Paradigmas e comportamentos

Meus R$0,20. Simbólicos e infelizmente também literais.

Senhoras, senhores, respeitável público não pagante.

Tenho protelado em manifestar minha opinião, porque ela corre o risco de ser tomada de forma leviana, e porque ela, em via de regra, pouco importa.

Tenho lido, ponderado, ouvido… Aqui em casa arrisquei confessar não ter mais fé irrestrita no poder do protesto per si, e levei indireta no fb… Ia deixar por menos, ciente de que minha opinião, no cômputo geral, é de fato irrelevante, mas cá estou eu, preocupada com um dos meninos no Maracanã e me sentindo aviltada que eles não tenham o espaço do protesto, respeitado.

No que minha opinião for relevante, gastei muita sola de sapato na Rio Branco nessa minha vida. Estive politicamente engajada muito antes de der idade de votar. Chorei copiosamente porque não me deixaram ir em passeata das “Diretas Já” mas estive no Riocentro no famigerado show da bomba… Fui para Brasília em caravana na época da Constituinte e tive minha cota de rua ocupada e palavras de ordem.

Por um lado não faria diferente. É um construtor de caráter, tem potencial redentor e catártico, te ensina a importância de brigar pelo que a gente acredita. Mas se você me perguntar o quanto eu mudei o mundo com as solas de sapato gastas, eu vou te dizer que nada. Ou quase nada. Me deu o potencial de seguir com atitudes que poderiam e podem contribuir para a mudança, por isso, relevante, importante, essencial em quem eu sou hoje, mas não acho, hoje, que ocupar ou não ocupar as ruas garantiu de fato o direito instituído ou natural, a praticamente nada. E eventualmente deu aqui para tirar ali, em cortinas de fumaça, eventualmente orquestradas.  Por genuína manifestação popular ou a mais triste massa de manobra, tanto faz.

É essa a parte que pode ser encarada levianamente. Eu não acho que não é relevante. Que seja errado. Ou mesmo que seja inútil no sentido amplo da palavra. Só não tenho essa fé de que se não ocupavam as ruas ontem, e hoje as ocupam, vivemos a Primavera Brasileira, o gigante adormecido despertou, e iremos construir um Brasil melhor única e exclusivamente ocupando as ruas… Adoraria acreditar que um Brasil melhor está nascendo diante dos meus olhos porque há ruas ocupadas.

E nem digo ocupadas por quem. Porque isso é de fato, pra mim, irrelevante. Quando eu me revolto por alguém a quem um direito básico é usurpado, o fato deu ter acesso a esse direito básico não faz minha revolta menos digna, ou menos justa, ou menos relevante. Então se quem está na rua é filho da classe média ou o trabalhador, isso pra mim é nada, não faz a menor diferença. Até porque o filho da classe média não é vagabundo. É estudante ou trabalhador também, ora essa! Está na rua quem se revoltou, por si ou pelo outro. E ser pelo outro, lá no fundo, pra mim torna a coisa mais digna na verdade…

Agora, me assusta a volatilidade. A razão dela, seria motivo para outro post, imenso, maior que esse… Mas esses são tempos voláteis. O que é absurdo e inaceitável. Negar o direito à manifestação pacífica é ultrajante. É inadmissível. Mas não muda uma verdade básica de que o comportamento das massas não é igual a soma do comportamento dos indivíduos que a compõe.

Não precisa uma formação acadêmica especializada para entender a natureza das turbas. Talvez precise dessa formação para levar essa natureza a sério.  As pessoas tendem a dizer que vão para essas manifestações em paz, que não estão sujeitas à provocações, que tem consciência política, foco e objetivo, que não são revoltosos acéfalos e vândalos. E isoladamente não são mesmo. Muito pelo contrário. Mas turbas não pensam. Elas reagem. E seguem o fluxo. Basta um comportamento desviante, ou passível de ser compreendido como desviante, que funcione como um sinal pre-estabelecido de que é preciso radicalizar, e a turba, enquanto ser único composto de muitos corpos, radicaliza.  Em tempos menos voláteis, isso as vezes é percebido como comportamento desviante e tratado como tal. Em tempos voláteis, é a chama que inicia a explosão.

Sob a ordem de reprimir, basta um comportamento violento de um único policial. Logo esse comportamento estará sendo propagado e repetido pelos demais, como sendo a norma e não o desvio, e será em força proporcional, igualmente rechaçado em direção contrária, em pura lei da física.

Da mesma forma, basta um único indivíduo que radicalize, e toda a turba radicalizará, ainda que seja para se defender da 3a Lei de Newton que foi inexoravelmente colocada em ação…

Dito isso, tudo isso, ouvi o clássico: “ao menos estou fazendo alguma coisa”.  Coisa esta que se eu não estivesse emocionalmente atrelada a ponto de me preocupar, o apoio seria irrestrito. Já disse, ocupar a rua deveria ser direito inalienável, e é um excelente construtor de caráter. Em nenhum momento, por não acreditar (mais) na eficácia das palavra de ordem como medida da mudança que imprimimos no mundo ou por medo – característica intrínseca da maternidade – da volatibilidade, da minha boca sairá o “não ocupe as ruas”. As ruas são nossas, para ir, vir e ocupar.  O direito ao protesto pacífico é no que diz respeito à formação do homem, tão importante como, ou melhor, tão constituidor  do alimento do corpo, da mente e do espírito como comida, saber, amor. Mas não é a única forma de ação.

E por formas alternativas de ação eu não estou cogitando abrigar, financiar, ou promover a revolução, porque me desculpem, eu realmente não acredito que os protestos que estamos vendo são o estopim de uma revolução…  Veremos, mas eu realmente acho que essa é uma leitura absolutamente surreal do que é um fluxo de revolta que é cíclico, que nos acompanha historicamente em vários momentos, sempre que enquanto massa vamos ficando lenientes… São as sacudidas ocasionais que não são propriamente, na minha leitura, o que muda o mundo, mas são o lembrete que ainda temos coisas a mudarmos no mundo.

Eu até posso estar sendo hoje tão inocente como é minha leitura de mim mesma 20 ou 30 anos atrás, a adolescente engajada ávida por segurar o cartaz na passeata. Mas fato é que no fim do dia hoje eu tenho a impressão de que meu dia rende mais para a mudança do mundo do que todas as passeatas e protestos que fiz. E sei que não faço um décimo do que é possível ser feito, em termos de agir no mundo, em nossa linha de trabalho, no nosso cotidiano, no que passamos adiante e deixamos para trás como lição de vida.  Como disse, posso estar enganada. Posso ter envelhecido, me conformado em comprar, comer e procriar, me tornado meus próprios pais (que alias, tem sua trajetória revolucionária mas que estavam lá a me cercear e dizer não, você não vai nessa passeata quando eu tinha 13 anos de idade…!) e estar em casa contando o vil metal (Onde??? onde??!!!). Ou posso ter uma outra leitura do mundo que a minha trajetória de ocupar ruas me proporcionou.  Mas de qualquer forma, alguma coisa eu pareço ter feito certo, já que criei filhos que ocupam as ruas, e me matam de preocupação.

E ocupam as ruas por R$0,20. E por bem mais que isso.

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2 comentários em “Meus R$0,20. Simbólicos e infelizmente também literais.

  1. perfeito Dri… Meu irmão está em SP, participando…rezo diariamente para que nada de ruim aconteça a ele, e fico pensando em como está minha mãe (que já me ligou chorando várias vezes neste fim de semana por conta disso). O pior de tudo, é que só não vou as ruas pq hoje sou mãe, e acredito que meu principal compromisso é com meu filho. Confesso que torço pra que isso tudo dê bons resultados, justamente pra evitar que meu filho, daqui alguns anos, precise ir pras ruas, e me deixar em casa chorando copiosamente e com os cabelos em pé, como vejo minha mãe hoje.

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    1. Mas como disse no fb, só a maternidade não nos prepara para esses grandes ritos de passagem, mesmo que anunciados.
      Esses momentos que precisam ocorrer. A nosso despeito.

      E veja bem, pela importancia no que nos forma, eu desejo que seu filho tenha a oportunidade. Mas que seja em tempos mais organizados, menos radicalizados e com forças policiais bem melhores preparadas que entendam a diferença entre proteger e punir.

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