A JMJ, a Marcha das Vadias e os Movimentos Sociais. No dos outros é sempre refresco…

Então…

Eu disse que não ia me alongar nos meus questionamentos sobre essa juventude que grita que aqui está a juventude livre… e que não ia assistir ao MidiaNinja hoje, ou discutir política. Bom, eu devia aprender a não fazer essas falsas promesas!

Liberdade e democracia. Conceitos engraçados. Símbolos. Ideais.

Democracia por exemplo é um modelo político em que o poder emana no povo. Mas povo é quem exatamente? Eu sou povo. O meu vizinho de cara amarrada é povo. O assaltante que deu um soco na minha colega de trabalho semana passada é povo. a presidente da república é povo… A maioria, Adriana. Então perai, e se a maioria for branca, católica, heterossexual, de classe média pra cima e… A democracia prevê que os direitos das minorias sejam respeitados. Mas que direitos? Respeitados como? E se eles colapsarem os direitos da maioria? Qual o critério de maioria? E uma vez decidido, pela maioria, o que cabe à minoria?  Democracia é um conceito complexo para caramba, onde se respeitam (ou deveriam respeitar) os direitos individuais e, sem deixar isso de lado, se governa em nome de uma maioria.  Então você sempre pode e deve reivindicar um direito, mas pra isso é preciso compreender o que é um direito seu, pra não ir pagar mico chorando por uma vontade que a maioria não concordou…

Liberdade é, entre outras definições possíveis, a ausência de submissão e pressupõe independência. Liberdade regada a leite de pera e ovomaltine trazido na bandeja não é bem liberdade. É mimo de mamãe.

Liberdade não pressupõe imposição dessa suposta liberdade sobre outrem. É livre quem quer. E quem pode. E obviamente depende do que se define como ausência de submissão. É possível ser livre tendo-se um patrão? E é possível ser livre se tendo um deus? É possível ser livre numa relação monogâmica de exclusividade? Ou é possível ser livre dentro da casa de pai e mãe? Haverá sempre algum tipo de limitador externo, seja um deus ou um presidente, uma mãe ou um patrão.  E esse limitador visará sempre o bem do outro, o melhor funcionamento do Estado, da firma ou da casa. Haverão sempre leis, divinas ou dos homens, para cercear comportamentos em prol de um coletivo, de um bem maior ou da melhor convivência dos pares. É possível ser livre assim ou liberdade pressupõe organizações não hierárquicas por definição, sempre auto-reguladas?

Se definirmos Liberdade como agir dentro do seu próprio ser, isto é, de acordo com suas convicções  pensa só que o sujeito lá preso em uma relação de submissão pode se sentir ultra livre… e você, lindo leve e solto, não ter essa mesma sensação de liberdade.

Mas definitivamente a definição de liberdade não passa por “fazer o que se quer” no sentido estrito do termo, porque senão ela seria inviável, na medida que se você quer fazer algo que envolve uma segunda pessoa, você não poderá fazê-lo exceto se essa pessoa desejar…

Exceto se você desejar liberdade só pra si. Liberdade para VOCÊ fazer o que você quer.
E Exceto se você achar que democracia é pra quando você for a maioria que decide ou a minoria que é agraciada com um privilégio. De preferenciaria ambos, apesar da dicotomia que a questão envolve.

Rio de Janeiro foi sede da JMJ. Um bando de estrangeiro católico, em idade de procriar, numa imensa colônia de férias que carecia de estrutura, e torraram meu saco até não poder mais. Xinguei muito no twitter, digo, no Facebook. Mas lado a lado com eles, quando me foi necessário, sorri, disse tks, tentei dar instruções, agi com a civilidade que me era requisitada. A presença deles não era bem vinda, mas em si, eles não tinham nada haver com isso.

Rio de Janeiro tem sido sede dos protestos do 0,20 que viraram de tudo um pouco e agora acho que é um protesto antiviolência da PM, por sua desmilitarização e abaixo Sérgio Cabral, ditador (mas heim?) ou qualquer coisa assim. Muda tanto, juro que fica difícil acompanhar.

Rio de Janeiro já tem nos últimos 3 anos aderido ao movimento internacional chamado Marcha das Vadias, cujo nome é uma ironia explicita e uma provocação, que apesar de ser discutível, faz sentido, ja´que sua pauta básica é justamente o combate a idéia cretina que o comportamento de uma mulher, mesmo que seja o que se atribui a uma vadia (??? Tenho dificuldade de compreender certos termos, deixa quieto!) justifica o estupro. Na cola dessa bandeira, todas as violências de gênero e contra o corpo se tornaram bandeiras desse movimento.

Juntou-se os 3. Tinha que dar merda, né?

Não somos maduros o bastante para agirmos democraticamente. Não somos maduros os suficiente para exercermos nossa liberdade. Numa performance de gosto pra lá de duvidoso, que eu me sentiria constrangida em assistir, encenou-se uma masturbação com uma imagem de nossa senhora depois ela e varias cruzes foram quebradas em público. Agressão gratuita contra uma igreja tradicionalmente repressora e controladora do corpo, em especial do corpo feminino, mas ainda assim, gratuita, desnecessária, descontextualizada e absolutamente fora de propósito.
Feito isso, foram pro meio do evento da JMJ a gritar palavras de ordem do movimento maior, Fora Cabral e o escambau, do movimento das vadias mas também do movimento LGBT (Meu cú é laico… meu cú é laico? Qual a relevância do seu cú ser laico no momento, meu caro? O meu também é, diga-se de passagem, mas qual a meleca da relevância ) e só palavras de ordem absolutamente anti-religiosas a troco de … eu tô tentando entender, a troco de que essa é uma juventude livre, que ao passar pela juventude do papa, não podia sorrir e trocar gentilezas, angariar simpatia para a causa, dos movimentos sociais cariocas específicos ou genéricos, não importa! Não… era preciso passar marcando posição, antagonizando, chocando,a final eles são a juventude livre, sem as amarras dos compromissos socio-políticos, dos partidos, das religiões, das organizações. E aparentemente, do respeito ao diferente.

Pra defender o que eles acham certo, o que eu acho certo e eventualmente o que você acha certo, essa juventude vai lá gritar palavra de ordem (o que eu agradeço, afinal, salvo uma ou outra, no que diz respeito aos princípios, não tenho divergência com essas demandas!) nas fuças de quem não concordar, num jeito bem Zagalo de ser: vocês vão ter que me engolir.

E até suas palavras de ordem refletem isso: “olha eu aqui de novo!” eles gritavam.

Tô olhando. E?

Queridos, o movimento é justo. As causas são justas. A postura de vocês? Tenho minhas dúvidas. Lá, cercado por católico por todos os lados, uma das palavras de ordem, a melhor delas inclusive, foi “reza pro Amarildo” ou algo assim
E o momento em que eu fechei a transmissão ao vivo e desisti de assistir foi justamente o momento em que essa reivindicação foi atendida, e aqueles jovens  da JMJ se propuseram a rezar pelo Amarildo.

A despeito de não acreditar, a delicadeza da intenção e o respeito ao diferente, exigia no mínimo, o silêncio de ouvir a oração. Mas é mais divertido quebrar imagem. E gritar palavra de ordem que nunca serão de fato atendidas. Porque ao serem atendidas, bom… elas deixam de ser desejo e passam a ser algo com o qual você precisa lidar. E ninguém explicou que democracia e liberdade envolvia lidar com as coisas. Demandar sim, mas lidar?

Então né. Essa é a juventude livre. E há algo nela que me incomoda demais. Porque o outro é sempre a gente do avesso. Então se eu sou o diferente para o outro, o que tem que ir pra rua gritar pelos meus direitos, é no ouvido desse outro que eu grito. E ai o outro é o diferente. E se eu não mostrar o respeito que eu quero receber, quee porra de mensagem é essa que eu estou passando? De que eu sou livre pra que você não seja? Ou de que os meus direitos são justos, já os seus?  Lutar por liberdade e democracia só pra mim mesma é mole.

Quero ver é ir pra rua, de cara limpa, lutar pelo que é de fato bom para a maioria, e respeitando o direito do outro não concordar com você.  E ciente que se for um direito, bom, grita mais alto ainda até alguém te ouvir, mas se for só uma vontade, como a de que ninguém se prenda a ídolos ou que ninguém seja manipulado ou que… bom, se for só uma vontade, ela precisa ser democraticamente abraçada pelo coletivo, pela maioria, isso inclui ensinar, não ir praça pública impor, espernear e agora, até quebrar as santinhas da casa da mamãe….


PS: Há pessoas e pessoas. Essa não é uma roupa para caber em todos.E certas atitudes não inviabilizam o movimento ou os ideais que nele repousam.
Mas que essa garotada não tem a menor idéia do que é democrático ou deixa de ser, ou o que fazer com a liberdade que dizem ter ou querer, isso, na média pelo menos, eles realmente não tem.

PS2, escrito na manhã seguinte:  Questionada sobre a definição de democracia e o fato dela ter o defeito intrínseco de ser ditadura da maioria mas se agrupar em conglomerados que se regulam e que propiciam que pessoas da maioria votem em favor da minoria:

A – nesse sentido prevê em si mesma os direitos de uma minoria, na verdade na medida que leva em conta direitos individuais e fundamentais. Como pode ver, eu escreve em teoria, na prática o buraco é mais baixo. Além de ser mais embaixo o buraco que leva um heroterossexual branco que não degola bichinhos votar a favor de igualdades sexuais, raciais e direitos fundamentais à vida. Mas isso é papo filosófico pra uma vida inteira, e não pra um resumo de poucas linhas dizendo que democracia é um treco onde você vai ter que se resignar quando o que você QUER perde, mas tem mecanismos para brigar quando o que você PRECISA não é atendido.

E questionada sobre o caráter com potencial fascista deu dizer que as pessoas não estão prontas pra liberdade, e que esse pensamento poderia justificar intervenções estatais e…

B – O que é liberdade pra você? Confesso que a frase não ser maduro para lidar com a liberdade e mesmo não ser maduro para lidar com a democracia contém riscos horrorosos em si mesmas e não saem de mim sem um tico de vergonha. Alheia talvez, mas vergonha. Agora dependendo da sua definição de liberdade, reitero, e reitero enquanto massa…. a massa não sabe lidar com liberdade. E se é cerceada nos limites naturais das liberdades individuais já vão logo gritando ditadura. É uma beleza… estudo sociológico facinho facinho. Em 3, 2, 1 vai ter alguém gritando ditadura porque ouviu um não. Nem que seja da mãe..

E nada nessa sociedade se auto-regula de fato. A fé na capacidade humana de se auto-regular é bonitinha, mas pra mim, é só isso, bonitinha. O ser humano, desde o principio dos tempos precisou de deus, reis, leis e o escambau. Tira tudo isso pra vc ver. Bem vindo à barbarie!

Em tendo dito tudo isso, olha que coisa. Faz qualquer coisa parecida com um AI-5 pra ver o quão alto eu não grito. E tenta retirar direitos fundamentais, até o de não saber lidar com a liberdade e a democracia pra ver se eu não grito. Eu só não tenho, necessariamente, a mesma noção do que seja liberdade ou a mesma fé na raça humana.

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