Crônicas do Cotidiano

Para quem te deu o primeiro batom

Recebi uma propaganda de loja de cosméticos: Frete grátis para quem te deu o primeiro batom.

5 segundos de pausa, mergulho lá dentro e tento me lembrar qual foi meu primeiro batom. Não sei. Devo ter roubado da minha irmã, ou sei lá, não é de se causar muito espanto que eu não lembre.  Não é assim que funciona a minha memória. 

Mas bem no fundo da mente, naquela gaveta onde a gente guarda umas coisas que sei lá, foram quadros um dia na parede do nosso pensamento, eu lembrei de um batom específico, que não sei se foi o meu primeiro, ou mesmo o primeiro que ela me deu, mas que foi dado por minha mãe… Era um batom da Dermage, a embalagem abaulada, parecida com um desses novos da Boticário, e era uma cor indecifrável, marrom acobreado, mas com um fundo avermelhado, e sempre foi meu batom favorito da vida.

Nunca mais achei uma cor igual. Lembro de usar com pincel o fundo do fundo do fundo, até o dia que não tinha mais nada e a embalagem cheirava a cera, o batom vencido, acabado.

A Dermage acabou com a linha, e em mais de 100 batons (então, eu tenho problemas… manias sazonais, já foi batom, já foi echarpe, já foi … enfim, eu digo que não tenho manias ou compulsões, mas é mentira, elas só não perduram!) com as cores mais lindas desse mundo, nenhum era igual aquele, o batom que minha mãe me deu.

E ai eu lembro dela como ela era. Como ela aparece nos meus sonhos  Lembro da gente numa dessas galerias de lojas comprando empadas integrais. Lembro dela fazendo feira ou mercado e levando bobagens pras crianças, aparecendo de repente na minha janela com a sacola cheia de agrados. Lembro dela pintando caixas de joia. Reclamando da vida. Enchendo nosso saco. Lembro dela escolhendo roupas pras crianças, e acho que a ultima vez, roupas de frio para uma ida a MG, eu já grávida da Lê, em julho de 1998…

Acima do peso. Nenhum cabelo branco. A incrível capacidade de fazer uma milhão de coisas ao mesmo tempo.  Múltiplos empregos. Depois Arte e Francês.  A viagem para a França. E o dia em que ela deixou de habitar o próprio corpo, que ficou entre nós, ainda amado, uma senhorinha magrinha, dos cabelos brancos, a fala baixa, com suas sequelas, mas cearense arretada que não desiste da luta e permanece, perdura, segue… mas só com alguns fragmentos da memória do que ela um dia foi.

O reconhecimento ausente que algumas vezes por ano aceitam que eu sou a filha dela, para melhor passar, porque insistir que não lembra dá trabalho, e ela não está mais aí pra isso, pra trabalho algum exceto o de permanecer lá.

Hoje ela não está mais lá para o trabalho de me comprar um batom. E não aproveitaria um, se o recebesse.

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