O sorvete

Papai é quem gostava de sorvete.
Não vou dizer que é por causa disso, e dele, que eu queria poder comer só isso, pelos próximos anos, talvez, mas com certeza pelos próximos sofridos meses quente..  e esvazio compulsivamente os potes.  A bem da verdade, toda vez que em tempos quentes eu fico fora do prumo por alguma razão, sorvete sempre foi minha droga de escolha.

Mas é diferente, agora.

Toda vez que vou tomar sorvete, lembro dele. Ele gostava desse sabor?  Nossa, ó eu entortando a colher porque não molhei como papai me ensinou. ih, deixaram o pote semiaberto que nem seu Manel de Almeida deixava quando ia roubar sorvete escondido…
Toda vez.

Tornou-se então um ritual auto indulgente, um tanto masoquista, certamente deletério (enquanto tem, eu como. Acaba, eu compro. Enquanto tem, eu como…) de alto grau de conforto mas que em algum momento, me faz sentir essa vontade louca de sentar no chão e chorar… Tornou-se profundamente desolador.

Sabe aquela memória afetiva, de algo que grita o nome de alguém em todas as suas características, e que você não consegue dissociar, e que de repente, como um tijolo do alto da montanha em um cartoon cai na sua cabeça com a plaquinha: Nunca mais!  ?

Então… das muitas coisas na minha vida que nunca mais, eu nunca mais vou tomar sorvete com  o meu pai.

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