O rio que flui

Há coisa que vivemos que são apreciadas ou não, temidas ou não, dolorosas ou não, mas que parecem fazer parte da normalidade do mundo, regidas por pura randomicidade. Mas há coisas que são da ordem da necessidade, não daquilo que precisamos fazer, mas que precisamos ver, sentir e viver, e que de todos os momentos possíveis, surgem com intensidade proporcional à necessidade que se tinha.

Toda a interconectividade dos eventos, sua função de preencher expectativas e até mesmo supera-las, e mesmo suas pequenas imperfeições para situa-las no real, quando em confluência perfeita, parecem encomendados. Mantas tecidas pelas velhas senhoras tecelãs de destino causando a sensação morna sobre a pele, que diz: “Vê? Não é tão escuro assim. Nem tão desesperançoso. Nem tão defintivo. Ou perdido.” A vida são mantas, tecidas em teias. As vezes algumas são jogadas sobre nós, desengonçadamente. Não nos deixa ver nada a frente. Nos roubam o ar. Se emaranham e nos prendem… Outras vezes, são mantas encomendadas, tecidas nas cores exatas… Essas, as das cores exatas, gentilmente colocadas sobre nós, preenchem anseios, determinam futuro, mudam perspectivas…

A vida? Continua a mesma. Ainda, ponta cabeça, virada e revirada e espalhada no chão. Mas agora, sob as cores da manta, está tudo lá, apenas fora do lugar, precisando de ser arrumado, apenas isso. O sentido, perdido no revirar do mundo, começa a despontar, ciclos se fecham, se iniciam. E nada será o mesmo, ainda que sendo, na manhã que se antevê. A vida? Continua a mesma. A diferença é que estamos de pé (ou quase… quase!).

O mundo andava escuro. E sombrio. E desesperançoso. As frases, ditas a distância, com bons votos e provas de fé, ecoavam, sim, mas pareciam irreais. Coisas que dizemos ou acreditamos pela simples necessidade, não pela âncora no real. Parte do longo processo de cura, mas ainda assim, quase um faz de conta. Eu finjo que acredito. Eu finjo que tenho fé.  E precisava de uma manta sob encomenda. Uma que não fosse assim tão sem falhas que pudesse parecer ela mesma eco de sonho, mas que tivessem a exata medida do calor que a alma quer. Não… que a alma precisa. Um passo difícil seguido de um alento seguido de uma esperança seguido de um dor seguido de uma oportunidade seguido de um abraço seguido de uma gentileza seguido de uma piada seguido de uma despedida seguido de uma promessa seguido de…  Recorte do real, ampliado e colorizado, promessa de que ser era possível em um dia, talvez fosse em muitos deles, dali pra sempre e pra sempre…

Eu sou a que pinta cores de Almodovar e coleciona lembranças em baú. E hoje sou a que aprende… A começar que nem tudo será sempre tão lindo, mas nem sempre tão feio. Que quem gosta de colecionar lembranças precisa fabricá-las. Que receber é só a outra via de dar. Que o medo pode perpassar e ir embora. Que coragem não é a ausência do medo. Que o amor de verdade é morno, respeitoso, acolhedor e incondicional. Que verdadeiros amigos resistem ao tempo. À distância. Às resistências que impomos.  Que da mesma forma que as pessoas nos surpreendem negativamente, também o fazem positivamente. Que é sempre bom experimentar o novo. Mas também é sempre bom experimentar de novo, não importa o que, para descobrir que se gostava daquilo que não se sabia gostar, ou que ainda se gosta daquilo que se fingiu não gostar mais. Que as oportunidades aparecem, mesmo quando se achava inviável, para quem mantém olhos e corações abertos. Que nada é fácil, de graça, sem custos…. Ao menos nada que valha a pena. Que os limites do corpo não são assim tão maleáveis, mas isso não precisa nos cercear; apenas é uma obrigação de buscar outras rotas. Que coisas pequenas podem ser mais preciosas que coisas grandes. Que tudo é uma sucessão de instantes. Que o desejo é força. Que rir faz bem. Que chorar também faz bem. Que vergonha alheia não é fardo que se valha a pena carregar. Que boas ações não são impunes, mas no bom sentido. Que gratidão, sentida ou retribuída é um sentimento que nos faz flutuar. Que tentar é um mal necessário. Que tomar o controle é liberador. Que manter o foco é vital. Que prioridades precisam constantemente de revisão. Que há riscos que mais que valer a pena, são o único caminho para a vida com menos riscos. Que ainda assim coisas indesejadas irão aparecer sem que isso necessariamente seja o fim do mundo. Que a mente pode estar no controle. Que é impossível soterrar um sentimento, mas que ele pode ser contextualizado. Que as vezes é preciso dar passos tão pequenos que se parece que não se saiu do lugar. Que as vezes temos que correr. Que é preciso eventualmente dar saltos de fé. Que o pior arrependimento é sempre das coisas que não fizemos. Que encerrar ciclos não é fracasso, mas a consciência que tudo termina, e recomeça…  E que o movimento natural do rio é sempre de fluir, se não o represamos.

E eu sei que é brega. E eu sei que é simplório. E que se baseia mais no poder das palavras que num fato instaurado. Mas este foi o primeiro fim de semana do resto da minha vida. E há novas cores para serem pintadas, e novas lembranças (feitas e por fazer) em meu baú.  E há ar…

E eu quase nem lembrava da sensação do ar em meu pulmão.

2 comentários sobre “O rio que flui

  1. Que reviravolta, Adriana! …mas, não me surpreendeu, podes acreditar!
    Com a cabeça e sensibilidade – privilegiadas – que possuis , era perfeitamente esperada essa reação!

    E, as tintas estão aí prontinhas , para que possas colorir – ao teu belo gosto – mais esta etapa da tua vida!
    Muito feliz por ti!
    Um cheiro!

    1. Quase. Ou não, Meu mundo virou de cabeça pra baixo e eu só estava esperando a ocasião para desvira-lo, ato em progresso, trabalho contínuo…

      Mas é legal que essas frases de efeito que a gente vê, que depois da tempestade vem a bonança, que não há mal que sempre dure, que enfim, essa filosofia de livro de auto-ajuda não é só baboseira pra acalmar os ânimos. Sério, as coisas acontecem, são relativizadas, passam, deixam cicatrizes pra sempre mas só isso… E oportunidades surgem se a gente estiver atento e tiver coragem de embarcar em saltos no escuro. Podemos nos estabacar de novo, ou seguir em frente…. só vamos saber o resultado final depois de tentar!🙂

      Ou isso ou eu nasci com o meu pra lua mesmo…. O universo me deu uma rasteira mas me pegou no colo. Mas seja como for, 1 mês e meio foi o tempo caida no chão. Agora é sacudir a poeira que ainda vem muito aborrecimento e trabalho pela frente, mas com a gente de pé eles parecem bem menores…

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