A Alma e o Baú (incidental)

De quantas formas se pode contar a mesma história

E ainda fazê-la ter sentido?

Quantas coisas nos parecem reais

E deixam de ser, sem nunca ter sido?

 

De quantos ângulos se pode olhar a verdade

Quantas vezes precisamos rever o passado?

O que define a realidade?

E quantas mentiras contamos

Só pra fingir que fomos amados?

 

A realidade é só véus sobre véus

Que cobrimos a alma nua e o sonho desfeito

Olhar novamente não imprime sentido

Nem desafoga o nó em teu peito.

 

E a despeito de tudo, que se é,  que se tenta ser

Que triste é essa verdade que se solta

Eu só queria querer o meu baú

E todas as minhas vestes de volta.

 

Mas nem isso. Nem mesmo isso é querer…

 

 

 

Quase que incidental… de A Alma e o Baú, Mário Quintana.

Tu que tão sentida e repetida e voluptuosamente te entristeces e
adoeces de ti,
É preciso rasgar essas vestes de dó,
As penas é preciso raspar com um casco, uma
Por uma: são
Crostas…
E sobre a carne viva
nenhuma ternura sopre.
Que ninguém acorra.
Ninguém, biblicamente, com seus bálsamos e olores…
Ah, tu com as tuas cousas e lousas, teus badulaques, teus ais
ornamentais, tuas rimas,
esses guizos de louco…
A tua alma (tua?) olha-te, simplesmente.
alheia e fiel como um espelho.
Por supremo pudor, despe-te, despe-te, quanto mais nu, mais tu,
despoja-te mais e mais.
Até à invisibilidade.
Até que fiquem só espelho contra espelho
num puro amor isento de qualquer imagem.
– Mestre, dize-me… E isso tudo valerá acaso a perda do meu baú?

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