Sobre leite, dedos verdes e minhas mesquinharias.

Então, textão. É crônica do cotidiano mas tem muito texto, o que configura em textão. Esquece, vai pro blog… é muito textão.
A filha jovem adulta tem médico e te intima a ir junto. Ela tem as mais variadas queixas de saúde, então ir num clínico é sempre um ÓTIMO primeiro passo.
Chegamos dentro do horário e somos atendidas rapidamente. Ontem, voltando de uma ida ao bar próximo, a filha foi assaltada. Graças aos bons ventos, não aconteceu nada, apenas levaram a bolsa preta amada que partilhávamos (update: descobri que não foi a bolsa preta. UHU, oba!!!!), a chave de casa (essas fechaduras tão precisando de descarrego), o fone de ouvido e a identidade. O celular, junto ao corpo, ficou. E o susto. Esse também ficou. O mundo é mal e não tem lugar seguro. Ela estava em grupo, poucos quarteirões de casa. Fazer o que? Torcer pra ser sempre só um susto. Mas fato é que ela estava sem identidade.
Gente, amil é show. Tendo cadastro online, eles só precisam da carteirinha. Médico marcado online. Identidade fornecida online. Burocracia zero. Quase arrependida de não te feito amil e ter feito sulamérica. Ou não. Amil tava mais caro! Beleza. Entra no consultório e a médica pergunta qual a queixa?
– Nenhuma – ela diz.
Até tentei lembrar de algumas, ela fez uma cara blasê de quem diz, tá, mas não é por isso que estou aqui. Fiquei foi quieta, né? Pega os pedidos de exame, vai no laboratório para tirar dúvidas e caçamos um lugar pra tomar café. No shopping eu não ia. No 45 tava tudo fechado. Achamos um café junto à praça e sentamos ela foi lá pedir e pagar.
Volta com duas xícaras de café com leite, que não estava dos melhores, mas pelo menos tirou a sensação de estômago em jejum. E daqui a pouco a moça traz um copo de leite, também parte do pedido.
Tem toda uma explicação metafísica pro copo de leite. Algo como não tinha ‘café com leite’ no menu mas na hora de pedir no balcão o café grande virou café com leite mas já tinha pago o leite e ….
Não importa. Estamos nós na mesa com um café com leite cada e um longo e espumante copo de leite.
– Ai que saudade do meu irmão!
Amor? Nem… é que o irmão ama leite puro.
As tentativas de se livrar do leite foram várias. Inclusive uma nobre. Tá lá um senhor em condição de rua passando pela frente do lugar e perguntando pros transeuntes:
– Me paga um café com leite?
A filha gentilmente conversa com o senhor: – Não tenho como lhe pagar um café com leite. Mas o senhor aceita o meu copo de leite?!
– Com café. Me paga um café com leite?
– Então, não posso, mas o senhor aceita meu leite?
– Não obrigada, diz o senhor. E vira pro próximo que passa: Me paga um café com leite.
Eu tento engolir o pensamento classe média soberba de, pô, na falta do café com leite, com fome, eu beberia leite, ou qualquer outra coisa que me oferecessem. Mas puxa, o sujeito tem todo direito de não gostar de leite, né?
Um rapaz resolve pagar o tal do café com leite pro cara e o senhor rebate:
– É grande? Quero grande. E com açucar. Muito açucar. Já colocou açucar? Tem que ser muito.
Desculpa, minha empatia morreu no muito açucar.
Papo vem, papo vai, canela no leite, filha bebendo o leite em goles pequenos e sofridos seguidos por “odeio leite” ocasionais, minha natureza humanas hipponga vivendo do que a natureza dá, veio a tona quando um menino passou com uma rosa.
– Não gosto de flores. Estão mortas. Só gosto das que caem das árvores, porque ai é uma lembrança e ela já estava caindo mesmo…
– Mas e se eu te der uma planta no vaso?
– Não posso, tenho dedo podre, tem quem tenha dedo verde, eu tenho dedo podre pra planta…
E ai, o pensamento do dia, do mês, do ano, quiça da vida sai da boca da filha de 18 anos:
– Cada pessoa só tem dedo verde pra uma coisa na vida. O seu é para amigos.
Favor fazer 5 minutos de silêncio e compreender a profundidade da fala e do reconhecimento externo. Minha rede de proteção é tão bem intrincada que é reconhecida como a minha habilidade natural de fazer nascer, crescer e florescer alguma coisa. No caso, vocês. Voltamos a programação normal que a hipponga não apareceu ainda…
Passado os minutos de baque e reflexão sobre a frase, entre um gole e outro de leite, a conversa segue:
– Só se for cactus. A planta. Alias, quero ajeitar aquela nossa porta da rua. Colocar um tapete legal. Um Cactus na porta de entrada. E um Caçador de Sonhos.
– Mãe, tu é uma hippie.
Nunca neguei… sério, nunca.
Na praça velhinhas fazem ginástica.
– Eu, olha lá filha. Eu no futuro próximo.
– Tu é aquela primeira da fila lá, fazendo cara de o que é que eu fiz com a minha vida, enquanto segura a bola e a colega do lado, tb na frente da fila, massageia a barriga.
– Tia, posso ir pro fim da fila?
– Eita burra. No fim da fila vc massageia a da frente e ninguém te massageia.
– Melhor que na frente… mas eu posso ser a penúltima.
Passamos pelos aparelhos de exercício para terceira idade, e tá lá, duas senhoras fazendo certinho e um senhor que não conseguia coordenar os movimentos.
– Pra frente um pra trás o outro, Pra frente um pra trás o outro. – dizem as senhoras.
E tá lá o senhor fazendo ambos pra frente, ambos pra trás.
– Viu mãe? Pra frente um pra trás o outro.
– Ih, esquece. Na vida eu sou aquele senhor ali do tudo pra frente ou tudo pra trás…
Chegando na boca do metro, nos despedimos.
– Viu, você que queria ter entrado do outro lado, olha que passeio agradável nos fizemos, vimos as velhinhas com a bola, as outras no aparelho, Pra frente um pra trás o outro, Pra frente um pra trás o outro e o senhor ali tomando banho no chafariz ( não tinha visto, ela aponta, eu podia ter continuado sem ver!).  Passeio agradabilíssimo.
Tá né? Era o que tinha pro dia.
No metro, tudo certo até a central. E ai o pior de mim vem a cena. Entra família com cachorro, gato, papagaio e periquito, ou pelo menos filharada, sogros, tias, sombrinha, cadeira de praia, farnel e o escambau.  Nada disso me incomoda. É o caminho da praia, e obrigada pelo metrô que vai até a zona sul, e até pra barra, e possibilita ao menos esse entretenimento… o que me tirou do sério foi a forma, não o conteúdo. Eles entram aos berros, no empurra empurra, na risadaria, e aquele alegria sem contenção, que empurra os que já estavam no carro sem licença ou desculpa, e que te jogam contra os outros e reagem aos risos, como se fosse engraçado quase cair, naquele calor, em cima dos outros, enfim, isso me exaspera. Eu tenho problemas sérios com a ausência de contenção que se esparrama no espaço alheio. Tenho problemas  sérios com ausência de contenção e pronto. Mas essa parte eu sei que é a minha mesquinharia. A parte da falta de educação não deveria ser problema se indignar. Deveria?  Nunca sei.  O empurra empurra no vagão enquanto alegria de férias, encarando o apertamento do transporte coletivo como diversão e não fardo e a seletividade no que se recebe (leite não…) deveriam me incomodar? Ou é parte desse pior eu, esse que é o oposto do dedo verde para amigos, que trouxe para a minha vida gente que tá lá pra me segurar se eu cair do abismo, na hora que for e do jeito que for?
Vou levar pra refletir, e vou refletindo isso no elevador quando a vizinha da sobreloja no prédio do trabalho chama o elevador subindo (pra que, senhor? Pra que) e quando a porta abre eu aviso que está a caminho do 5°.  Ela entra mesmo assim, dando de ombros, nenhuma palavra, e enche o elevador com cheiro de quem toma banho de perfume doce, e faz o café com leite se revirar dentro de mim.  Nem, ESSE é o pior de mim. O que eu penso nesse momento é de longe o pior de mim. E eu salto do elevador sem dizer nem bom dia.

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