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Sobre a felicidade em um universo regido pelo caos (também conhecido como cansei de ser boazinha)

Eu já escrevi sobre isso anos atrás. E já não é de hoje que tenho essa necessidade de revisitar o assunto, e talvez superar o assunto. Em alguns dias mais que em outros. Hoje mais que todos.

Eu não sei se deus existe. E sinceramente, não acho que caiba a mim saber, ou entender, ou definir. Deus, existente ou não, é uma noção filosófica que remonta ao principio de tudo e ao sentido da vida. Não é, e nem pode ser, uma verdade científica ou um fato comprovado, e por isso toda discussão religiosa, no sentido de embate, é infértil e inócua no grande girar das engrenagens do mundo.

Deus, criado ou real, é uma noção que nos coloca nos trilhos. Na linha. Mas aí é a grande diferença entre ética e moral. Se eu preciso de um deus pra ser alguém bom, pelo simples medo de ser punido se eu não for, eu não sou bom. Eu só aparento ser… Então a medida da grandeza da alma de alguém nunca pode ser medida em termos de fé, mas de sentimento e atitude.

Dito isso, que deus não me cabe definir e não preciso dele para ser um ser humano bom, há sempre aqueles dias em que crer em deus, e na justiça divina, são salvadores de sanidade. Hoje está parecendo ser um deles. Precisa deixar de ser.

Porque bondade não garante o básico da vida.

Eu sempre fui dessas pessoas irritantemente boas. Debochada, meio grossa, irônica… mas boa. A ponto de me deitar no chão e deixar o caminhão passar, porque veja bem, eu ia ser muito má de ficar de pé no caminho dele… Eu sei que é um conceito torpe de bondade, mas que eu sequer percebia. O fato é que fui como mamãe queria: uma menina boa. Boa de tomar o fardo do outro como meu, de me privar do que quer que fosse em nome do outro, de calar vozes internas pra evitar o conflito, de ficar pensando como fulano vai se sentir, de achar que não posso colocar pessoas em situação difícil mesmo em movimento reativo, boa de me adaptar a qualquer situação, a despeito do que isso fizesse comigo, minha felicidade, minha auto-estima, meus sonhos.

Sim, eu já sei que isso não era bondade, mas patologia. Mas quem se importa? Em intenção, eu era uma menina boa.

Diz-se que o destino e o propósito do ser humano é ser feliz. Algo do tipo no amor e na guerra vale tudo, ou coisa assim. Mas eu nunca concebi minha felicidade usando alguém de escada. Ou me aproveitando do bem que o outro pudesse me causar. Ou em nome dessa felicidade, causar infelicidade em alguém. Esse parecia ser um preço muito, muito difícil de ser pago, que não valeria a pena, que não me traria paz.

Mas aí se vive uma vida inteira sob esses rígidos padrões de moral e bondade, e naqueles momentos de epifania se olha em volta, e todo mundo que escalou sua cabeça, que lhe usou como tapete, que simplesmente lhe colocou de lado porque você estava no caminho da felicidade deles, estão lá… felizes.

E não, você não quer que não sejam. Só é injusto. Só é desproporcional. Hora em que justiça divina, deus tá vendo, aqui se faz e aqui se paga, o que é teu tá guardado e todas essas coisas que pressupõe um universo regido pela ordem são conceitos que literalmente resgatam sanidade. Como assim eu vivi minha vida me pautando em não causar mal, e estou aqui em baixo, e quem me causou mal tá de flauta na rede da vida?  COMO ASSIM?

Há crenças que eu sempre tive, nunca as compartimentalizei em teorias filosóficas ou coisa assim, mas sempre tive, que se baseiam em confluências. Isso não garante ou priva ninguém de felicidade ou compensações, mas acredito que o bem que você faça, ecoa no mundo e volta. Sempre volta. Essa crença sempre foi respaldada no real. Já estive no fundo do poço, tô aqui na bordinha quase saindo, e esse percurso lá de baixo até aqui foi todo feito por ecos, pelo que plantei, com a ajuda das pessoas a quem eu fiz bem. Não pagamento. Talvez nem retribuição. Eco mesmo. E nesse ponto, se eu não tivesse lá atrás criado essa rede de confluências, pode apostar, eu ainda estaria lá em baixo, em posição fetal, a chorar pelo leite derramado…

Mas isso não tem necessariamente haver com justiça divina. Ou universo regido pela ordem.  Essas coisas, meu bom senso diz que não existem. Nem um deus realmente ocupado em olhar e interferir, e impedir o mal (olha em volta!!!! Olha em volta!) nem um movimento karmico em uma única vida, que garanta que bem seja retribuído com bem e mal, já sabe…

Só que abandonar qualquer esperança nessa crença tem preço. Positivo e negativo. Pra começar que ser boazinha não é garantia nem do universo nem de alguém individualmente me fornecer felicidade. Quero ser feliz? É…. calçar a cara, ficar de pé, tocar em frente, assumir o risco, saltar no escuro, brigar pelo que é meu e… foi mal aí, atropelar de volta o caminhão que me atropelou. Não por nada, pelo simples fato de estar no meu caminho, e eu já ter pedido licença e não saiu do lugar!   E aí a outra parte, o custo negativo disso aí, é de que reconstruindo ego e ajustando id e superego, meu superego acaba de se tocar que bom/certo/justo/digno não necessariamente são sinônimos não. E que aquele eu tão bonzinho, tão altruísta, tão capaz de se quebrar em mil pra não arranhar o outro e completamente incapaz de qualquer movimento que prejudique alguém, bom, é um eu que não sobrevive no real. E é um eu que não pode existir mais.

Isso ou assumir que nasci pra ser boazinha. Boazinha e infeliz. E parar de reclamar, porque seria o movimento de abraçar isso, aceitar isso, e se conformar com isso. Embora ser infeliz não deixe muita margem de energia pra ser boazinha. Logo, opção descartada por completo.

Porque a questão é simples. O que o universo não me deu, eu estou indo tomar a força. Pra minha teia de confluências, passado esse momento de alto custo de manutenção (porque acredite, eu sei que sou uma amiga de altíssimo custo de manutenção no momento…), é só vantagem. Porque já já eu volto ao meu normal que prefere, de coração, dar do que receber.  Agora, pros demais…. sorry. É provável que doa. Alias, é provável que doa mais em mim, mas eu já passei da fase de me importar com isso.

A quest é pública. Aberta a todos. Sem restrição fora as que eu coloquei pra mim mesma e não quero colocar mais. Porque olha que coisa… eu não tinha nem idéia disso, mas eu também tenho esse inalienável direito de ser feliz.

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