Sobre o tal do fundo do poço – parte I – ladeira abaixo

O assunto era fundo do poço. Eu tenho um bando de teorias estranhas sobre esse tal fundo do poço. E comecei a rascunhar algo… que poderia virar uma série de posts sobre como diabos a gente chega no tal fundo do poço, e o mais importante, como sai. Talvez morra num post só, talvez não. Mas enfim, dizem que ladeira abaixo todo santo ajuda. Ao que parece, todo demônio também. 

seja como for, sem mais delongas: 

Sobre o tal do fundo do poço – parte I – ladeira abaixo

Eu não sei da vida de outras pessoas. Sei da de alguns amigos, mais próximos, e o quando eles deixam saber. Ou eu consigo inferir. E sei da minha, fora tudo que denego, fora tudo que esqueço. Então eu não sei quantas pessoas já estiveram em lugares dentro de si dos quais podiam jurar que não conseguiriam sair. Lugares ruins. O tal do fundo do poço. Onde só habita o escuro. E a tal da desolação, que é essa falta de tudo e qualquer coisa – amor, fé, esperança. 
Eu não tinha estado. Até estar. 

Tinha a impressão que o fundo do poço é um lugar onde você caia. Onde de repente você caia. Você brincava na borda e puft. Tropeçava e caia. Parecia simples: é só não brincar na borda.

Então estive em muitos lugares tristes dentro de mim. Mas lugar triste não é o fundo do poço. Lugar triste é só isso, parte da vida, um dia triste. Estive em muitos lugares tristes que se repetiam. Estive em muitos lugares tristes que se encadeavam de um em outro em outro em um lugar ainda mais triste. Estive dentro de mim em uma morada triste. Eu era triste.

E é quando vem a epifania. O fundo do poço não é um lugar onde você cai. O fundo do poço é um lugar pra onde você desce. Todos os dias. Um passo depois do outro. Um caminho interminável de escadas em espirais e cordas tortas que se enroscam e te descem. O fundo do poço é uma escolha que a gente faz sem ver, se compromete sem querer, aceita sem notar, e segue.

De vem em quando a gente percebe algo estranho. A gente nota que não tá legal. ‘Dá seu jeito’. Sobe um degrau. Mas é tudo tão escuro que eventualmente você continua descendo, achando que está subindo, dizendo pra si que é só não brincar na borda. Que você está bem.

 

Aí você tropeça. Ou alguém te empurra. As vezes os dois. A escada some. A corda sobe. Você bate de cabeça no chão duro. Até se espanta, como assim não morri. Eu cai no fundo do poço, você diz. Eu caí e não morri. 

Não morreu porque caiu de pouco. Dói. E muito. Mas caiu de pouco. Caiu de dois lances de escada, num tropeção ridículo ou num empurrão traiçoeiro. Mas todo o resto do tempo você desceu sozinho ou acompanhado, mas desceu com as suas pernas.  Mas desceu por que (‘não’) quis.  Ou não desceu porque quis, mas sob medo e ameaça . De qualquer forma, desceu.

Nunca conheci ninguém que estivesse fora do poço, brincasse na beirada, caísse nele e não morresse.  Essas quedas, de tão alto, são via de regra fatais. Se a gente tem uma história de sobrevivente, é porque de alguma forma foi descendo… Eventualmente com uma arma na cabeça, coagida, ou por uma história de constantes tropeços e pequenos empurrões. Eventualmente por conta própria, mera distração e a estranha fé de que coisas ruins acontecem com o coleguinha, não com a gente, e que estamos bem, seguros, protegidos (ainda que inadvertidamente ladeira abaixo…).

E uma vez no fundo do poço, o caminho é subida. O que por si só tem seus percalços, que as pessoas imaginam, mas só quem já bateu no fundo, sabe como é complicado o caminho de volta.  E como de quando em quando dá vontade de sentar-se por ali e ali ficar. Ali, onde quem está abandonou todas as esperanças, nos dá o falso e triste consolo de nenhum risco a mais. Dalí, enrolados no chão, não podemos mais cair. 

E isso, que nos paralisa, também nos coloca em movimento. Onde parecia que nada mais havia, nada além da imensidão escura do grande nada, habita a certeza de  que uma vez no fundo, só dá pra ou ficar lá embaixo ou subir. Como? É outra história. E outro post.

 

 

 

Um comentário sobre “Sobre o tal do fundo do poço – parte I – ladeira abaixo

  1. Oi, Adriana.

    Apenas hoje encontrei voceh e foi por causa da tireoide. Nao encontro nada seu depois de julho do ano passado. Gostaria de saber por onde voceh anda, onde escreve.
    Grande 2015!

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