Contos

Abecedário: A

Água.

Abriu a torneira e deixou a água cair. Olhou por alguns instantes e por fim esticou as mãos. Jogou a água no rosto sem mesquinharia. Até estar toda molhada. A água que escorria abundante.

A angústia era aguda, gritava dentro do peito aberto, embotado de medo, mas amplo, cheio dos piores venenos: amores.

Ansiosamente encarou água, que escorria através dos obstáculos, e se esvaia nos cantos como animal arredio que escapa por campos abertos, como feridas por onde nos foge a alma.

A água. Aberta, escorrendo no chão, por baixo da porta, pelo piso, encharcando a folha do calendário arrancada: abril.

Através dos dedos a água ainda escorria, era apenas água e ainda assim ardia, ácido queimando as entranhas.  Abriu os olhos e no espelho, tudo que tinha era o agora.

Abriu a porta da rua, enquanto a água ainda caia, atravessou a soleira arrastando-se, ansiando por outra vez se sentir ávida, por qualquer coisa digna de ser amada.

Ainda assim era só a aptidão natural para a angústia, qualidade intrínseca, sua  arma, asfixiada, buscando por ar.

Água.  Conta-se que todo o continente pereceu sob ela, nova Atlantis alagada , perdida para sempre sob a água, no dia que ela foi embora e deixou sua única herança amarga: restos de si, sua história, terra arrasada…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s