Contos

Exercício Literário 01 –

(Ouvindo Seven  Nation Army – The White Stripes)

Jonas entrou no elevador. Ele quase nunca o usava. Seu escritório ficava no primeiro andar de um prédio com o térreo rebaixado, o que o fazia se sentir ridículo em pegar um elevador ao invés de um mísero lance de escadas. Diminuir as impressões de carbono que se deixa no mundo, diria uma ex namorada engajada. Ele no fundo talvez só fosse meio claustrofóbico. De mais a mais, era o único exercício do dia.

Tinha saído de casa decidido, mas estava começando a se questionar.  Era um hábito velho. Repassar mentalmente suas certezas e começar a encontrar milhões de dúvidas.  No fundo devia ser algum tipo de mal entendido, um erro tipográfico, uma confusão de papeis, uma surpresa que deu errado, algo que fugiu ao controle, ou qualquer outra explicação minimamente razoável que não colocava em cheque a integridade de Douglas. Amigos não puxam o tapete de outros amigos, certo?

De mais a mais, ele realmente gostava daquele emprego. Era quase certo que as tentativas de explicação fossem todas ancoradas na vontade de ficar, mas os documentos que haviam chegado na sua mesa ao fim do expediente da véspera eram mais que claros. Talvez claros demais. E eles haviam passado do ponto das explicações. Dessa vez, não seria ele a recuar

Jonas conhecia Douglas por bem mais de 10 anos. Haviam trabalhado juntos em vários outros projetos, tinham hobbies em comum e no histórico várias noites viradas com whisky caro ou cerveja barata. Apesar das personalidades totalmente distintas e vários anos de diferença de idade, podiam ser considerados amigos. Tinha sido Douglas que havia chamado Jonas para trabalhar na empresa, quando surgiu uma vaga justo na especialidade do amigo que havia acabado de se demitir de outra empresa.

Jonas tinha esse histórico de se sentir usado ou relegado e subutilizado nos empregos anteriores, e resolvia a situação se demitindo. Melhor que comprar briga, ele achava. Inúmeras vezes haviam roubado seu crédito durante o trabalho, ou o deixando de lado porque ele era muito incisivo em suas opiniões. Seja usado ou condenado ao ostracismo, ele acabava por desistir.

Novos empregos vinham porque ele era de fato muito competente, mas também graças aos contatos que ele tinha, porque não era um histórico muito promissor. Dessa vez ele estava extremamente satisfeito. Tinha muita liberdade, era desafiado intelectualmente, respeitado profissionalmente, mas ao mesmo tempo, não se sentia sobrecarregado. Acreditava de coração que poderia fazer carreira por ali. Afinal Jonas estava ganhando acima da média do mercado para a função e trabalhava no que gostava, numa sala ampla, arejada, e que apenas fisicamente ficava no primeiro andar, e não no sétimo, onde trabalhava o amigo.  Mas o que são alguns andares de diferença?

Douglas sempre descia ao primeiro andar na hora do café, almoçavam juntos com mais três ou quatro colegas mais chegados, e trocavam ideias sobre o que estava acontecendo em seus setores.  Lá em cima, o RH e a Diretoria. Cá em baixo, o pessoal da pesquisa e criação.  Num desses dias Jonas mostrou ao amigo a ideia que estava trabalhando, capaz de render um artigo ou dois nas publicações da área se burilado só um pouquinho.  Os dois ficaram empolgados com o tema e conversaram durante horas depois do expediente, testando a integridade da teoria que se mostrou impecável.  Douglas chegou a mencionar que invejava muito a capacidade intelectual do amigo. Ele, com um perfil mais executivo, tinha muita dificuldade em publicar.

Jonas trabalhava nesse projeto nos fins de semana e à noite usando o computador da empresa. Era o que ele levava para casa diariamente e onde estavam as anotações que lhe ocorria durante as pausas do expediente. Mas ele demorou a ligar os pontos quando seu trabalho foi recusado pela editora, com uma insinuação de plágio.  Parecia tão absurdo, que antes de começar a pensar em providências ou defesa, Jonas fez questão de investigar a fundo aquela história.  Como o material que ele supostamente havia plagiado não tinha sido ainda publicado, foi complicado descobrir de quem ele estava sendo acusado de plagiar.  Foi preciso acionar a rede mágica da amizade, aquela que garante que você sempre terá um amigo que tem um amigo que tem um amigo que pode te ajudar…  Uma questão de cultivar bons amigos ao longo dos anos e de ter um pouco de sorte.

O que Jonas não esperava descobrir era quem era o suposto autor. Na verdade, Jonas não esperava descobrir nada. Esperava encontrar o erro, a confusão da editora, a explicação mágica para o aborrecimento momentâneo. E caso não fosse um aborrecimento momentâneo… bom, ai ele não sabia o que esperar. Mas com certeza não esperava descobrir que a autoria do artigo semelhante ao seu, era de Douglas Andrade.

Ainda assim, a natureza de Jonas buscava uma explicação. O amigo teria algo a lhe dizer, com toda certeza. E durante toda aquela semana ele telefonara para Douglas, sempre em uma reunião, ocupado no momento, caindo na caixa postal, ausente do escritório, da casa, de qualquer lugar.  Pensou em ficar esperando pelo amigo no hall do edifício, mas achou que era ridículo demais, e mandou um email .

No dia seguinte, no fim do expediente, na sua mesa estava os documentos de dispensa do RH, pedindo seu comparecimento no setor.

Jonas acordou na manhã seguinte ainda de ressaca da vida. Se vestiu no modo automático e pegou no fundo da gaveta de sua cômoda alguns envelopes lacrados ainda. Deu um telefonema marcando uma reunião para o fim da manhã e se dirigiu ao escritório.  E estava lá, no fundo do elevador, lembrando dos últimos eventos quando a porta se abriu e uma moça que ele sabia trabalhar no terceiro andar entrou esbaforida no elevador de porta fechada. Ele sequer havia apertado o andar.

Sobe?  –  Ela perguntou, meio sem saber o que dizer para alguém parado no primeiro andar sem se decidir se vai ou fica…

Aparentemente… –  Jonas respondeu apertando o 3 e o 7 e sorrindo educadamente.

A visita no andar foi curta. 10 minutos no RH assinando papeis e uma invasão planejada na sala da diretoria, apesar dos protestos da secretária que o seguiu balbuciando negativas incompreensíveis com uma voz aguda.

– Bom dia Douglas. Faz tempo, heim camarada?  Tenho sentido sua falta no café.   Passei aqui pra te falar que já assinei os papeis da minha demissão lá no RH, todos os meus direitos, bonitinhos, mas esqueci de deixar esses envelopes lá com eles…

Colocou 2 envelopes fechados, sedex endereçados a si mesmo, um de um ano atrás e outro mais recente, de coisa de 30 dias  Manteve outros dois consigo.  Douglas abriu a boca para dizer alguma coisa mas Jonas não deu espaço.

– Então, pode abrir. Paranoico é foda. Eu sempre acho que algo horrível vai acontecer e nunca acontece. Mas eu sempre acho. Então todos os meus artigos no passado, e todas as minhas idéias que eu acho que valem a pena eu mando pra mim mesmo, por sedex em 2 vias. Vai que, né amigo?  Vai que…. Taí, a idéia original e o texto quase finalizado, antes dos últimos retoques pra submeter na editora.   De repente te ajuda a melhorar seu texto, sei lá. Vou te contar que fiquei na dúvida do que fazer.  Mas tem um problema grande aqui. Não dá pra você ficar com tudo. Meu texto e meu emprego?  Então… Não dá.  Mas não vai dar pra  desenvolver melhor esse tema com você que tô na pressa, reunião com meus advogados, sabe como é, né?

Jonas virou as coisas deixando o ex-amigo no vácuo e apertou o botão para chamar o elevador ainda ouvindo a secretária tentando se explicar.  Deu de ombros de repente e desceu a escada. Havia algo de libertador em descer aqueles 7 andares e ir embora.  Dessa vez, pela primeira vez, sem ter desistido. De nada.

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