestação humana que criem / expressem as tais sensações e estados de espírito, são arte, independente do criador e do observador? A produção que expressa um sentimento embora não o desperte, é arte? Continue lendo “A Arte e o Diálogo”