2012, o ano em que o mundo acabou.

Este ano foi muitas coisas. Poucos foram tanto.

Este foi o ano em que fui ‘obrigada’ a escrever por todo um processo que marcou os seus primeiros meses, o que me fez fazer as pazes com a palavra escrita.  Eu andava pictográfica ao extremo, me derramando em ‘Sombra e Luz’ (literalmente, mas mais sombra do que luz). Não havia propriamente entrelinhas para serem lidas mas nuances de cor, escolhas de filtros, enquadramentos tortos… Quem quis, leu.

Ai fiz as pazes, do fluxo caótico de palavras, verborragia desenfreeada, fui ficando contida, dando forma, até poesias eu escrevi… 

307681_10152377426370198_1879392456_nSó não tinha era tempo… A vida urge, leão que ruge, vai lá achar tempo para parar na frente do computador pra digitar posts imensos de um blog que ninguém lê…  Aí fiz as pazes com outros seres: caneta, papel, mais especificamente caderninho de bolso, de capa dura e elástico, primeiro presente do Saks, depois  em versão micro-mini-ultra-small presente da Lê.  E aí é no ônibus, na mesa do jantar, na fila do banco, nos instantes antes de dormir… Qualquer hora. Qualquer lugar.

Fiz as pazes também com a palavra falada. Contei isso no post Vergonha Alheia, que a palavra é arma e se engolida é mira errada, e nos mata.

Então 2012 foi o ano em que fiz as pazes com a palavra, escrita e falada, verborragia (controlada) que me define, me esvaindo em significados, me alimentando de significantes.

***

Ao longo dos anos conheci muita gente. Perdi contato. A vida levou. Em 2006 mudei de Estado, somou-se distância física à distância que a vida impunha.  Entre uma coisa e outra, e antes e depois e no meio, meti meus pés pelas mãos vez por outra, fiz escolhas erradas, fiquei de mal, herdei inadvertidamente inimizades, vi gente se afastando por opção, comprei brigas, perdi amigos. Noves fora zero, vida, distância física e atropelo, e a dificuldade inerente de me enquadrar me deixou longe daquilo que sempre foi meu combustível primeiro.

A internet tentou ajudar. Foi por ela que conheci muitos deles. E por ela mantivemos contatos. Ou nos achamos no mar de nomes e rostos e amigos em comum.  Isso foi se dando aos poucos, ano a ano, afastamento e reencontro, mas nunca de forma tão sistemática, de amigos tão distantes, de tempos tão imemoriais e de histórias tão complexas. Era sempre algo isolado, tanto que era per si assunto por ser inusitado.  E de repente, eles voltaram em profusão, borbotões na nascente…

Foi nesse ano que foram na minha porta e me trouxeram para casa pela mão, ou o mais literal que essa imagem possa ser. O motivo era da ordem da calamidade pública, do risco iminente de perda de patrimônio cultural. EU era o patrimônio cultura.  Eu não posso explicar a sensação e olhar no fundo do olho do mais genuíno desamor, de encontrar-se frente a frente com o abismo que mora – sempre mora – dentro de você, e então, enquanto o chão se abre ao seus pés,  ver simultaneamente o mundo se contorcendo ao seu redor, em seu favor, e se saber amada assim, de graça, na distância, na saudade, no espaço genuíno da amizade, na gratidão, no amor de irmão, esse que perdura, resiste, aceita, perdoa, acolhe, resgata.

E o mar se encheu dessas ondas, reencontro, real, ao vivo, de abraços apertados, olho no olho, sorriso que vem fácil, suspiro que se entreouve de eu estou sinceramente comovido em ver você…  Meu nome na boca de amigos a virar quase uma cantiga, a me embalar na rede, a me fazer dormir. ( E só um ex-insone há de entender o valor disso!).

Reencontrei até quem eu não conhecia, aquisições, empatia, soma, multiplicação.

E esses reencontros não param, não se repetem sequer ao se repetir, se renovam nas velhas histórias contadas em um novo bar. Na risada, no segredo, nas conversas que ainda vamos partilhar.

Então foi o ano do resgate e do reencontro com você, um você de muitos nomes, a quem eu sincera e genuinamente amo simplesmente por existir, espelho de alma que reflete uma adriana que eu não lembrava mais e uma que ainda vou conhecer.

***

Também foi uma no de aprender muitas coisas, me descobrir capaz, de fazer coisas que gosto mas principalmente de experimentar. O novo, o diferente, o velho reeditado, o que uma vez no passado achei que não gostei.

Foi um ano de comidas novas, estilos novos, trabalho novo, vida nova. E não era da boca pra fora. Foi ano de começar de novo só que diferente, foi ano do que faça o que fizer só não refaça as merdas que já fez…

Então era preciso marcar simbolicamente mas inequivocamente o quão  diferente eu  estava me propondo a ser.  Meu cabelo já foi preto, e já fui ruiva também, mas loira mesmo (exceto nos anos 80 em um mullet… abafa! Abafa! ) eu nunca tinha sido.  Então orgânico como era a necessidade de mudar, mesmo antes de ser um movimento consciente, eu comecei esse processo e aloirar, mecha por mecha, uma luz aqui, um complexo aqulá.  Wellaton loiro claríssimo acinzentado no café da manhã, tá bom pra ti, perua? Pra mim causa certa azia, mas vamos lá!

***

Foi um ano em que parei de fumar. De sentir recorrente e desmedidamente  pena de mim. De me definir exclusivamente pelo outro. De acreditar em que não gosta de mim. Foi o ano em que parei de ficar parda, esperando a vida melhorar. Que parei de andar pra trás, dando murro em ponta de faca. Parei (ou tentei parar) de dar satisfação sem ser solicitada. De amar obrigada. Ano de desintoxicação de todos os simulacros da minha vida, ano de recomeçar. De parar com o que me faz mal. De abraçar o que me faz bem.

***

Todo o resto que me aconteceu e ainda me acontece, idiossincrasias da vida, idiotices alheias:  todas as pequenas histórias que partilhei com os amigos, as vezes sob copiosas lágrimas,  na mesa da cozinha, na mesa do sala, na mesa do bar, não são o que levo do ano. O que me fizeram não é o que me define. Isso é peso que não me cabe,  pura mesquinhara, não vale sequer a menção na retrospectiva do ano e um dia será apenas caso pitoresco a ser contado…

2012 foi <O> ano. Ainda fresco, ainda sob júdice. Sujeito à recaída, à necessária intervenção.  E será o divisor de águas entre o que eu fui e o que um dia vou ser.

E ironicamente, seria o ano em que supostamente o mundo deveria acabar. E ironicamente, foi o ano em que supostamente meu mundo acabou.

O ano em que o mundo se abriu sob meus pés, em que o abismo me olhou, em que eu pela primeira vez conheci a desesperança, onde eu me vi 100% sem perspectiva, onde a dor era tão profunda, e o medo tão grande que eu era incapaz – e isso chegou a ser literal – de andar. E ainda assim, do mais profundo dos poços profundos, cá estou eu. Teimosamente viva. Teimosamente feliz. Incompleta e inacabada, obra em construção, e fazendo as pazes com essa ideia de voltar a ser rascunho, promessa, por vir.

2012, muito ironicamente, foi o ano em que o mundo de fato acabou, e só por isso,o ano em que o mundo recomeçou. Quem não ama as ironias dessa vida?

Pequeno apanhado de alguns, só alguns, dos melhores momentos de 2012, cercada das pessoas que me amam, de graça, muitas das quais eu não via há quase uma década, alguns que eu não via há mais de duas…
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2 comentários sobre “2012, o ano em que o mundo acabou.

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