Pensamentos Aleatórios

Sobre queda livre e redes de segurança…

Queda livre involuntária, de novo, e de novo, e de novo. Um caminho de subida infinito e dificil e cruel.  E toda vez que vislumbro a lúz, bem acima, mas pelo menos a vejo, tropeço, caio de novo, de novo, e de novo.

Toquei o chão uma vez. O mais baixo que se poderia chegar. Rosto na terra, gosto de ferro na boca, toda a gravidade do mundo me espremendo contra o chão. Estive lã. No centro do centro do centro da Terra. Foi súbito. Foi seco. Foi rápido. Eu estava aqui, e no instante seguinte, eu estava lá. No chão. Sem condições de levantar. Sem entender como caí.

E a escada surgiu. Primeiro improvisada, pequenas fendas na parede. Pura teimosia. No passo seguinte era de corda, feita a mão, pequeno gesto de compaixão e ternura. E depois uma escada. De fato. Acima, não sei. Talvez nada. Talvez mais escada. O caminho, inda que árido, surpreende, tem seus próprios recursos, se faz ao se pisar…

Mas eu constantemente tropeço e caio. E aquele instante em queda livre é um flertar com o desespero, que me olha, me quer, me chama. Eu lembro do rosto contra a terra, o gosto na boca, a dor… E eu caio, numa aceleração inimimaginável. Mas não toco o chão.

Há algo no caminho, sempre um milimetro acima de onde estive da última vez. O tombo, a queda, livre e temerária, é sempre salto de fé. Eu posso tocar o chão, eu posso me desfazer. Mas alí, um milimetro acima do antes, sempre, a rede. Dói, mas não como o chão, não como antes. É mais medo que dor. Mas dói.

E começamos de novo. Cada degrau. Um. Outro. Não quero cair, não quero precisar da rede. Não quero onera-la. Não quero o medo de pensar como seria se ela não estivesse alí. Não quero imaginar que um dia ela pode não estar. Só quero sair daqui. Mas caio. De novo, E a rede… e o subir … e o tombo.

Vou ficando acostumada. E ligeiramente mais descuidada. Subo os degraus mais depressa, tenho pressa, e nem sei de que. Prendo a respiração onde cai da última vez, resisto, mais um degrau, e queda livre involuntária, de novo, e de novo, e de novo.

Toquei o chão uma vez. E deus sabe como eu tenho medo de toca-lo de novo.

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