Cotidiano · Palavra que cura · Pensamentos Aleatórios

Das palavras que curam

E como sempre, não dei continuidade ao plano da vez, que foram as resenhas.

Mas a bem da verdade eu gosto de escrever, e sempre me faz falta.  Em alguns momentos mais que em outros.

Meu pai faleceu tem um mês e meio e para além da tristeza absurda de uma perda dessas, a partida dele quebrou algumas coisas dentro de mim. Já estive quebrada antes, de formas diferentes, e o caminho para colar os pedacinhos varia dependendo do quanto foi quebrado, mas de modo geral envolve ou deveria envolver as mesmas coisas.  Uma delas é esse processo de olhar pra dentro, ouvir a gente, registrar o que ouve, aprender com a dor.

Como sempre, processos de cura envolvem dias ruins e dias não tão ruins, antes de chegar no ponto dos dias bons e dias não tão bons. Num dia desses pra trás, dia especialmente ruim, o irmão de outra mãe/pai que eu tenho disse: escreve.  Ia retrucar que diferente de anos atras quando escrever fez parte da cura e eu tinha tempo pra isso, eu não tinha mais. Mas tempo é o nome dessa desculpa que a gente dá pra tudo que a gente não deixa caber… E muitas vezes, não é questão de escolha.

Só essa semana escrevi 3 texticulos, joguei no FB, eles precisavam sair. Um era mais particular que outros, um estava mais pra crônica do cotidiano engraçadinha,  mas todos eles eram essa coisa de tentativa de dar sentido, força que rasga a sua garganta de dentro pra fora, precisam da luz do dia, do olho do outro, do seu olho relendo com alteridade o que era dor e agora é dor diluída na palavra.

Mas ali eles me fogem muito rápido, com o passar dos posts, dos compartilhamentos, dos dias… E lembrei desse espaço que já serviu pra tanta coisa, e estava aqui sem ser usado.

Corre, como sempre corre, o risco de ficar só nesse post aqui, copiando os tais escritos dos últimos dias.  Pode fazer parte desse caminho que eu tenho que seguir. Sei lá. Não preciso saber. Não agora pelo menos… Então vou só copiar aqui e ver o que acontece!

Texto de 03/10/2016
A pessoa sentiu sono 19hs e foi dormir. Ai acordou e sei lá porque resolveu que no dia que ela fatalmente estaria 13 horas sem comer era um bom dia pra fazer exame de sangue. Ai saltou na Praça e viu que algo tinha acontecido no Shopping 45… Mó muvuca e cheiro de fumaça. Não ficou pra saber o que aconteceu, até porque se não podia entrar não fazia a menor diferença a razão. (Fogo no segundo andar. Quem tem amigo não morre curioso…) Não era pra ser, né?
Ai pegou o Metrô. Chegou a olhar pro caso de saltar em outra estação se ainda compensava ir no laboratório da Ouvidor… Ia andar mais do que se tivesse sido de ônibus, então desistiu de vez.
Ficou lá, perdida em mil pensamentos e quando vê, perdeu a estação… OPA. Agora meio que o destino escolheu por ela. Vai lá fazer o exame, pombas!
Salta na uruguaiana e vai andando… Chega lá e putz, qual o andar? Internet rateando, lá vai ela ter que interagir com gente… Injejum e com sono, o “bom dia, moço, que andar é o bronstein” saiu sofrido… Entra no elavador, com sono, já disse? Porque dormiu 11 horas mas ainda tá bêbada de sono… E quem disse que consegue enxergar o 5? Ai coloca o óculos e aperta o 5 quando o elavador já tá no 6. Tá tudo bem minha gente, quem não gosta de passear no elevador?
Salta no 5, e laboratório tá vazio. UHU… Era pra ser!
Começa a tirar as coisas da bolsa e a menina já a chama. Entrega pedido de exame, entrega carteira do plano e entrega… e…e…e… só isso, porque acaba de descobrir que quando foi justificar o voto na véspera, passou só os documentos pra outra bolsa e na outra bolsa eles ficaram… Ou ao menos assim espera.
A atendente está digitando os pedidos e ela, meio exasperada, diz:
– Então… eu esqueci minha identidade… eu sei o número e tudo, mas não tá aqui. Será que você pode quebrar meu galho e me deixar fazer, estou já tem uma vida sem comer e …
Silêncio. A menina mal pisca e continua digitando. Sem resposta, ela não sabe se está perdendo tempo ou ganhando terreno. Continua procurando por desencargo, já dá pra sentir a lágrima de raiva surgindo no canto do olho…
– A gente não permite isso não. – Diz a menina sem nem levantar os olhos – Mas hoje eu vou deixar.
Ah, a maravilha dos pequenos tiranos de bom humor.
Senta pra esperar ser chamada, atende uma ligação, ouve seu nome, corre para ser espetada.
Mal senta, estica o braço e lá vem a técnica:
– Senhora, preciso da sua identidade.
O ar fica pesado. Só tinha passado da primeira base, e tava crente que tinha ganho o jogo. Oi? Como assim? Identidade? E senta que lá vem história. A técnica com tubos de ensaio na mão, diferente da primeira atendente, a olha nos olhos por toda a narrativa. Nem pisca. E como a primeira atendente, não responde. O silêncio constrangedor da dúvida rompido pelo ronco do estômago 14 horas sem comer…
– Data de nascimento por favor…
Enquanto é espetada lembra que essa é uma fobia que foi superada, que alias, até ali, podia enumerar umas 10 superações históricas dignas de anotar no caderninho: ” Querido diário, hoje eu parei de protelar, fui lá cuidar de mim, não me entupi de bobagem no café da manhã como indulgências de luto, não desisti na primeira dificuldade, não preparei o cenário com antecedência, falei com gente, alias, tentei convencer gente a me ajudar, não surtei quando vi que tinha esquecido algo, e ganhei, de presente, uma agulha tirando 3 tubos de sangue na minha veia. ”
Tá favorável. Isso e o queijo quente frio pela bagatela de 7 caríssimos golpinhos prometem ser o melhor do dia. Já estamos no lucro.

Texto de 04/10/2016
Passei o dia melancólica. Fiquei achando que era uma palavra muito forte mas era essa sensação. Esse aperto no peito, essa tristeza difusa, essa desolação. Doeu mais quando fui amada. A cada manifestação de afeto essa vontade de desaguar, esparramar ou encolher. E essa intuição de que se me deixasse ir, não ficaria em pé de novo. Não hoje pelo menos.
No mais vesti um certo embotamento, uma anestesia forçada, as vezes um riso meio histérico,não forçado, mas forçado. Explico, não falso, mas obrigado, necessário, sem o qual a fachada desmonta.
Quando coloquei a foto combo dia das crianças e outubro rosa, eu e o Pai, foi um aperto tão grande no peito, uma falta que não pode ser preenchida. A sensação de melancolia aumentou.
Fiquei entediada da minha própria dor, e fui olhar o que já não me diz respeito, e que não vejo por alguma razão. Eu não me escuto! Eu devia me escutar. Mas era curiosidade mórbita que as vezes me assola, mas é dado: não decepciona. Mas não me causou quase nada: meu ódio iria sobrar onde ele já transbordava. E eu já tinha começado o dia citando: Odiar é facil. Amar é que requer coragem.
Repeti por várias vezes que a única coisa boa de ser adulta é comer a sobremesa antes do almoço / janta. E briguei com meu spam reduzido de atenção. E ainda assim me assustei de repente em ver que o trabalho estava todo em dia, aguardando dados que ainda não chegaram, mas que até aquele ponto eu tinha feito de conta tão bem de que eu era uma adulta funcional que até de fato o tinha sido.
Olhei os resultados do exame e dei uma surtada básica. Perdi o prumo. Usei a memória física e o automático pra voltar pra casa.
Me joguei na cama. Tentei fechar mentalmente o dia para que amanhã possa ser outro. Para não arrasta-lo comigo, fantasmas e suas correntes.
Há dias e há dias.
Quase nenhum é fácil. Nem todos são sequer suportáveis. Mas é só uma questão de passar por eles. Um dia de cada vez. Só por hoje. Só por hoje…

Texto de 05/10/2016
Saudade de jabuticaba. De grama. De amigo. De pai. De feira. De livro em francês. De bolo confeitado. De latido de cachorro. De aprendizado. De sono. De cerveja. De leveza. De sonho. De mão dada. De fé. De vinho. De pão. De riso. De dado. De brigadeiro confeitado. De céu estrelado. De tudo que foi. De tudo. De antes. De antes mesmo de haver um antes.
Tem dia que todo espaço é de saudade e entre uma e outra, a gente respira e segue.

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