Um dia com Brené Brown

Hoje estava parecendo que ia ser um daqueles dias de choro solto, por tudo, por nada… Foquei no trabalho o quanto pude, e deixei no fundo entrevistas e palestras da Brené Brown. Eu já tinha ouvido ela algumas outras vezes, e ela tem aquele vídeo animado curtinho com a diferença entre simpatia e empatia que postei dia desses pra trás e que amo muito…
Tem uma coisa meio auto-ajuda no trabalho dela que meio que me incomoda. Auto ajuda é o fundo do poço do desespero. Amigo, se fosse fácil, não precisava escrever. Mas vamos confessar aqui meu guilty plesure pro palestras motivacionais (tenho o TED como favorito no youtube. Me julguem!) e elocubrações socio-filosóficas de efeito…  E de qualquer forma, prefiro ver o trabalho dela como pesquisas qualitativas sobre essas coisas que fazem parte da vida de todos nós: vergonha, vulnerabilidade, coragem, criatividade, integridade… E a descoberta que descontando as histórias de vida, essas coisas todas funcionam da mesma forma em todo mundo, e ao contar essas histórias virou best seller, bom, então porque não continuar e seguir escrevendo como quem dá receita de bolo?  Quem nunca?!

Assim como a diferenciação de simpatia e empatia, ela faz uma diferenciação entre vergonha e culpa bem interessante também. A culpa é comportamental e a vergonha é emocional. Se um copo cai, a culpa é o que nos diz: “não foi muito esperto da minha parte deixar um copo na quina da mesa. Preciso prestar mais atenção nessas coisas ou vou quebrar todos os copos da casa.” A vergonha é quem nos diz: “Sou um idiota. Só faço merda. Vou quebrar todos os copos antes que eu perceba porque nem isso consigo impedir”. A separação de ATO e PESSOA distingue os dois.  A culpa, ou o que ela chama de culpa, é o que eu chamo de responsabilidade. E o que ela chama de vergonha, a base de todos os comportamentos auto-destrutivos ou violentos.  Quem tem doenças que afetam funções emocionais ou cognitivas, e da minha tireoide até esse momento quebradiço da minha existência foi necessário incontáveis vezes, está acostumado com o mantra: Não sou eu, é a doença. Separar sintoma de natureza é essencial na manutenção da sanidade. Essa tristeza não me define. Aquele nervosismo não me define. Essa falta de concentração não me define A falta de memória não me define.  E o mesmo com meus erros. Eles não me definem, mas não deixam de ser erros (ou sintomas) e precisam ser endereçados. Accountability. Not shame.

A lista de pessoas cuja opinião importa (sério, uma lista mesmo, pequena, ela leva na carteira como lembrete pra não se deixar quebrar com críticas negativas e medo da vulnerabilidade, onde ela escreve meia dúzia de nomes de gente que a ama do jeito que ela é, e que é amada por ela, e portanto, é onde ela deve buscar o feedback),  limites (até para estabelecer quem merece a sua vulnerabilidade), a vulnerabilidade como espaço que viabiliza a criatividade (e todos os sentimentos bons que existem no mundo) e a criatividade como espaço onde nascem todas as soluções das questões humanas,  a confiança decomposta em vários pontos, que podem ser foco de atenção quando as relações se fragilizam…

E esses pensamentos, com um nó ou dois na garganta, me fizeram passar o dia. Objetivos pessoais que são bem mais fáceis de teorizar do que executar, mesmo porque não são assim pensamentos muito surpreendentes, mas apenas um teorizar mezzo-acadêmico mezzo calabresa sobre a natureza humana.  Mas enquanto eu pensava nisso, ela solta dois pensamentos que me fazem ver que eu não estou lá ainda, então obviamente pra mim é mais fácil só teorizar…

Pra mim, a quem colocar limites para os outros é sempre um sacrifício, e estou sempre muito preocupada com não confrontar o outro dizendo “até aqui ok, a partir daqui não” (o que andei fazendo algumas vezes ultimamente, e considerei melhoria dessa nova estratégia de cuidar de mim, ou coincidência, vai saber?), e que tenho dificuldade de me livrar dessa exasperação com o outro (gente suks, não gosto de gente, fulano só pode estar de sacanagem com a minha cara, será que faz isso só pra me irritar?) e gero essa energia horrorosa (quantidade e qualidade) com esse desgaste das relações, vem o quote:

“Acredito que todas as pessoas estão fazendo o melhor que  elas podem. Mesmo as pessoas que cometem erros, e as pessoas que envergonham as pessoas que cometem erros, todos estão fazendo o melhor que elas podem. Então minha pergunta se torna: que limites devem ser colocados para que eu mantenha minha integridade e seja generosa com minhas suposições sobre as pessoas.” (Brené Brown)

Ela conta um caso de um casal que fazia caridade mas que tinha muito incomodo que  o alvo da ajuda sempre recaia em algum erro ou vício, e que os exasperava porque estavam presos naquela circunstância. Quando o casal foi confrontado com a pergunta acima partindo da premissa de que eles tivessem certeza que a família ajudada estava fazendo o melhor que podia, concluiu que só havia duas alternativas de forma a manter a integridade e se permitir ser generoso na suposição sobre o outro: seguir ajudando sem julgar, ou parar de ajudar. Esse era o limite.   O limite pode envolver cortar relações. Ou criar novas.  Estabelecer novas regras negociadas. Ou impostas. Mas em todos os casos, envolvia reduzir o sofrimento de quem julga. A exasperação. A irritação. O hábito de tomar como pessoal…

E sobre a valiosa lição sobre nossa natureza de conjecturar sempre que algo negativo ocorre, ela diz que é interessante escrever essas histórias conjecturadas, se tornar donos delas, ver o que ela diz sobre si mesmos, o que parece ser verdade, o que ao ser relido se mostra inconsistente e o que precisa ser averiguado. E, inclusive pra conceder o benefício da dúvida ao outro (benefício que faz parte dos elementos da confiança), checar com o outro sobre a o evento que gerou a impressão (Alguém que nos olhou de cara feia, ou pareceu desconsiderar uma opinião dada, ou faltou a um compromisso, ou esqueceu uma data importante.).

Na hora que ouvi isso na entrevista eu me retraí. Imagina. Não confronto ninguém. Tenho dificuldade monstruosa de confrontar as pessoas da minha short list (gente que devo me importar com a opinião, porque me amam não apesar mas por causa da minha vulnerabilidade), que dirá pessoas em geral. Vai que entendi errado mesmo?  Vai que rola um gasslight?  Vai que magoo o cidadão? Vai que chamo a atenção para algo que não existia e agora que falei passa a existir? Vai que tô dando, pra variar, uma de louca?
E é quando uma senhora na plateia levanta essa mesma questão: como lidar com o medo / incômodo de confrontar o outro?

Depois de explicar que algumas histórias se desconstroem por si mesmas só de escrevermos ela sem filtro e relermos, e que se não há intimidade com a pessoa, dificilmente compensará o momento de vulnerabilidade de ir checar, ela conclui:

“Nós nunca devemos compartilhar essas dificuldades (suposições e percepções negativas nascidas em falhas de comunicação e na nossa vulnerabilidade) com pessoas até que a nossa cura não dependa de como essas pessoas irão reagir” (Brené Brown)

E eu fiquei esse misto de esperançosa e ansiosa, por um dia em que essas feridas não dependam de ninguém além de mim para serem fechadas. E se abrirá essa janela de diálogo com todos os outros, onde eu estarei ao mesmo tempo vulnerável e segura.

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