Algumas máximas não tão cínicas sobre o amor

1 – Amar é possível. E desejável. E necessário. Mas nos confundimos sobre os tipos e graus e detalhes desse amar, tensionando o sentimento, e acabamos amando o amor. Alias, esse é meio que o movimento natural, porque amar é simples e se relacionar é complicado,  mas é aí quando a coisa desanda… Poucas pessoas possuem a amplitude de alma para se saberem amadas só pelo amor em si, esperando naturalmente a tensão ceder, e não tomar isso como desamor.

2 – Tratar o amor como essa flor frágil é outro dos erros mais comuns. Amor não é frágil. É a força mais violenta e resiliente que existe. Ainda agnóstica e ainda deista, minha série favorita de todos os tempos foi Joan of Arcadia e sua idéia de conversar com Deus e compreender as teias de confluência que regem o universo. Dessa série, um quote que uso como assinatura: “Você ama as pessoas. Isso gera muito poder, muita energia, o mesmo tipo de energia que mantém os átomos juntos. E todos sabemos o que acontece quando tentamos separá-los.”

3 – Ainda defendo o amor com os defeitos. E ainda defendo a impossibilidade real da comunicação. Mas cada dia que passa reconheço minhas falhas em fazer corretamente o primeiro e minhas desculpas para não tentar o segundo.  E este é um mea culpa existencial e não factual. Culpa factual exigiria intenção de erro e não ter feito meu melhor, e eu sempre faço o meu melhor, mesmo quando esse melhor é bem pouco…

4 – Amar com os defeitos não implica denegá-los, ou ignorá-los. Implica estar pronto para mostrá-los ao outro, sem medo de não agradar, ou das reações que possam surgir daí, e sem intenção de necessariamente modificá-los.  E é uma via de duas mãos, e pode ser mais difícil do que parece ser amado com os defeitos do que amar assim. E como, repito, amar é simples e se relacionar é complicado, com medo de tensionar a relação, se tensiona o amor… E se algo vale a pena ser salvo, é sempre o amor, nunca a relação. Relações se desfazem e refazem em torno de um mesmo amor. O amor, desfeito (ou negado, caso não possa ser desfeito), apenas desfaz relações.

5 – O desejo pelo amor inviabiliza a capacidade de amar, porque pressupõe a necessidade  de agradar e o medo do conflito. Ame. Apenas ame. Ser amado não tem nada haver com essa história e vem de um lugar completamente diferente do lugar onde nasce o seu amor.

6 – Mário Quintana já dizia: “Quanto mais nu, mais tu.”  O desnudar da alma, a franca exposição e a morte consciente desse desejo por normalidade e aceitação leva sempre a dois possíveis resultados: O fim da relação que nunca de fato perpassou pelo amor ou a experiência  única de ser amado pelo que de fato se é. E é impressionante o poder, a força e a capacidade curativa desse amor por uma alma que está nua.

7- Em contra-partida, o constante desejo de agradar, o segredo e o silêncio leva à morte do amor, mesmo o que potencialmente poderia se apaixonar pela sua alma desnuda. Não é dado o outro a possibilidade de te conhecer, e é negado o feedback que ajudaria o sujeito a se conhecer. E entre ilustres desconhecidos que meramente convivem, se tanto, só se pode amar o amor. Nunca o sujeito.

8 – O amor não nasce pronto. Dá sua relação com ele, o amor em si e não o objeto de amor, e da sua relação com o objeto de amor abre-se a possibilidade da morte ou do crescimento. De amor e de sujeitos. Também não vem com manual de instruções, infelizmente… e habituados as complicações do mundo, a simplicidade do amor é sempre um imenso mistério.

9 – O amor, é, já disse, essa força mais forte que o próprio conceito de força. Seu potencial de libertação é infinito. Seu potencial de crescimento é exponencial. Mas nem todo mundo tem, naturalmente a capacidade de amar. E nem todo mundo tem a capacidade de ser amado. Triste, eu sei. Talvez isso possa ser construído, talvez não.  Por via das dúvidas, escolha melhor seus objetos de amor na próxima vez. E se dê o direito de amar. E ser amado.

10 – Ser amado não é ser sujeito passivo do amor. Há um movimento de acolhida, um movimento de abertura, e um movimento de entrega que é preciso ser feito para se ser, genuinamente, amado.  Muitas vezes é a parte mais difícil do processo, porque podemos fingir para nós mesmos que amamos, mas não podemos fingir que somos amados. Para ser amado, é preciso aceitar o amor.

11 – Amor, já disse antes por aqui, é uma única força de muitas facetas. Raramente todos os seus lados se encaixam todo o tempo. Se tocam, se cumprimentam, se complementam, mas raramente se apresentam como uno. Buscar esse amor completo pode ser uma quest ingrata e infértil, abrindo mão no caminho de todas essas outras formas de amor. Pode lhe prender a uma lembrança do tal momento mágico em que todos os amores foram um, e lhe impedir de ver a realidade pelo que ela é. Pode lhe dar a impressão que haverá sempre um vazio por preencher.  O amor, o verdadeiro amor, é livre, não excludente, incondicional, e capaz de sobreviver a todas as merdas que você há de fazer no caminho para testá-lo. Qualquer coisa diferente disso, não é amor. Ou não o é mais.  Let it go.

12 – O amor é simples e forte. Relações é que são complicadas e frágeis.  Em uma relação que é cuidada, nutrida, e trabalhada constantemente em vigília infinita, você nunca estará sozinho, mas pode estar só. Com o amor, simplesmente o aceitando e o partilhando, você pode estar sozinho, mas nunca estará só. Não preciso dizer qual deles vale mais a pena, preciso?

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