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Recomeço

Coração acelerado devidamente contido com beta-bloqueador. Mas ainda o sinto bater. Tum. Tum. Tum. Fecho os olhos para sonhar acordada, hábito de efeito consolador desde meus dias de menina e bonecas de papelão, e de súbito os abro. O sonho não é irreal, possível apenas em um universo paralelo onde eu fiz as escolhas certas. Não é um substituto da realidade, uma fuga… Não demanda que o outro, esse que não sou eu, aja como eu faria se ele eu fosse. Não comporta milagres a sacudir as estruturas da realidade. A bem da verdade, não são sonhos. São planos. Projeções possíveis e concretas de amanhã. Planos.  E no fundo o coração dá o compasso sem compasso: Tum. Tum. Tum.

Olho em volta. Não dói. É uma pequena e fugidia tristeza difusa, quase indo, quase indo, e foi. A alma estóica, as coisas são o que elas são. Cavo em volta, delicadamente, pra levar comigo minhas raízes quando eu for, assim como quando vim… Resiliente sobrevivi. Sobrevivo. Sobreviverei. A despeito. Por despeito, talvez. Teimosia, pura, simples, natural. Olho em volta. E não dói. Muito, pelo menos. E isso já é tanto…

Respiro fundo. Encho o peito de ar, ar o suficiente pra me fazer levitar acima do medo, que me olha em profundo estranhamento, em quase saudade. Não me prende. Passa por mim. Perpassa. E eu levito. Ciente dele, consciente do salto calculado, mas de fé, que me separa de onde quero ir, e entre nós, o abismo. Risco. E ainda assim o medo não me prende. Passa por mim. Perpassa. E eu respiro fundo.

Me estranho. E gosto disso. Os pensamentos que passam pela minha cabeça não são os mesmos, não surgem do mesmo lugar. Não me pego me perguntando se dou conta, mas como fazer para dar. Ou se eu mereço, ou se o tempo escuro foi curto demais e há de voltar… Mas também não me pego achando que tudo é lindo, e eu sou esse ser de luz incapaz de ser atingida pela cretinice humana, a falta de bom senso, o desrespeito, o egoísmo, o desamor, a vida real. Apenas aceito. Aceito que o mesmo universo que conspira contra, conspira a favor. Que pela lei do eterno retorno aplicada a uma vida só, esse amor que volta pra mim é só o mesmo que eu plantei. E quanto à dor? Gente é complicado. Gente é o que gente é.  E todo o resto não importa, é do que se trata os saltos de fé.  Por isso me estranho. E gosto disso.

Coração acelerado. Tum. Tum. Tum. Tinha a impressão de ter tudo e eu não tenho nada. E do nada começo tudo. De novo. Outra vez.  E o mundo volta décadas no tempo, e é estranhamente esse mar de possibilidades… boas e ruins. Fáceis e difíceis. Próximas e distantes. Seguras e arriscadas. E sinto um súbito desejo de dançar no meu próprio som descompassado. Tum. Tum. Tum.

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