Vergonha Alheia

Eu sempre fui de falar muito, demais até,  mas dizer pouco.  Reclamar a esmo, falar da vida hipoteticamente, contar causos, dar pitaco.  Tive sempre essa relação com a palavra que é de que ela existe pra ser dita, e morre esfacelada se fica pra dentro.  Mas normalmente a palavra que importava, eu guardava. Essa eu não tinha coragem de dizer.

Imagina. O que as pessoas vão pensar! Pensar de que, Adriana? Pensar de quem?  Disso. Do outro. Mas de mim por tabela.  Do Eutro.  Sei lá.

Dia desses pra trás, e já citei isso aqui, fui comparada com uma ostra a nutrir um câncer ao invés de uma pérola…  Hoje eu provavelmente peco pelo excesso: perguntou? Eu tô contando. Salvo claro, as ressalvas eventuais de “putaquepariunãoédasuaconta” ou “seeufossecontartudonãoiamosterminaressaconversahoje”.  É que a tal da história da vergonha alheia era uma questão muito diferente na minha vida.

Se eu precisasse de uma prova, se eu ainda não tivesse entendido o fato de que me definia na alteridade, essa seria a tal da prova cabal, inegável. A vergonha, alheia, era minha.  O outro dizia de mim. Eu precisava redigir em 15 laudas uma defesa plausível. Eu precisava ter desculpa perfeita como pronta resposta. Eu denegava e guardava em algum buraco da alma uma história que não me pertencia de fato, mas eu fazia minha.

Houve uma época, antes de passar a amargar com ela, que eu tentava evitar a vergonha alheia.  Depois de alguns esbregues bem dados, eu aprendi que cada um sabe de si. Pro bem e pro mal. Só eu que não sabia de mim.  Ficava ali, digerindo culpa alheia, vida alheia, vergonha alheia!  Deu no que deu: Isso. Aquilo. Aquilo outro. E aquela outra história também.

Então, hoje eu conto. Linguaruda. Tagarela. E meus mimidris mudaram de prumo. No começo eram constantes e sem foco. Aí ficaram mais sentidos. Hoje são mais pontuais.  A vergonha, é alheia. Não minha.  A que é minha, bom, não me arvoro a sra perfeição também não, e tenho lá as minhas.  Hoje  eu canto no ônibus, vou à programas de índio, dou gargalhada no meio da rua, engasgo no telefone,  dou chilique ao ver inseto,  faço drama, apago em sofá de amigo de preguiça de voltar pra casa…  Minhas vergonhas,  delas, cuido eu, e não as jogo em ninguém.  Mas na dúvida, falo delas também!

Mas tudo isso era pra falar de outro assunto, das coisas surreais que acontecem ao meu redor… e que as vezes quando conto, juro, parece mentira.   Algumas são sei lá, só simbolismo, postumamente atribuído mas que parece prévio… (trabalhar no Saara num lugar que não está lá até estar, fogos de artifício no meio da noite que podia ter sido de drama, convenção funk com biriguetes desfilando de crachá vestindo roupas onde não se imaginava caber um crachá preu entender que se sentir despida é diferente de estar!) . E as outras  são essas coisas que antes me faziam corar em rubor supremo, vergonha, vergonha absoluta.  Mas o que eu tenho com elas? Nada. Presenciei  ou fui o alvo. Estava lá, viva, vi. Hoje eu conto.

Um amigo, alvo certo do contar dessas histórias (na verdade, a grosso modo, vai pra quem quiser ouvir… mas nem sempre o povo quer, né? Mas amigo tipo irmão meio que não tem escolha!), ouve e gargalha alto, sonoro. Por 3 segundos eu fico com raiva, falo
“Vai rindo… Fica aí rindo porque não é com você!”
e ele retruca,
“Ah, Dri, olha o ridículo da coisa… pensa só:  Você está me dizendo que (SEGUE DESCRIÇÃO DO QUE ACABO DE CONTAR SEM A VOZ CHOROSA DE POBRE DE MIM MAS COM O TOM JOCOSO DE OLHA QUE MERDA)”
e eu penso, e é ridículo, é tão surreal, tão absurdo, tão caricato que nem dá pra acreditar que se trata de fato. E é.   Fato. Fatão mesmo.

E no fim das contas, catártico, curativo, inesperado. Essa dor imensa vira riso. Eu vou rindo também. Concha que abre, história que ganha vida, tá lá… tá lá. Sim querido, é absurdo. Até me afeta mas é menor que a soma do meu eu.  E definitivamente é uma vergonha. Mas olha que coisa: a vergonha não é minha, É alheia. É que  o outro já não me define mais.

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