Crônicas do Cotidiano

Nem só de Zumbi vive o apocalipse

Terça é dia de jogo. tipo. Deveria ser.

É dia de aventura, pelo menos.

Tô lá no escritório no suspense de toda terça: e aí, tem jogo?

Deu uma. deu duas. deu três. deu quatro. É provável. De provável, sabe como é, provável é sabe-se lá. Sai a última alma (que eu não tenho mais dessas coisas) 4:15 me aconselhando: Vê se não vai tarde hoje. Fica ai sozinha até tarde todo dia, eu heim…

Eu cá penso que só há duas escolhas: sair bem cedo, em tempo de encontrar a amiga antes do compromisso dela, ou bem tarde, e ainda assim chegar muito cedo pro jogo. 4:30 fecho tudo, desligo o computador e lá vou eu.

Rapidinho chego na amiga, e na ausência de disposição para subir 5 andares, sento no banco na portaria e fico aguardando, depois de anunciar minha auspiciosa presença. Desce um cidadão e começa a me encarar de cara feia. Aprendi que cara feia pra mim é fome. Ou marido. Não era marido. Devia ser fome.

Resolvo explicar: – Esperando a coleguinha. Eu falo com uma voz que saiu meio infantil.
Acho que ele não esperava uma explicação. Ou essa explicação. Continuou de cara feia mas parou de encarar. Nem todo mundo encara louco confesso de boa.

Ai a amiga desce e eu a acompanho pro… balet. Não pergunta, eu desisti de perguntar faz tempo. E também não contrario. Ballet, hidroginástica, boxe, o que quer que a faça feliz! Chegamos cedo e ficamos lá fora conversando. Zilhões de menininhas de saiote cor de rosa passam pra lá e pra cá e eu fico imaginando a amiga de tutu rosinha esvoaçante. Contanto que não me colocasse em um, tava valendo.

Longa história curta, disseram que a aula seria em 15 minutos. Depois ainda estavam repassando ensaio. E por fim nada de aula. Veja bem, eu já tinha desistido das minhas idéias de filmar e colocar no youtube ou ameaçar colocar e ganhar uma grana. Mas dá uma encarada nos meus amigos: nenhum deles tem pretensão de cargo público, e se tiverem, sabem que terão que vencer apesar de… O que te de merda deles na internet não tá escrito. Logo, mais uma, menos uma…

Em algum momento no meio da espera, liga o filho pra dizer que o compromisso dele furou, pode ir jogar, mas tá completamente sem dinheiro. Nem todas as culpas judaico cristãs de se achar cordeiro de deus que expia os pecados do mundo e portanto, que marmanjo desorganizado merece mais que o comentário “que triste, foi mal aí” fazem aparecer dinheiro no bolso dos outros, então, fiquei lá remoendo soluções inexistentes…

Frente a ventania e o medo da amiga desistir de ir matar zumbi, mando um SMS: E aí, rola jogo?
– rola. 19:30

Eram 18 e algo. Ventava muito. Resolvemos que ir tomar um sorvete no Largo do Machado era melhor que ver se gordo voa na tijuca… Até porque eu já tentei antes: não voa.

Chegando no Largo do Machado, amiga roxa de fome, em dieta glutem free, tá lá no maior dilema existencial e resolve jantar. Eu de olho no provável sushi de mais tarde, passo. Fico só lá sentada, bebendo uma água com gás, ainda pensando como fazer filho durango no Grajaú se materializar no Largo do Machado… E toca o telefone:

– E aí recebeu meu SMS?
– O que tem jogo? Recebi e respondi
– Não… tô num engarrafamento. Não vou chegar em tempo.

Respira Adriana. Ok, nem foi tempo perdido, somos tão jovens…. opss, não, música errada. Nem foi tempo perdido, a gente pode imaginar assim: levei a amiga pra jantar. Só ela comeu. E ela vai pagar. Mas e ai? Tempos modernos exigem relacionamentos modernos!

Pra não perder a viagem, depois de avisar os amigos (Culpa Judaico Cristã… não ia deixar todos chegarem no Largo do Machado pra depois dizer que não ia ter jogo!) fui tomar um sorvete de yogurte, com calda de chocolate e pedaços de marshmallow. Eu merecia.

Estamos lá dentro da loja de yogurte quando vem um sujeito: Dentro ou fora? Dentro ou fora?

Oi? Calma lá cidadão. Paga pelo menos a cerveja antes, né?

– Dentro ou fora da loja? Tá vindo a passeata. Vou fechar!

Oi oi oi! É hora de black block, que hora tão feliz. As últimas narrativas da passagem desse pessoal pelas Laranjeiras não foram assim, fofas. Como ainda estavamos pagando pelo sorvete e pensando que não seria correto sair correndo gritando “foda-se o capitalismo, queremos yogurte gratis”, ficamos dentro.

Sentamos pra tomar o sorvete mas dava pra cortar a tensão o lugar com faca. Eu ria. Cara, no mínimo seria XP extra, com direito a diário e perda de fear. Meu TOC pra essas coisas é leve, principalmente se tiver companhia. De qualquer forma, como seriamos expulsas em breve, com os funcionários se arrumando pra sair, tomamos os sorvetes rapidamente fomos embora.

Decisão acertada. Quer dizer, quando saimos, tudo na paz do senhor, fomos lá, reclamando que eram um bando de alarmistas, afinal, tava tudo calmo. Ponderei que o Santander bem sabia que calmo é um conceito transitório e efêmero. E fomos rindo, comentando que o alvo revolucionário do dia poderia ser Yogurtes ou filmes americanos (já que a loja também era uma videolocadora) e era mesmo melhor não dar chance pro azar. Virando a esquina, uma quadra e pouco de distância, lá estava, a Turba. De preto, faziam uma estranha onda raivosa ao longe, gritos ininteligíveis. Parei para olhar. Muitas lembranças. Muitos pensamentos. A maioria datados de quando eu ainda achava que a raça humana valia o investimento…

No Largo do Machado em si estava o choque. Que bom que não tenho cara de terrorista. De mochila pesada, chego bem perto, pra ve-los em formação… meu meio segundo de confrontação imaginária e silenciosa. Também pra tirar foto da amiga perto do mictório. Não pergunta. Já aprendi que é sempre melhor não perguntar.

Descemos e em fila indiana, quase corredor polonês, entramos no metrô semi fechado. Ainda falávamos do batalhão de choque, dos manifestantes, do yogurte e do correndo polonês pra entrar no metrô quando veio um trem. Entramos.

Descobri que a amiga não senta nos bancos laranjas. Mesmo se não tiver idoso ou grávida pra sentar… cada um com seu cada um, foi mal aí, eu sento. Ela em pé e eu sentada, fomos conversando.

Uma ou duas estações depois o trem cruzou com um dos novos, que a amiga não tinha visto ainda. Acostumada a pegar só a linha um, não tinha tido a oportunidade. Eu mesma pegara poucos. Expliquei pra ela como era os vagões e que só circulavam na linha 2 e como ela nunca pegava linha 2 porque não servia nunca pra ela… Notei que teve quem me olhasse estranho. É… bem, a gente se acostuma a isso quando não almeja a normalidade. Mal sabia eu.

Algumas estações depois começamos a ver a paisagem externa. Pois é. PAISAGEM. externa. Opss… acho que pegamos o trem errado

Gargalhando muito, saltamos na primeira estação que permitisse baldeação e voltamos pra Central do Brasil.

Lá lamentei não ter dinheiro invisível para comprar o único refrigerante que qualquer nutricionista recomenda (!!!) e fomos esperar o metrô…

O primeiro que passou, Clive Barker escreveu sobre ele. Sem dúvida. Ainda assim eu queria ter entrado nele pelo XP extra, e aparentemente, não era a única. As pessoas se apinhavam esperando abrir as portas de um trem que não dizia pra onde ia nem de onde  vinha e que tinha um único vagão com luzes acesas.

O seguinte, cheio, ia pra Tijuca. Dupla olhada pra se certificar, mas pele jeito que estava cheio, mesmo aquela hora da noite, só podia ser o nosso.

Na porta, um senhorzinho ostentava a gravata com todas as cores do arco-iris. O que, meu deus, leva um ser humano a sair de casa com uma gravata daquelas? Que desilusões? Que tristezas? Sei lá, mas tinhamos que registrar. Se turista argentino na JMJ pode tirar foto de si mesma no metrô, nós também podemos, e lá se foi, foto do tiozinho da gravata colorida com a gente na frente, fora do foco, como bem devia ser.

Finalmente vaga lugar, amiga corre pra sentar e eu pergunto: já se tocou que tu salta na próxima estação? Pois é… Nos despedimos e eu sigo, ouvindo o som entrecortado do meu deezer que resolveu parar funcionar no meu celular.

Salto no Grajaú. Venta muito. E eu confirmo. Gordo não voa no vento.

Acho que esse, além de chegar em casa e encontrar adolescentes famintos sujadores de louça (e ir lavar louça) foi o fim da minha aventura. Reza a lenda que a amiga ainda levou cantada do trocador da van.

Tá pensando o quê? Nem só de Zumbi vive o apocalipse. Ou seria nem só de apocalipse vive o zumbi?

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