Conversa jogada dentro

Uma semana especialmente difícil, alguns mojitos, um carpaccio, muita fumaça de charuto cubano, um gole de single malte (que a lembrança ainda pinica a língua), um metrô e um ônibus (ok, sou muquirana mão de vaca. Eu disse que ia pegar um taxi, mas saltei e lá estava o onibus me esperando…) e eu estava em casa. Com a certeza de que não há lugar como o lar – não, não, história errada! – Com a certeza de que não há nada melhor que jogar conversa dentro. Porque eu não jogo conversa fora. E nem sei de onde veio essa expressão!

Não jogo porque não jogo mesmo, está tudo em algum lugar da minha memória sequelada e de quando em quando essas histórias vem em onda.  Mesmo quando digo que não lembro, e brinco que se quiserem me contar que há 25 anos eu matei uns 10 enquanto eu roubava um banco mas depois esqueci onde escondi o dinheiro, é capaz deu acreditar. Tem outros causos estranhos que não propriamente me lembro mas é bem provável, pois é… então! É que está lá. A história, contada, me traz essa onda de reconhecimento (infelizmente, não o suficiente pra me lembrar onde escondi o dinheiro). E quando a lembrança vem naturalmente, ainda mais. Ondas de reconhecimento, de fazer parte, de ter o que contar.

Minhas conversas são todas jogadas dentro. Dentro desse baú que, Quintana que me perdoe, fui incapaz de perder, mesmo despojada de todas as vestes. E poucos sabem quantas vestes precisei perder.  Alias, é nesses momentos e com as pessoas com quem me sinto despojada dessas vestes de medo, dessas vestes de dó, é que meu baú, mestre, me é mais caro. Nele estão as minhas histórias, algumas para serem ouvidas com olhares de suave reprimenda, de Adriana toma jeito, Adriana cata seu rumo… Outras pra receberem o olhar complacente porém quase sempre silencioso do dar razão, da cumplicidade, da compreensão. E outras, ah, outras são só pérolas para despertar risos…  Nele, meu baú, estão também as histórias que escuto. Os segredos que guardo. A clareza de compreender para além da superfície, para além dos pires virados do avesso, para além do dia a dia.  Lá estão minhas conversas. Todas elas. Com esses seres de luz que são meus amigos, que não irão para o céu, mas vá lá, o inferno também anda precisando de luz!

Essas conversas que são que nem gente. E que nem filho. Tem preço, mas são inestimáveis. Nada que um master card – ou visa, que não sou exigente –  não pague, mas que se perdidas, ninguém nunca há de repor. E olha que eu que era a neo-liberal do amor, a contabilizar minhas dívidas de amizade, de amor, de cumplicidade, de resgate, de tudo! Agora descubro que tinha preço sim… mas eu tinha era que entender seu valor, e que valia menos se eu tentava pagar.

E a semana foi especialmente difícil. Mas teve finalização perfeita, com relatório “sim, já li, pode imprimir e assinar”, aceitação que em vida de gente grande eu não preciso concordar com tudo pra executar, papos engraçados no facebook e por fim mojitos, carpaccio, charuto, single malte e conversa jogada dentro. Por X dinheiros e um incontável valor.

Não fica melhor que isso. Mentira, não é a queixa preemente, doutor? Então até fica, mas só se for também. Mas não troco aquilo por isso, que já troquei e sei que não vale. Mesmo. E tenho dito.

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