Pensamentos Aleatórios

Os 5 segundos (ou reflexões filosóficas e histórias mal resolvidas…)

Naqueles cinco segundos em que o ar me escapou, não foi possível pensar em nada e ainda assim, multiplicado pela minha natureza de mergulhos no exagero, pareceu algo próximo à cinco anos e tudo foi pensado.

O primeiro pensamento costuma ser sempre a recorrente sensação de viver numa vila, onde não há isolamento possível, onde nenhuma distância é segura, onde teias que nos ligam a Kevin Bacon também nos ligam ao primo do tio do vizinho da sogra daquele seu colega de trabalho, e a todas as personas non gratas que viver no coletivo nos fez colecionar.

Parti então para pensar na randomicidade da vida porque meu pensamento anterior ao espasmo do dia era incongruente, era um forjar de dopamina, era boderline triste e definitivamente patético. Era o que tinha pra hoje. E ali, justo ali ( e o justo, palavra de emprego duvidoso, e em seus múltiplos sentidos estrela de outros pensamentos que vieram em sequência), estava a realidade escancarando seus dentes clareados, jaquetas de porcelana pagos no cartão de crédito …  A realidade era feia e parecia bonita, grama do vizinho, sempre mais verde, sempre mais fácil de cuidar e gerenciar.  A realidade, a grama, chame como quiser, parecia bem, parecia fácil, parecia ter o que quis ter. Não tinha os mesmos olhos fundos que eu tenho, não tinha o mesmo cansaço estampado pelas noites velando o sono alheio, ou o esforço constante em atender expectativas, ou pela fúria de chegar a algum lugar. A grama parecia plácida. Parecia bem. Foram 5 segundos. Que análise é possível ser feita da grama na luz difusa em 5 segundos?  Para quem brigava com a terra revolta, e imaginava algo verde e primaveril em sonhos despertos, todas as análises do mundo brotam de 5 segundos de encarar a grama sob a luz difusa de um dia branco, se branco ele fosse…  Porque a acuidade científica e milimétrica respaldada em dados recolhidos sob metodologia impecavelmente elaborada nada tem haver com os segundos em que estive sem ar.  Para mim, ali, sem ar, era só a sensação de que eu não merecia a terra revolta, nem a grama merecia tão verde estar. E ainda assim, a realidade e seus dentes clareados e porcelanados, num riso debochado olhava de cima a baixo para o que eu tinha para hoje: sonhos despertos de dias mais frescos.

E então a primeira aparição do justo, da ausência de justiça a justificar a randomicidade ou vice versa e versa vice, na total aleatoriedade da vida, veio como um tapa a seco no meu rosto, deixando-o vermelho, olhos lacrimejando, desolada como criança que percebe que ninguém há de descer pela chaminé que nem está lá.  Não há justiça, karma, deus que vela, que contabiliza o bem para lhe devolver em dobro. Não há senão reguladores sociais que lhe obrigam a fazer o bem pelo medo do inferno. Ou da cadeia. Ou de ambos. Apenas reguladores sociais que nos impedem de ir e vir a despeito do outro. Não há recompensa para os bons. Não há punição para os maus. Não há sequer bons e maus no frigir dos ovos filosóficos do universo.  E fora uma preferência por químicas mais tranquilas que a adrenalina, nada senão convenções sociais lhe impedem de agir como lhe bem aprouver, como deu na telha, como o surto psicótico da vez lhe sugeriu.

E ainda assim, eu escolhi agir assim. Assim e não assado. Assim visando o outro. Assim pensando em mais que o meu prazer.  E o assim me trouxe a este lugar onde o sonho é o que tem pra hoje. E a grama passa, verde e reluzente em 5 segundos que me roubam o ar. E nem a desejo. Grama. Essa. Verde. Só queria entender porque ela é verde, e passa reluzente naqueles exatos 5 segundos que haveriam de me roubar todo o ar.

E a idéia do ser trazida e daqueles exatos 5 segundos parecem conspirar contra a randomicidade, contra o aleatório pelo simples aleatório… Eu podia estar em outro lugar naqueles 5 segundos. De fato, eu deveria estar. Voltar para apagar a luz, os 10 minutos que dormi a mais, o fato de estar aquele tanto potencialmente atrasada e não mais, não menos, mas justo ali. E sentar daquele lado. E olhar naquela direção. Justo nesse dia, pensando em partos doloridos e fartos de vida e alegria, projeto em construção dessa criança em mim que não nascerá a termo, ou talvez, talvez precisasse justo dessa dor pra nascer.  Em 2 dias ou em 2 anos, pouco importa, que encruado por encruado tenho idéias e sonhos e tanto mais a tão mais tempo que isso que é melhor nem falar…

Porque eu estava ali…  Havia uma conspiração dessa força que move o próprio universo e o mantém em constante (até agora) expansão?  Ou estamos falando apenas do quão azarada eu sou de olhar pra fora quando podia estar olhando pra dentro, cochilando, revirando a bolsa, observando os outros passageiros nesse estudo sociológico cotidiano que não me seria estranho?  E naquele instante. Naquele lugar. Não 5 segundos antes. Ou depois.  E talvez justo hoje, que já me amanheceu com essa leve sensação de desolação, de ‘nada-me-aconteça-porque-me-sinto-meio-sem-chão’ que estava lá antes deu olhar e dobrou depois. O acaso seria esse deus tão poderoso, a sobrepor a lógica ou nos obrigar a achar lógica onde não há? Ou ainda, seria tão aleatório a ponto de nem deus o acaso ser? Apenas folhas no vento a se chocar nesse mundo que é uma vila, onde não há isolamento possível, onde nenhuma distância é segura?  Ou as tais teias, as mesmas que nos ligam ao Kevin  Bacon, também nos movimentariam nos fazendo estar aqui, e não alí, pelas nossas escolhas passadas, o bem que fizemos ou deixamos de fazer, tudo que vivemos, e prenúncios fugidios do que ainda está por vir, cálculo preciso do afastamento das estrelas que se expandem, nascem e morrem preenchidas pela mesma energia do principio de tudo que há e , algum dia, do fim de tudo que houve…

Deus em mim, poeira de estrela, movimento direcional, que me obriga a fazer escolhas, e escolher o bem por ser o que me leva pra frente e não porque sim, sem razão alguma, ou convenção social, educação judaico-cristã a amargar a culpa de um pecado que não cometi, de crimes que não presenciei e êxodos que não trilhei… Ou acaso. Puro, simples, sem sentido algum. O aqui como resultado de tudo que vivi ou só o lugar que estou, apenas estou, mas poderia não estar. Fato é que lá estava eu, e eu estava bem. Ligeiramente preocupada com a sensação difusa de estar saindo da rede de segurança, de estar em vias de algo, de não sei, era uma sensação difusa e sensações difusas são escorregadias como sonhos. Mas eu estava bem. Havia um sonho acordado meio patético, meio bobão, apenas pra preencher o tempo e me impedir de dormir e aparecer lá pelos lados do Humaitá porque uma vez dormindo poucas coisas, fora o solavanco da freada no ponto final ,seriam capazes de me acordar   Mas fora o fato de que o que tinha pra hoje não era nada glamoroso ou especial, eu estava lá e estava bem. E então, por cinco segundos, nenhum ar encontrou meus pulmões. Morte pequena que não era gozo, mas dor. Pequeno A do que nos falta. Objeto do desejo não por ser desejado, mas por ser significante e significado de ausência. Do que esteve, não estará. Aquilo que aponta pros seus questionamentos filosófico-religiosos mais profundos, de deus que vigia, de casualidade, de justiça, de lógica se sobrepondo ao caos.  Só por isso. Por tudo isso, mas só por isso. Nada mais.

E então fui arrastada para dentro do tufão de pensamentos que surpreendentemente cabiam em cinco segundos sem ar. E certos pensamentos exigem da gente, quase sempre, mais do que temos pra dar. E é quando  eu me transporto em memória para uma mesa de bar, e comentários aleatórios que vão guiando a minha vida… Pensar é superestimado. Feliz é aquele que só vive, não pensa. Em nada. Em especial, em nada que de antemão se sabia que não se encontraria explicação…

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