Impressões sobre a densidade do hospital e a inauguração de uma cama, ou seria o contrário?

A semana que se encerrou ou se encerra (sempre tive essa dificuldade de entender se domingo é o fim ou o começo, ou se ambos, em disfarce…) girou em torno de inaugurar um hospital literalmente imenso com 3 andares e a missão de empoderamento do feminino e uma cama. Na matéria vida, tão fina, tecida do meramente simbólico, ambas tiveram o mesmo peso nesse processo que eu vivo, nessa teia que me enredo, nessa história que eu conto.

Conquistas. Fruto de trabalho. Com arestas. Geradoras de expectativa. Parte da minha realidade. Fato que o potencial de mudar para melhor a vida de milhares de seres humanos descansa pulsante no hospital. É né? É… milhares?? No hospital!

Piadas a parte, sempre, ou não, que o jocoso é leve como bolha de sabão e ácido o suficiente para abrir passagem, o hospital é nosso melhor em construção. Apesar. Apesar é a palavra sempre chave, para tudo na vida, sempre. Com e Apesar se encaixam sempre e dão o tom que é preciso ter. Nada é pronto. Nada é perfeito. Inaugurar foi esse parto, literal em se tratando de um hospital gineco-obstétrico. E nascer é lindo. Diferente do bebê da Rede Globo (ah, e de novo literal e simbólico se beijam!), ele não nasce nem pronto nem limpinho… E nascer dói. E aí é que o trabalho de fato começa. Os meses nutrindo internamente, que pareciam tão grandiosos, ficam no passado e parecem pequenos com o filho no mundo, do mundo, para o mundo, apesar do mundo e com o mundo. E não é diferente. Nunca é. Agora é hora de crescer. Crescer é lindo. E crescer também dói.
E a cama é talvez ligeiramente macia demais. Meu velho (muito velho) colchão ortopédico de placas finas de espuma e madeira – lá na memória de uma vida toda e de 2 meses(*) de afastamento – me fazem estranhar a espuma, ainda que densa, sobre molas que se ajeitam sob meu corpo e tentam me abraçar enquanto durmo. Questão de hábito. De desde quando eu me lembro para puffs e colchões no chão. E dali para minha cama. Que me coloca acima, sobre, olhando o resto do quarto no ângulo que se deve olhar ao se acordar. Muda a perspectiva. Muda tudo.

Eu tenho uma cama. O hospital inaugurou.

Nada pronto. Tudo – sempre – em construção.

(*) Há algo errado com a passagem do tempo. Ou com o mecanismo interno em minh’alma que nos permite perceber a passagem do tempo. É uma pergunta retórica. É uma pergunta para a qual eu sei, em algum grau, a resposta, ao menos a mais imediata… É só parte da matéria vida que envolve hospitais e camas, e por isso, parte desse discurso. Mas sigamos: Minha vida escorreu pelos meus dedos e tudo parece que foi ontem. Até agora. Hoje, olhando ontem, parece que foi mês passado e mês passado parece que fazem anos. 4 meses? Uma vida inteira. <<Não era eu, eu não me lembro, já estava quebrado quando eu cheguei, eu era muito nova, estava bêbada e precisava de dinheiro na época. >>
Há algo muito errado com a passagem do tempo. Ou com o tal mecanismo. Eu voltei pro Rio de Janeiro tem aproximadamente 2 meses e 1 semana. Parece uns 2 anos e 1 mês. Eu voltei pro Rio tem só 2 meses e uma semana… e olha em volta, cama e hospital, quanta coisa micro e macro já passou por mim! E quanta coisa, micro e macro, ainda há de passar?

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