Eu tô voltando pra casa

Fins de ciclo são sempre complicados. Mesmo quando são planejados, datados, previstos, há  sempre uma certa melancolia envolvida.  É sempre um exercício de desprendimento, de desapego…   E naquele instante de passagem entre o que era e o que será é sempre esse misto de tristeza e excitação, alívio e medo, saudade e expectativa. E não importa do que ou pelo que.  E é um momento pinçado no tempo onde não faz diferença se o ciclo anterior terminou bem ou mal ou se o próximo foi planejado ou contingência, mas é uma espécie de momento mágico do qual a vida é feita, com tudo aquilo que dói e tudo aquilo que alegra.

E vamos combinar. Desapego é algo difícil de praticar. Deixar ir…  Tem sempre aquele quinhão de coisas que são tiradas de você, desfazem-se, não existe mais. Deixar ou não deixar ir não está mais na mesa. Já foi.  Dói, muito as vezes, mas é o tipo de dor que gente estóica feito eu, tira de letra. Não tá mais lá, não é mais meu, choro as lágrimas amargas de Petra Von Kant, pronto, passou.  Eu sempre fui assim, rolou um certo medo de ter desaprendido, mas vi, não desaprendi. Se já não é mais meu, é bem, é isso ai.

Meu maior problema é com as coisas que ficam mesmo. Saber a hora de deixá-las ir. Ou ir, e deixá-las pra trás. Saber quando. Saber que elas perdem o sentido se fora do contexto. Dar o primeiro passo…

E eu não sei por que isso, já que eu sempre fui mulher de muitos sonhos, e lógica o suficiente pra entender que pra perseguir um eu necessariamente ia ter que deixar o outro ir embora… Mas admito, não é um problema de lógica, é de desprendimento!

A casa no campo já foi meu sonho. Nela eu criei meu(s) filho(s) de cuca legal.  Não tive carneiros e bodes pastando solenes, mas tive os mais lindos e maravilhosos cachorros que alguém podia ter. Tentei plantar discos, livros e amigos, mas não foram muitos os que deram o ar de sua graça por aqui. E aí finalmente na parte do conhecer os limites do corpo e ficar do tamanho da paz… é…. não deu não.  Aqui há limites demais, meu corpo já carrega sua quota, minha alma tá precisando se livrar dos que me atribuíram. E eu não estou em paz.

Eu podia ser pessimista. Dizer que é uma derrota. Que aqui, lá ou em qualquer lugar é sempre o mesmo. Que eu projeto demais nas coisas e depois viver no real é apenas too much…. mas seria só eu no recurso último de me prender ao ultimo e maior dos sonhos que já tive, e que eu sei que não se sustenta sozinho, mas ainda assim, no doloroso exercício do desapego, tem essa dificuldade de deixar ir…

E a que chegou aqui, 6 anos atrás, tentava uma solução pra outro sonho, se via as voltas com bandaids, curativos, paths… Tentava de alguma forma se salvar. E nem sabia. Pra ela era só perseguir o sonho… Ela andava com muletas, pedia licença e permissão, e não tinha a menor idéia do quão longe era capaz de chegar. E ela, não existe mais. Parte das coisas que nos são tiradas, se desfazem, não existe mais…

E na minha frente eu não espero tanto assim, como esperei antes. Nenhum tipo de milagre, Nada que dependa do outro. Espero só ficar em pé. Andar com as minhas pernas. Ser minha própria dona. Só mandar em mim.  Espero manter meus amigos mais perto, dentro da limitação que eu sei que a vida real impõe. Espero acreditar com cada nervo, músculo, célula, que é realmente possível recomeçar, sonhar de novo, se reconstruir. E aceitar que é um processo, que é cada dia um pouco mais, que é um dia depois do outro, os fáceis e os difíceis, os cheios e os vazios, os bons e os maus…. A bem da verdade, eu só espero começar de novo.

Então fecha-se um ciclo. Começa um novo. E eu? Eu tô voltando pra casa.

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2 comentários sobre “Eu tô voltando pra casa

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