Reminiscências

Sobre perdas e dores.

Meu pai morreu fazem 6 meses hoje. É tanto sofrimento condensado dentro da gente, que parece que fazem 6 anos. Ou 6 dias. Eu não sei ao certo. Dói sempre como se fosse agora, mas há uma eternidade em tempo de correntes se arrastando desde do dia que eu recebi a notícia.

Lembrei dele hoje. Como lembro todos os dias. Mas não lembrei que faziam 6 meses. Esses dias pra trás andei especialmente triste. A gente tinha adotado um bichinho silvestre em necessidade que nos ajudou a passar pelo primeiro natal sem o pai, um canal de amor, sabe? E fiquei sabendo que ele havia morrido. Soube depois, bem depois, poque eu sou esse mar de instabilidade ambulante, que tem 6 meses que não sabe onde fica o chão, ou o teto, como mergulhador de caverna, se guiando por instinto, torcendo pra ter calculado certo o ar… E ai ninguém quis me contar.  Entendo. Eu não queria ser o portador de más notícias pra quem chora sem motivo aparente a cada um passo ou dois, e fica olhando perdido pra frente, e passa cada dia esperando pelo próximo chegar.  Bem entendo.

Então eu estava lá, esperando o próximo dia chegar. Entre um trabalho e  outro li o post de um amigo. Eu precisei ler umas 6 vezes. Não fazia sentido. Eu devia estar entendendo errado. Cliquei no link do post, outro post, e li algumas vezes também. Sai buscando páginas de amigos querendo encontrar um primeiro de abril, não é isso, é boato, sei lá… Assim como eu li a mensagem sobre meu pai inúmeras vezes e perguntei como assim?  como se tratasse de alguma impossibilidade. Eu me senti desconectada de mim mesma explicando pra mim que era aquilo mesmo, e que essas coisas acontecem. E voltei ao post original e li mais algumas vezes… Eu tinha perdido um amigo querido.

Larguei tudo que eu estava fazendo e fui almoçar. Mandei mensagem para a esposa dele, tentando lembrar do que eu precisei ouvir quando meu pai morreu. Só saber que eu era amada. E as pessoas se importavam.  Brinquei com a comida, garfo rodando no prato, até a última e penosa garfada. Voltei pro escritório. Peguei o celular para mandar mensagem para amiga amada muito próxima desse amigo no exato momento que chegava mensagem dela avisando aos amigos de longe do ocorrido.

Vieram à mente, em ondas de saudade e amor, várias lembranças.Uma delas, registrada em VGA de uma das primeiras máquinas digitais que eu vi na vida, virou meu post de despedida. E eu estava tentando lidar. Acontece. A vida segue. Eu preciso seguir meu trabalho, eu…

E então como bigorna em desenho animado, eu me toquei que era dia 21. E que 6 meses atrás meu pai tinha ido embora, assim sem aviso, a despeito das eventuais mazelas de saúde, mas sem aviso, sem tempo pra que a gente se preparasse pro que não há preparo… A dor misturada de todas as perdas do mundo bombeada junto com o sangue pelo meu coração, tomou conta de mim como se fosse tudo do qual eu era feita.

Pensamentos desconexos sobre o quanto de dor eu tinha direito de sentir se misturaram com a total e completa incapacidade de parar de chorar.  As vozes das pessoas no escritório foram ficando cada vez mais distantes e irritantes, como se eu não pertencesse aquele plano, como versassem sobre outra matéria, matéria viva, e eu, bem, eu não.

Fui embora, amparada por amiga, tomar um café cheio de açúcar, pra me culpar depois, pelo açúcar e pela dor, porque o que meu não é dor é culpa. E o que não é culpa é dor.

E vim pra casa velar nossa dor. Nossas perdas. No plural. Não só minha dor, que se confunde hoje comigo, indissolúvel de mim mesma, mas a dor de todos que conheceram meu pai e conheceram o Cláudio, e que são melhores hoje do que seriam se não os tivesse conhecido, e que seguirão tropeçando na ausência da qual a saudade é feita, nas memórias que são bálsamo e tormento sempre ao mesmo tempo, porque diz do que já foi e nunca mais será.  Vim pra casa chorar.  Porque o mundo lá fora nos pede que escalemos parede sem reentrâncias e tem dias que simplesmente não dá. Apenas não dá.

E lembrar do meu amigo, um gigante doce, ranzinza e bem humorado, porque somos feitos de contradição. E do meu pai, um velhinho doce, ranzinza e bem humorado, porque de fato somos feitos de contradição.

Diferente da maioria das pessoas que conheço, eu não acredito num depois. É do que mais (ou só) sinto inveja nessa vida…  Mas mesmo sem acreditar, gosto da imagem idílica de que há um lugar onde depois que deixamos de ser, vamos viver e esperar pelo dia de reencontrar com quem não partiu ainda.  Talvez, como no sonho do Matheus, esse lugar seja dentro de nós.  E no fundo do meu peito, hoje meu pai e o Cláudio estão tomando cerveja,  perguntando porque não os apresentei em vida, e contando causos entre si…

Bebam uma por nós. E mandem ondas de amor. Porque a vida será todos os dias um pouco mais triste para a gente por aqui.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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2 comentários em “Sobre perdas e dores.

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