Dos bálsamos e olores.

Senta, que lá vem história…
 
Ia falar do meu inferno astral das trolhas voadoras que sempre começa em novembro e vai até abril, mas que esse ano eu tô sem estrutura pra lidar… Ai toca o telefone e é Leticia Telles com aquela voz doce de pedinte sabe? E eu já tamborilando na mesa pensando: Ai vem…
 
Corta a cena. Em um passado remoto, quando o Matheus Telles era uma coisinha rosada e loirinha, das tiradas espirituosas e da alma de poeta (hoje ele só não é loirinho…), ele foi um dos ganhadores do concurso de literatura da escola, o Maria Helena Xavier Fernandes, com uma poesia muito linda sobre medo. Dia desses pra trás (te preciso o dia, 24/08, fazer o que…) revirando as coisas do pai pra organizar documentos, dor profunda era as vezes entrecortadas por pequenos achados, e um deles foi a cópia do pai do livrinho onde tinha as obras vencedoras. Eu lembro dele subindo no palco, todo orgulhoso, pra ler a poesia pra família toda…
A gente já sabia que ele era um poderoso contador de histórias, uma alma velha com uma grande bagagem, e alguma preguiça de colocar no papel. E o reconhecimento dos seus pares, ali, no palco, era uma injeção de auto estima e de validação. Óbvio que ele passou por vários outros momentos depois, na cozinha, fora dele, onde ele foi validado, mas esse momento ao menos pra mim, era a lembrança representativa da validação dele.
Marfelo Lacerda teve a dele muito antes, medalhista em olimpíadas de matemática. Lembro que ele saia por ai ostentando aquela medalha com um orgulho enorme, e a alegria que era ver ele tão cheio de si mesmo. Depois ele foi pra outros lados, artista multifacetado do ‘dizain’ e compositor de músicas lindas!!! Mas ele teve esse momento exatas de sair pra todo canto com aquela medalha no pescoço, aquela que referenda do que se é capaz! Ai agora comecinho do mês ele fez o primeiro show solo dele. Tava lá, nervosão. Lotou o stúdio que ele alugou para o evento, amigos todos prestigiando, ele se sentiu feliz e validado e o dinheiro deu até pra comprar umas coisas pras artes. Uma arte validando a outra. Eu achei digno. E no meio de dias tristes, fiquei feliz.
 
Vamos retomar o telefonema? Então, era Letícia com a voz doce de pedinte, e eu confesso, exasperada com as trolhas voadoras de novembro, e com o rebote da noite mal dormida, já estava esperando más notícias. Não é como se 2016 tivesse me trazido boas notícias de graça ao telefone, né? As poucas boas noticias, talvez presentes de grego até, mas as poucas, vieram de batalhas difíceis, sofridas, que deixaram talhos enormes que em agosto vieram a se abrir e das quais eu ainda estou costurando, todos os dias, um de cada vez.
 
Mas era minha caçula, que em 7 dias fará 18 anos, meu bebê, que virou uma moça bonita e avoadinha. Já fui lá prestigiar ela no teatro várias vezes, e bater palmas pra ela, orgulhosa, mas ela ali era sempre parte do grupo, peça, e ainda não tinha tido esse momento de quando os holofotes se viram momentaneamente pra você e eu queria isso pra ela. Essa momento onde alguém olha especificamente pra você, te tira do meio do grupo, e valida algo especifico que você faz. E ela bem merecia, nesse ano mais que em qualquer outro, por um momento assim.
 
– Mãe, sabe o concurso Maria Helena? Eu ganhei. E a premiação é amanhã.
 
2016 tem sido um ano horrível, em todas as esferas. Doloroso. Difícil. Um ano de revirar no lodo. Um ano de feridas expostas. Mas eu sou muito grata ao universo por cada vez que ele se vira na minha direção e estende as mãos com um balsamo qualquer. Duplamente grata, quando esse bálsamo atinge um filho meu.

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