Paradigmas e comportamentos

Imagem do eu e questões de gênero

Só mantendo em um posts mais permanente um questionamento ao ler Muito Além do Nosso Eu, de Miguel Nicolelis…

Esse negócio de pensar dá muito trabalho. Acho que vou largar meu livro de neurociência e ir ler uma Caras ou algo ainda mais raso (tem?).
Amiguinha Aliny não aplacou minha angustia intelectual, então partilhando aqui meus achados…

Nossa imagem de eu é uma construção mental, mero subproduto de atividade elétrica, de um cérebro que está constantemente criando modelos e testando-os na realidade. Dessa forma, a raquete de um tenista é extensão de seu braço assim como o celular é extensão da minha mão, e todo amor é extensão de nós mesmos.
Assim, perder um braço, a possibilidade de usar a raquete ou o amor, é sempre experiência de perda e dor real, desconstrução do eu, necessidade de reformulação da rede neural… 
Até ai, tô acompanhando e concordando… Tudo isso é corroborado por experimentos e relatos de casos. Relatos como os que já citei aqui de pós-operados de mudança de sexo que não tem a famosa experiência do membro fantasma, que é justamente essa dificuldade de desconstrução do eu (e para ele aquele orgão não fazia parte do eu dele), que temos ao perder um órgão, membro, instrumento que virou nossa extensão ou amor. A capacidade de ser refazer enquanto imagem de Eu parece depender muito do que se perdeu e da capacidade de repor o objeto/membro/amor perdido, mas é igualmente processo de luto. Das experiências temos o interessantíssimo experimento com a mão de borracha que se acredita ser mais sua própria mão que a mão real, e experiências extra-corpóreas de troca da perspectiva de 1a pessoa para a de um manequim. Ai vem o adendo de que essas experiências não se confirmaram quando o objeto que seria o ponto de vista era muito alien, de forma a que embora plastica, maleável e mutante, essa imagem de eu precisa ser uma certa concordância com a imagem que estava lá alguns segundos antes, ou a rejeitamos (e vem daí a dor do membro ou do amor perdido, que pode ser superada por nossa maravilhosa plasticidade neuronal, mas dada a característica abrupta da perda, há que dar o tempo da adaptação da rede neural à nova realidade, ou, antes disso, repor a perda).
Dito tudo isso, vem minha dúvida cabal… em experimentos de troca de corpo (a de troca de ponto de vista, mas com um sujeito vivo, de forma a que seu ponto de vista motor passasse a ser o do experimentador) o gênero não foi uma questão. Sem a menor dificuldade, o sujeito era capaz de “trocar de corpo” com o experimentador, sendo ele do mesmo sexo ou de sexo oposto.
Mesmo partindo do ponto de vista que é a identidade que cria o gênero e não o contrário, como fica a chamada identidade de gênero, frente a isso? A Neurociência está me dizendo que gênero não é uma questão? Que a única influência do gênero na nossa identidade é o feedback do mundo , e se o feedback cessa ou muda, é possivel nos adaptarmos a uma nova identidade não sei se sexual, mas de gênero, imediatamente?
Juro que tá dando nó nos meus… neurônios. 😛
Porque presta atenção, isso muda em 100% nossa forma de discutir a questão do gênero… não?

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