Crônicas do Cotidiano · Palavra que cura

Sobre colheres, motivação e outras histórias.

Eu queria muito explicar pra vocês sobre a Teoria das Colheres, mas estou cansada e acho mesmo que gastei minha penúltima colher vivendo mais uma semana da forma mais produtiva, sociável e positiva que me foi possível.

Todas as vezes que as vozes (opsss) que reverberam dentro de mim gritam sem piedade o quão fracassada, limitada e ridícula eu sou, eu listo para mim mesma todas as coisas que andei fazendo, inacreditavelmente incríveis, que incluem ter levantado da cama e passam por tarefas bem executadas e em dia que aparentemente nem todo mundo é capaz de fazer no meu lugar.  Mas não é fácil. As vozes gritam alto e eu já nasci rouca.

E da mesma forma que por muito tempo o que era meu e o que era eu viviam em concha (pérola e câncer) escondidas dos olhos do mundo, essa sucessão interminável de pessoas normais, bem sucedidas, bem resolvidas, enquadradas com perfeição no que a sociedade espera delas, vivem diariamente suas lutas, suas dores, suas dúvidas. E elas podem ter saído vitoriosas quando se colocam na sua frente em toda a glória da normalidade, mas só elas sabem o quão sangrenta foi a batalha vivida.  Eles apenas escolheram enfrenta-las solitariamente e em silêncio estoico, porque, que triste, não sabiam melhor…

Hoje, indo pro trabalho, no meio de um capítulo do livro Alucinadamente Feliz (Jenny Lawson),  me senti como quem havia levado um soco na base do estômago e um abraço ao mesmo tempo. Segurei o choro e deixei o mais complacentemente possível que aquela sensação ficasse ecoando através do dia, cheio e cansativo como o anterior. A epifania vivida me cedeu uma série de colheres extras para passar pelo dia, e uma delas eu guardei bem escondida para poder ter a energia para escrever esse texto. E era uma colher das grandes, porque há muito o que dizer…

As pessoas tem várias teorias sobre quais são os desejos mais profundos e viscerais do homem enquanto espécie e o que o tirou um dia  da caverna e o tira hoje da cama. Somos uma planeta de ansiosos, deprimidos e neuróticos. Os melhores de nós,  profundamente decepcionados com o rumo da humanidade, e que ainda assim se levantam todos os dias, e insistem no que quer que seja sua rotina, seus objetivos e seus sonhos.  Mas o que os move?

Passei bons anos nos bancos da faculdade, lendo um sem número de autores, cada qual com sua idéia pseudo original da força motriz primeira que nos define e do desejo primordial que nos impulsiona. Ou versa vice vice versa…  Também durante a vida, as vezes tristemente sóbrios, as vezes totalmente enebriados, por puro diletantismo e descompromissados do viés da Academia, nos pegamos entre amigos discorrendo sobre nossas teorias, tão boas quanto qualquer outra.

Poder, Sexo, Inveja do Falo, Fixação na Mãe, Vontade Divina, Pura Inércia, a busca pela outra metade da laranja, a pura necessidade subsistência, karma, a cobiça e a ganância, os combinados imaginários, o desejo de ficar doidão ou mero tédio…  Já disse, teorias que dado a complexidade do objeto, são tão boas como outras quaisquer.

Mas sei lá, hoje tomada pela sensação dupla de soco no estômago fit abraço na alma, tive a sensação de que não existe sentimento mais avassalador do que o de, se sabendo único, se reconhecer no outro. Se sentir imbuído de pertencimento e validação.

Recapitulando minha vida inteira, meus gozos mais profundos vieram desses lugares de pertencer.  Gozos que foram físicos e muito mais que isso. De me sentir digna e merecedora. De entender que nunca estamos sós. De que a sensação de não sermos passíveis de ser compreendidos é uma falácia e que esse espaço de encontro onde sua batalha é a minha batalha e eu respeito as suas cicatrizes e a sua quantidade de colheres é O espaço.

Eu queria completar esse post te explicando a teoria das colheres. Mas só sobrou um pequeno espaço na minha ultima colher do dia pra dizer que tenho muito orgulho do que consigo fazer com o que eu tenho em mãos.  Ainda que as vezes, em alguns dias, seja só levantar da cama.

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