Contos

Exercício Literário 02 – Dany

(Inspirado em Fallout)

Dany. Não conseguia parar de pensar nela. O rosto tenso, testa franzida enquanto eu vestia meu uniforme. Ela nunca falava nada. Apertava as mãos embranquecendo os nós dos dedos e depois segurava minha mão com sua mão fria, ligeiramente suada, quase sempre trêmula. O que havia para falar?

Ela contava histórias que lia de tempos diferentes. Lendas. Delírios de fé para gerar a esperança de que um dia, fora do Abrigo, houvesse mais do que deserto. Era assim que se passavam os dias. Construindo a esperança de achar algum lugar intocável, onde a vida fosse possível. Mas ela nunca tinha saído do Abrigo. Eu sim.  E sabia que do lado de fora só havia terra seca, desolação, escombros e morte.  E ainda assim, no momento em que eu vestia meu uniforme, ela era sempre a face do medo, e eu, da esperança. 

Tinha que ser.  Não a mesma esperança que ela nutria, que se concentrava no dia em que eu não precisasse mais sair, que não houvesse de onde sair, que estivéssemos enfim seguros. Eu tinha a esperança de voltar. De achar algo que pudesse ser útil para manter a sobrevida possível, mas acima de tudo, a esperança de voltar. E eu sempre voltava.

Tropecei. De novo. Dessa vez demorei mais tempo para levantar. Olhei pelo rasgo do uniforme na altura do meu joelho esquerdo. Não sangrava mais. A carne estava escura. E quente. Mais quente que o resto do corpo, cozinhando dentro do uniforme.  Olhei pra frente. Eu não estava longe. Precisava só pensar positivo.  Como se faz isso?  Encostei nos escombros tomando cuidado para não rasgar mais o traje, embora eu não fizesse a menor ideia de que diferença isso ia fazer. Respirei fundo e continuei andando.

Dany. Tentei lembrar da expressão do seu rosto quando eu voltava. Era para essa expressão que eu voltava. Apenas para ela. Todo o resto era sobrevida. Aquilo era vida. A expressão do rosto dela. Mas eu não lembrava. Minha mente estava turva, confusa, várias lembranças se misturando e eu não conseguia escolher o que lembrar. Apertei a mão dentro da luva do mesmo jeito que ela fazia, isso eu lembrava. Mas não lembrava da expressão que o rosto dela fazia quando eu voltava.

A boca estava seca. Apertei o mecanismo que filtrava a água, mas ele estava quebrado ou a água havia acabado. Ambas as explicações eram igualmente possíveis e igualmente inúteis.  A saliva, grossa, arranhava a garganta quando eu tentava engolir, torcendo para que fosse água o bastante. Ou que pelo menos fosse o bastante.  Notei que eu começava a andar em zigzag, cambaleante, com uma dificuldade cada vez maior de sustentar meu peso na perna exposta. Tentei de novo proteger o rasgo no uniforme, mas já havia usando todas as coisas que pudessem colar, amarrar, esconder, prender, proteger… e o rasgo voltava a se abrir, e dependendo da ideia genial que eu tinha para fechar o traje, ele se abria de novo junto com a ferida. Antes eu nem tivesse tentado.

Comecei a pensar porque eu estava tentando. Demorei a me lembrar dela. Dany.  Eu tinha para quem voltar e eu sempre voltava. Não devia estar longe agora, não devia….

Vomitei dentro do traje. Não senti o enjoo vindo. Não senti nada. Apenas vomitei.  Fiquei parado no meio do nada pensando no que fazer. A ordem era nunca tirar o uniforme no meio do deserto. Por nada. Mas ele já estava aberto e não devia fazer mais diferença. Mas eu não podia tira-lo porque essa era a ordem.  As duas possibilidades, como quem fica em frente a bifurcação do caminho e não consegue se decidir, me puxavam para os dois lados,  gritavam na minha cabeça, o cheiro acre do meu próprio vômito, a leve lembrança de um sorriso doce que me esperava, e a completa escuridão.

Acordei. A cara suja de terra que entrou quando a proteção de rompeu quando eu cai. Outro corte, dessa vez no meu rosto, o sangue escorrendo, o cheiro do vômito, a saliva grossa impedindo a língua de se mover, a perna latejando, e um grande confusão mental.  Por vários minutos eu não lembrava de ter caído, pra onde eu ia, de onde eu tinha vindo. Me sentei.  E os olhos dela encheram a minha mente. Mas eu não lembrava do nome. Eu só não lembrava. Tentei me perdoar. Eu mal lembrava do meu.

Fiquei em pé. Olhei para todas as direções tentando achar para onde eu ia. Fiquei em dúvida entre duas, totalmente opostas.  Possivelmente eu tinha vindo de uma, e estava indo para a outra. Eu só não conseguia saber. Tirei a bússola da mochila. Quebrada, talvez quando eu cai, talvez quando …. quando…  Eu não sabia.  Tinha um rasgo na minha perna esquerda, da coxa ao tornozelo, e eu não sabia como aquilo tinha acontecido.  O joelho era uma grande bola de pus e sangue parado. Olhei a bússola de novo. E ri. Se ela estivesse funcionando, eu saberia pra que lado ir?

Achei melhor escolher uma delas. Eu tinha quase certeza de que tinha para onde voltar. Talvez até para quem voltar. Mas não tinha certeza. Era tudo uma grande confusão na minha cabeça, e parecia que tinha sido ontem que eu era uma criança, correndo pelo abrigo, enlouquecendo os adultos, me esgueirando pelos cantos, pedindo para ir conhecer o que tinha ‘lá fora’.  Não sei porque lembrei disso. Hoje eu só queria ficar dentro. Dentro da onde?

Encostei nos escombros. Pude jurar que já havia passado por alí.  Aquela mesma meia parede onde eu me encostei quando… quando…  Eu não lembrava. Olhei pra cima.  Lembrei de histórias que me contavam, lendas de quando havia vida fora do abrigo, e que as pessoas se guiavam pelos elementos que haviam no céu.  O céu era cinza. Sempre cinza. Nada havia nele para se guiar. Mentiras. Histórias para embalar sono de criança.  Lendas…

Resolvi seguir na outra direção. Talvez aquele escombro fosse novo. Talvez eu já tivesse passado por ele. Eu não lembrava para onde eu estava indo, qualquer direção deveria ser boa o bastante.

Não sei quanto tempo eu andei. O cinza do céu ficou mais escuro. O frio roubou espaço do calor. Vomitei novamente. Cai novamente.  E finalmente desisti.

Deitei no meio do nada. Acho que chorei. Abri os braços. Suspirei.

E ai, como se fosse mágica, eu lembrei.  Lembrei para onde eu estava indo. E qual era a direção. Lembrei do rosto dela. Lembrei das rugas de preocupação quando eu me vestia para ir para o deserto. Lembrei da expressão exata que ela fazia quando eu voltava, esse misto de alívio e certeza de que eu sempre voltava.

Dany.

Fechei os olhos. Me deixei ir. E torci para que de alguma maneira, aquilo também fosse uma forma de voltar.

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