Movimento B.O. nunca mais

De volta. Comida comprada. Muita fome. Nenhum apetite. E provavelmente não em sã consciência, mas no mais perto possível de um juízo perfeito (ou seria o contrário?) declaro que, me dada a escolha, preferia fazer canal em todos os meus dentes do que mais um B.O. nessa existência.

Para começar, não quero mais ter motivo para fazê-los. Ainda sou um desvio estatístico, e sei que podia ter sido tão pior quando é possível imaginar. E eu sou um ser criativo de imaginação delirante. E ainda assim, ignoro.  Um esbarrão intencional ou uma surra, são igualmente violência.  Um furto ou um roubo. Um tapa ou um tiro.  Quantificar violência é estúpido. Faz sentido na priorização de atendimento, não na priorização da importância. Violência é sempre igualmente violência, deixando marca visível ou não, seja essa marca física ou simbólica.

E simplesmente não quero fazer B.O.  Enquanto tamborilava meus dedos no balcão, tentando dar ordem ao maremoto de T4 e adrenalina, estive muito perto de dizer ao escriturário (ou o que quer que aquele homem fosse) que minha calcinha era lilás, meu soutien branco, e que eu não lembrava de cabeça da minha DuM, mas que assim como outras coisas perguntadas (e não colocadas no B.O) tinham relevância zero com a violência sofrida.

A conversa paralela com o colega do lado, os telefonemas dados que poderiam esperar, a forma como descartava com desprezo quem veio ali fazer B.O. de coisas que precisam ser feitos em outra DP, enfim, tudo ali exalava “funcionário público dando plantão no ponto facultativo”.  Ou não. Exalava ser humano que não devia estar ali… qualquer dia, qualquer hora.

Todo mundo que trabalha com público devia saber acolher. Todo mundo que trabalha com público fragilizado, e é assim na área médica, na advocacia, na área policial, entre algumas outras, devia ser obrigado a saber acolher. Não precisa chorar junto não… só saber acolher.

Eu entendo que é preciso anestesia local pra trabalhar em certas áreas. Eu mesma passei o fim de semana levantando dados de casos que em outros tempos me fariam entrar em depressão e chorar rios por pura empatia e solidariedade, o que não seria saudável, nem proveitoso. Mas em respeito ao cliente, aos profissionais envolvidos, à organização onde eu trabalho e a minha sanidade mental, foram tratadas de forma pragmática, porém respeitosa. Se fosse ao vivo, teria olho no olho, segurar na mão, me mostrar humana e solidária. Não desmereci a dor. Não quantifiquei a perda. Não banalizei a vida.

Nem queria tanto. Foi só (só , já disse, é complicado…) um furto. Mas queria atenção ao invés de interromper o trabalho o tempo todo pra ser blasé com alguém, queria menos cara de desprezo, queria só que fizesse o trabalho direito, que por não achar meu cargo nem minha formação acadêmica, não tivesse me colocado como pedagoga; queria que não dissesse no texto que o telefone é da empresa, mas no cabeçalho que o telefone era meu, queria que não tivesse dito que foi num área quando eu disse claramente “um ponto depois da tal área”, queria que não tivesse me entregue o papel, uma hora e tal depois deu chegar, com cara de desprezo quando eu perguntei é só isso… Queria que tivesse feito o serviço dele sem me fazer me sentir mais estúpida de estar ali, parada, relatando algo da qual fui vítima… Não queria peninha de mim não. Juro, eu só queria um profissional e a sensação de que aquilo, eu parada ali em pé, por mais um hora, tinha alguma serventia no fluir do universo, que não perder meu tempo, e o dele…

Preferia, mil vezes meu tratamento de canal. Porque minha dentista me acolhe. Olha no meu olho.  Pergunta se eu estou bem. Segura na minha mão se eu precisar.  Prefiro até injeção no olho se for nessas condições.  Mas B.O. na 4ª DP? Universo, please, nunca mais.

PS: E porque ainda há muitas formas dessa segunda feira piorar, sem farelo de aveia nas Casas Pedro, sem Cacau em Pó na minha dispensa e minha conta bancária mergulhada no mais profundo vermelho.

PS2: ainda decidindo se isso é o universo se equilibrando porque eu estava muito feliz ontem, ou me punindo por bom humor numa segunda.  De um jeito ou de outro, missão cumprida.

 

2 comentários sobre “Movimento B.O. nunca mais

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