Pensamentos Aleatórios

Sobre confluências, vilões e coisas que passam através de mim…

Pensava eu ainda anteontem sobre como eu podia traçar de alguma forma essa linha divisória entre antes e agora, pra o bem e para o não tão bem assim.

Em como para o bem eu podia respirar. E havia silêncio. E eu prestava contas a mim mesma.  E parecia que o pior tinha ficado para trás e subitamente havia paz.  Mas para o não tão bem eu tinha esse processo de definir-me, construir a parede do meu ego, definir a linha que me separava do nada, e ter possivelmente pela primeira vez uma identidade que era una, uma em si mesma… E esse é um processo tão cansativo, tentativa e erro, enxugar de gelo e um lugar extremamente solitário de quando em quando. Quase fazia sentido ter sido definida pela alteridade: quem quer esse trabalho diário que se estende por todos os segundos, do qual completos estranhos exigem perfeição e conhecidos desavisados superestimam a constância? Quem quer ser o único responsável pelo que se esqueceu, pelo que se errou, pelo que não se teve força de fazer ?  Quem diabos quer viver em uma história sem vilão?

E ontem eu discutia sobre confluências, sobre teias tecidas que nos trazem para determinados caminhos,  inexplicáveis acasos a colocar pessoas na sua vida em momentos tão precisos … Em como só ser eu me garantiu ter carinho nutrido na distância a ponto de hoje eu ter a mais bela rede pra me embalar. Postei vídeo sobre a corrente do bem, sobre os pequenos gestos cotidianos que se dobram sobre si e reverberam no universo, abrem caminhos, passagens por onde essa coisa difusa e genérica chamada bem, noção para além de religião ou cultura (diferente de certo ou errado)percorre e  se derrama sobre nós.

E então tudo parecia estar bem. Tudo parecia que ficaria bem.  As minhas infantis noções de justiça não mais importavam, nenhum Hamurabi  ecoava na minha cabeça, e eu não esperava por resgate. Achava apenas que tudo ficaria bem, porque esse era o movimento, esse era o caminho. Não… não. Esse era “O” caminho. O único possível. O, agora sim por crença e criação, certo, o que me levaria a onde eu queria chegar mesmo que eu ainda não estivesse tão certa assim sobre que lugar seria esse.

Mas há algo sobre os vilões, os de fato , os de direito, os impostos  e os conjunturais, que é preciso ter mente. Eles vivem da tal da constância. Aquela que (papo de bar, eu sei, eu sei… eu sou a própria enciclopédia de filosofias de botequim) concluímos que só nos serve para nos prender aos nossos erros, é a companheira fiel de quem trama, calcula, e joga palavras no vento.  E antes do último suspiro, como nos filmes, eles sempre voltam. Reerguem-se  silenciosamente por sobre nossos ombros para que o expectador grite: “Atrás de você! Como é possível que não soubesse que ele voltaria? Porque não checou novamente o corpo inerte?”.  Eles sempre voltam.  São ecos de outro tipo de corrente, de outro tipo de confluência, acaso, casualidade.

Ontem, escrevendo essas palavras, me pareceu tudo muito triste, ter essa história a qual arrastar para sempre atrás de mim. Ter sempre essa sombra vista pelo canto do meu olho. E quanto mais pra frente eu fosse, mais eu acharia estar me afastando e mais eu temeria estar andando na direção…

Mas não é propriamente triste. Não é nada, a bem da verdade. É eco.  É apenas sombra.

Pouco importa se de fato vilão ou apenas agindo em meu desserviço. Que importa se intencional ou apenas elo de corrente.  O outro é e sempre será: o outro. É a linha que nos delimita. E nesse mar de gente do lado de fora, e eu sozinha aqui dentro, que sejam os bons outros. Os que lhe dizem bem, lhe querem bem, lhe fazem bem. Os que dão e recebem, nunca os que arrancam coisas de você. Não que haja muito o que arrancar.

Eu não tenho nada. E eu nada sou.  Exceto pela alma, essa que hoje transborda, eu não tenho nada. E exceto por essa alma, que foi avistada por outros antes de ser conhecida por mim, eu nada sou. Todo o resto me é agora tão indiferente que eu não deveria me importar. Ou me surpreender. Todo o resto são só ferramentas para  construir gadgets para minh’alma: para que ela voe, para que ela nade, para que ela coma, para que ela provenha, para que ela beba, para que ela ria, para que ela chore, para que se emocione e no fim prevaleça,  compense o esforço empenhado e vire poeira de estrela outra vez.

E pela minha alma, conversa de bar outra vez, tudo que eu desejo, eu devoro, absorvo, faço fazer parte. E tudo que não quero pode passar através.  Eu vejo através deles e eles passam através de mim.

São só palavras. É só dinheiro. É apenas um percalço. É só um pequeno desvio. Ligeiro inconveniente. E no cômputo geral dessa vida, já vai passar…

Eu, feita de alma e alma feita de conversas, lembro então de outra (não no bar, essa foi no meio da rua, carros passando, pessoas que circulavam a despeito das nossas conquistas e das nossas dores) e livre parafraseio: < Estive em lugar tão pior que esse, que é difícil me levar a sério me lamuriando por tão pouco.>  Porque são só palavras. É só dinheiro. É apenas um percalço. É só um pequeno desvio. Ligeiro inconveniente. E no cômputo geral dessa vida, já vai passar…

E vai passar através de mim.  Porque lembre-se, constância, essa que não quero mais, nos outros é reconfortante.  Quando você entende o mecanismo, sabe exatamente o que pode vir. E o porquê… Sabe que terá que escolher viver olhando por sobre os ombros com medo dos fantasmas que voltam, ou aceitar que levará sustos no decorrer do caminho, mas que eles não podem mais lhe fazer mal. Passam por você. Através de você.  E depois, se desfazem no ar até a próxima vez…

“I´ll make the most of all the sadness
You’ll be a bitch because you can
You’ll try to hit me just to hurt me
So you leave me feeling dirty
Because you can’t understand.”
(Slow Dancing in a Burning Room – John Mayer)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s