Oi, bom me ver, estava com saudade de mim.

5a feira, meio dia. Dedos tamborilam na mesa enquanto olho minha check list para quinta e sexta. Quase metade já havia sido feita. Sinto uma certa impaciência porque não sei o que fazer na sequência, e saio pra almoçar.

Está quente lá fora. Sinto pouca fome, é cedo para quem costuma almoçar quase 14 horas e como disse, está calor. Mas como na quantidade e qualidade de costume e volto pro escritório. Os pés doem um pouco. Já estão doendo tem tempo. Eu ando pesada pra eles, coitados.

De volta pra minha mesa, espirro água termal na cara, e me pego me sacudindo na cadeira. Há uma onda de energia ativa que quase dá pra ver. Abro um chat com a amiga e comento que meu T4 deve estar explodindo, mas depois de fechar começo a notar algumas coisas. Não parece um surto de hipertireoidismo.

De fato eu estava irriquieta. Mas estava focada. Ia fazendo as tarefas sem checar a lista, apenas indo lá para tickar as danadas (prazer de todo portador de TDA, Ansiosos e afins). Me lembrei de coisas que eu não tinha colocado na lista mas precisavam ser feitas. Não estava irritada nem nervosa. Não estava cansada nem desanimada. Eu simplesmente queria produzir e parecia que não havia tarefas boas o bastante.

Olhei de relance a lista. As tarefas mais simples estavam todas feitas. E não incompletas como vinha acontecendo. Documentos guardados no lugar certo, relatórios devolvidos para suas gavetas, rascunhos descartados.  Tudo que era começado , tinha a sua finalização de forma organizada.

Ataquei as tarefas mais chatas. As que demandavam atenção, concentração. Elas foram gerando sub tarefas quer fui delegando para minha assistente, e engatamos num eficiente bate bola de tarefas. Ela me devolvida as demandas, eu tratava, passava outra tarefa, e rapidamente fechamos um trabalho chato que vinha se arrastando por meses.

Olhei pra minha lista de tarefas. Não tinha terminado o expediente, e a única tarefa que sobrava era especificamente uma tarefa de sexta feira. Parte dos colegas encerraram seu dia, mas eu estava achando um desperdício não aproveitar aquela energia produtiva.

Parei uns instantes olhando em volta. A mente funcionando afiada como uma navalha nova foi fazendo conexões e fui listando novas tarefas, pendências menos importantes mas que alguma hora precisariam ser endereçadas.

Deixei pré-prontos planilhas e relatórios para o mês seguinte, hábito que eu criei pra garantir nunca perder o prazo de uma prestação, mas que nos últimos meses me roubavam um tempo precioso de olhar perdido de “o que é mesmo que eu tenho que fazer aqui? Como faço pra não perder essa formula? Qual é mesmo a coluna que tenho que linkar agora?”…  Hoje, em pouco mais de uma hora ela estava pronta, conferida, correta, esperando dezembro chegar.

Comecei a fazer aqueles backups que você sabe que precisa fazer e fica adiando. Calculados milimetricamente para o primeiro DVD de dados preciosos terminar junto com o fim possível do expediente, e já engatilhado os que seriam gravados depois.

Andei até a Central pra pegar o metrô com uma dor nos pés tão grande que na véspera faria eu me arrastar, mas peguei o metrô, depois meu ônibus andando devagar mais firme.  Vim lendo no ônibus. Descansada, sem precisar reler parágrafos, sem sentir os olhos fechando de cansaço.

E tudo que eu conseguia sentir era gratidão.  Em 22 de agosto meu pai me deixou no susto, sem aviso prévio, sem nota explicativa no rodapé. Estava lá. Não estava mais.  A perda dele me foi , como seria de se esperar, uma dor tão inexplicável e profunda. E me paralisou. A tristeza, para além da esperada, me tomava no meio do dia, no ônibus, no trabalho, em casa, e eu só conseguia chorar. Nada estava bom. Nada era interessante. Minhas crises de ansiedade começaram a  ficar insuportáveis.  Meus bloqueios de fobia social me fizeram querer ficar em casa, em posição fetal, sem ver ninguém. Tudo era custoso. Falar com gente conhecida era custoso. Falar com gente amada era custoso. Eu só não queria falar.  Eu estava quebrada, desmontada em mil pedaços e não sabia por onde começar a me montar. Não dormia mais de uma hora seguida. Não conseguia parar de comer. Não conseguia me lembrar das coisas mais corriqueiras. E meu spam de atenção tendia a zero.

Eu já tinha estado em lugares bem parecidos com esse. Mas dessa vez eu fui buscar ajuda. De todos os lugares onde eu podia buscar ajuda. Pareceu piorar no começo. Me forçar a estar com gente. Me forçar a trabalhar. Os remédios dando efeitos colaterais antes de começarem a funcionar. As tentativas e erros de dosagens e associações. A tática kamikase pra lidar com a tireoide.

Mas havia as pessoas. As pessoas ali ao alcance da minha mão.

Pessoas que me ampararam. Que ficaram silenciosamente ao meu lado. Que me mandaram procurar ajuda. Que estenderam a mão para me ajudar. Que garantiram que eu tivesse ajuda. Que me deram a mão a cada tropeço no caminho. Que tiveram paciência e generosidade. Que mesmo distantes olharam por mim.

Tudo isso nesse intrincado caminho de volta à vida. de reconstrução de si, ainda tateando e cambaleando, ainda sem saber se o dia intelectualmente-profissionalmente perfeito vai se repetir amanhã. Mas ele é possível. Eu vi.  Ainda que não tenha voltado ao meu normal ainda, ele aconteceu hoje, vai acontecer outra vez. E outra. E outra também.

5a feira. Eu acordei e no decorrer do dia, lembrei de mim mesma, e me reconheci.

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