Contos

Exercício Literário 4 – Feijoada

A sexta feira começou na segunda. Tudo era expectativa. Tinha medo dessa coisa de família reunida; sempre a piada errada, o comentário fora de hora e todas aquelas coisas que faziam com que a fotografia fosse sempre melhor que a realidade. Mas sentia falta também.  E nem sempre as coisas desandavam. Alguns dias eram bons por si mesmos. Não eram? Deviam ser. Ela tinha lembranças boas. Ainda que fosse de parte de dias, relances, vislumbres, momentos.

E era uma aventura. A receita era a do avô, que o pai repetira por muitas sextas feiras de feriados, sobre os protestos ardorosos da mãe, que havia de ter algo menos calórico para comer… Sua mãe nunca tinha gostado de feijão, que dirá de feijoada, mas era sempre refém daquela tradição que a expulsava da cozinha de tempos em tempos.

Ia ser a primeira vez que iria tenta-la sozinha.  Sabia que seu pai não poderia comer muito agora que estava doente, com a dieta mais restrita que a mais restrita das dietas… mas era a forma que tinha de dizer obrigada, de avivar lembranças, de lidar com as perdas.

Lembrava de si mesma ainda pequena, na ponta dos pés na bancada, colocando as carnes para dessalgar, amassando alhos de deixavam um cheio esquisito nos dedos pelo resto do dia, correndo em volta da mesa correndo do monstro da cebola semi-descascada  sob as risadas do pai.

A cozinha era dos aventureiros desbravadores dos segredos da feijoada desde a noite de quinta antes dos feriados, e retomada logo cedo de manhã depois de um breve descanso, quando o barulho engraçado da panela de pressão e o cheiro do feijão sendo cozido com aquelas partes esquisitas do porco enchiam a casa toda…  Ele deixava ela entrar sobre a promessa solene de ser uma ajudante atenta e honrar e guardar os segredos da receita mágica das sextas feiras.  Isso a  enchia de orgulho. Quando os primos vinham, então, ela se inflava como um balão a cada garfada que eles davam. E guardava silêncio, porque tinha um medo enorme de se ver tentada a partilhar o segredo por um pedaço de chocolate ou uma ameaça de beliscão. Ninguém nunca quis saber, mas ela sempre achava que era um risco muito alto e um segredo muito importante.

Mas havia sido um tempo em que precisava ficar na ponta dos pés na bancada. E que não reparava nas intrincadas relações familiares, nas implicâncias e amargores que se misturavam aos vapores da grande panela de feijoada que enchia mais da metade da mesa de apoio.  Pra ela só importava a confiança depositada, a tradição familiar que ela dividia com o pai, e o gosto perfeito da carne seca se dissolvendo na boca.

E tudo era importante. A couve cortada tão fina que parecia linhas verdes a serem postas em agulhas. As fatias de laranja dispostas ao redor da travessa, as carnes servidas a parte para os mais afeitos aos pedaços mais gordurosos ou os mais exigentes por tipos específicos de carne, o arroz tão solto que parecia ter sido cozido grão a grão.

Ela podia apostar que quase todas aquelas sextas, depois dos adultos esvaziarem as garrafas de cerveja e terem preparado algumas caipirinhas, terminava como quase todas as vezes que se junta família no mesmo lugar: a nítida impressão de que eles ficam melhor na fotografia. Mas não era disso que ela lembrava. Nunca.

Quando tudo ficou pronto, chamou as crianças para ajudar a pôr a mesa. Em breve as chamaria para partilhar o ritual, mas não naquele dia. Era a sua primeira vez. E fazia acompanhada só das lembranças de cheiros, gostos, risos, cochichos e mais risos.

Manteve-se em silêncio quase total por boa parte da refeição. Um sorriso bobo no rosto observando a família comer. O pai, na cabeceira, com um prato pequeno para provar a comida dos demais depois da sopa, tinha um meio sorriso. Talvez reflexo. Ou estranhando o sal e a pimenta que era ausente em todos os outros dias. Talvez fosse aprovação.  Na sua lembrança, anos depois quando ele não estaria mais lá para confirmar, seria sempre aprovação.

Pensou em tirar uma foto.  Havia um zumzumzum no ar, talheres batendo no prato, risos, pratos passados de mão em mão.  Teve medo de levantar para a foto e quebrar a magia. Estava tensa sabendo que aquela era uma frágil estrutura:  pessoas, ainda mais tão próximas, com laços de sangue, compartilhando a mesma mesa geram sempre o risco de uma pergunta que não deveria ser feita, um comentário que soaria estranho, uma cobrança fora de hora,  uma resposta atravessada que só se dá para quem se ama e por isso mesmo não deveria ser dada… A qualquer momento um poderia se levantar quase derrubando a cadeira. Alguém poderia empurrar o prato em sinal de mágoa que tira a fome. Enfim, algo terrivelmente banal e ao mesmo tempo, devastador poderia acontecer.   Ela não tinha o controle.

Teve na receita. Passo por passo, que sabia de memória, mas conferiu no caderninho onde anotou pelo menos 2 décadas atrás. A letrinha tremida mas esforçada, com comentários e observações de margem de caderno, de detalhes que não podiam ser esquecidos. Mas sobre o comportamento dos outros, zero controle.  Aceitou isso. Não com a tranquilidade de quem não se importa, mas com a disposição de fotografar na memória aquele momento enquanto bom ele fosse.  Era o que podia fazer.

Estendeu a mão sobre a mão trêmula de seu pai, que ainda tinha o meio sorriso, e sussurrou um agradecimento.  E então começou a participar das conversas, e a rir, e a fazer parte da mistura de sons e cheiros da cozinha cheia.  Ela era criadora e parte da lembrança que se formava, da tradição que se renovada e do sabor que era compartilhado. Ela sempre seria.

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