Sobre feriados municipais e linhas tortas (ou estudos teológicos sobre nossos fardos)

As melhores divagações filosóficas normalmente começam no banal. Naquele evento cotidiano, no comentário aleatório… se é que algo é aleatório no fim das contas.

Longe de ser atéia, sou agnóstica por puro exercício de humildade, o que não me impede de elocubrar aqui ou ali sobre os mistérios da (minha falta de) fé.

Costumava dizer pros meus alunos de filosofia (é, em outra vida eu dei aula. Em outra vida que não essa, mesmo que essa seja) que se deus existe ou não eu não sabia, mas religião tinha início histórico, data de criação, motivo e intenção. Mecanismos de controle de massa e escape para aplacar nossos medos, todo pensamento religioso é uma construção humana, reflexo de nossa histórica prepotência de saber mais do que de fato sabemos e sermos melhores, mais ricos, mais bonito e com o pau maior do que o do coleguinha do lado. Deus nos disse, em pessoa, a nós ou ao antepassado do antepassado do cara que escreveu as regrinhas da religião que escolhemos como verdade. A palavra de deus. Quem disse? Deus? Mas você ouviu?

É preciso ter fé… eles nos dizem. Fé.

Mas fé é um exercício de desprendimento e confiança, e não um atestado de completo abandono da lógica. Fé é talvez aceitar a possibilidade do intangível e do improvável, mas não professar como verdade o impossível, mesmo que a definição de impossível seja, per si, um arroubo de nossa arrogância.

Mas então, meu exercício de humildade é ser agnóstica. Tudo o que há e tudo o que não há nesse mesmo maravilhoso baú de possibilidades. Alma aberta para todas as teorias da existência, da não existência, da desistência.

Mais por diletantismo que por intenção de resposta, toda consideração teológica que já fiz nessa vida foi um mero desfiar de contas de retórica, exercício intelectual de abstração e, porque não confessar, tentativa de encontrar ordem e conforto no caos, na entropia, no escuro, no desconhecido.

Hoje, remoendo angústias já há dias e digerindo minhas questões pessoais, e em torno de um feriado municipal, um fim de pacote de serviços, a constatação da realidade da minha completa falta de controle ou ingerência sobre o alheio e essa tal dor difusa porém bastante justificada, vieram reflexões concatenadas, parte desse meu sistema cosmo-teológico mutante por definição, afinal, no dia que ele parar de mutar, terei criado a minha própria religião.

Disse então eu hoje em contextos diferentes mas intercambiáveis, que ao nascer já começávamos a morrer, cabendo então apenas, aproveitar a jornada. Ja que em si mesmo tudo o mais ganhava contornos de inutilidade por ser passageiro, e o fim, inexorável, estava já desde o princípio, dado.

Disse também que rezava a lenda que a cada um era dado apenas aquilo que seria capaz de carregar.

E por fim, remontando conversa de ontem, disse que o que me incomodava no discurso do deus escreve certo por linhas tortas era que… ah, era praticamente tudo: um pensamento mágico que envolvia um deus que tudo sabia e em tudo intervia , e que havia me colocado no exato lugar onde eu deveria estar nem que  que fosse as custas de sofrimento atroz e privação completa, para que no fim, tudo terminasse bem. Pra mim e meus pequenos dilemas proto burgueses e pras crianças mortas na Síria com armas químicas… Estranho, muito estranho esse seu deus e seu  conceito torpe de tudo ficará bem.

Veja, apesar de gostar da ideia quase reconfortante (mesmo para minha ‘pequena-mesquinhez’ de querer para agora e não para a viagem) de ser uma alma que habita um corpo,  passageira nesse meio de transporte feito em carne que me leva de um ontem para um amanhã, não sei bem se acredito em karma e reencarnação. Mas como parte das lições de humildade, a possibilidade não me é estranha.

Pois bem, nessa linha, amigo me corrigiu: não há garantia alguma de que tudo vá ficar bem. A gente bem sabe que em dadas histórias, bem não é nem de longe um conceito aplicável.  E o fardo não é o que você aguenta, mas aquele que você precisa carregar.  Se vira aí, sai do outro lado, como não é um problema meu, do universo ou deus.

Nesse trajeto entre o que fomos e o que viremos a ser, ou mesmo para além disso,  causa e efeito não são imediatamente lineares,  a justiça tarda, embora o universo conspire não há um deus que intervenha e definitivamente, não rola quid pro quó . O que há, para o bem ou para o mal, é a garantia do aprendizado.

Aproveite a viagem. Não posso lhe garantir que como diz a letra  que “in the end it’s right”.  Mas definitivamente temos muito o que aprender.

Another turning point
A fork stuck in the road

Time grabs you by the wrist
Directs you where to go

So make the best of this test
And don’t ask why

It’s not a question
But a lesson learned in time

It’s something unpredictable
But in the end it’s right
I hope you had the time of your life

So take the photographs
And still frames in your mind

Hang it on a shelf
Of good health and good time

Tattoos of memories
And dead skin on trial

For what it’s worth
It was worth all the while

It’s something unpredictable
But in the end it’s right
I hope you had the time of your life

(Good Riddance / Green Day)

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