Borboletas, no aquário e no estômago

Eu tenho 16 anos. E borboletas no estõmago. Elas voam, revoando, batem asas e maremotos se formam na alma. Eu tenho 16 anos, e sou uma ninfa crescendo ao som do menino que vende picolés.

É uma sensação estranha, uma dor que não dói, e as borboletas batendo asas no meu estômago. O joelho dobra frente a uma expectativa distante. Mas inverossimil. Mas irreal. E então eu tenho 17 e não era mais expectativa. Era meu. E as borboletas voavam no meu estômago.

Eu tenho 14 anos e borboletas no estômago e vivo envolta em um cachecol lilás dentro de um fusca branco. Me chamem  de Julieta que eu atendo, e rio, e enrubeço. Porque eu tenho 14 anos e borboletas no estômago.

Eu tenho 12 anos e borboletas no estômago, pequenas borboletas, tímidas borboletas. Acabaram de nascer e descobriram que podem bater asas. E Gilberto Gil canta que sua alma cheira a talco. E a minha também.

Eu tenho 13 anos e quero borboletas no meu estõmago. Quero tanto que as pareço sentir, ao som de for your eyes only, e os braços dormentes em volta do pescoço tão mais alto que o meu. E porque eu as desejava, elas bateram as asas pra mim.

Eu tenho 15 anos e borboletas no estômago, calças legging e cabelo curto, e displicentemente me apoio na amurada da casa. Eu brinco de gente grande, arrisco, experimento. E sinto a dor das minhas borboletas quando descobrem que outras borboletas batem asas mais rápido, e criam maremotos maiores. E minhas borboletas subitamente tem medo do mar. Mal eu sabia que o maior medo não é de se afogar no mar, mas que mesmo mares as vezes, podem sumir, secar….

Eu tenho 18 anos e muitas borboletas no estômago. Elas querem sair de mim e querem mudar o mundo. Elas percorrem a avenida Rio Branco e ficam roucas, porque gritam palavras de borboletas que fugiram do meu estômago. E eu quero que elas sejam felizes a bater asas com outras borboletas…

E então eu parei de registra-las. Elas nasciam em mim, e eu me tornei de novo a que tem 10 anos. E espreita borboletas. No sentido da luz, passo ante passo para não as assustar. E as pega pelas asas, com muito cuidado de não as machucar, e as ama, e as solta para que voem a partir de mim. E algumas se ferem. Outras não. Algumas… E por todo o tempo em que elas nasciam em mim, eu as devolvia pro mundo. E povoei a terra com borboletas.

Eu tenho 42 anos, e uma borboleta no ombro. Ela é minha e simboliza todas as borboletas que já revoaram em mim e de repente não revoam mais. Minha borboleta mora no aquário, porque quer perder o medo do mar. Ela nada onde devia voar e voa onde devia nadar. Ela é diferente. E é única. E se recusa a se enquadrar. Mas é só uma borboleta, desenhada com tinta e sangue no meu ombro, num aquário, e só…

E então, ela bate as asas. No ombro, mas é como se fosse no estômago. Ela bate as asas, e um pequeno maremoto começa a se formar. Na minha alma. Na minha vida. Ela bate as asas e me pergunta: Se lembra dessa sensação? Esse bater de asas? Esse frio na barriga, essa fraqueza na perna, esse cheiro de talco, esse movimento natural de borboletas que agitam as asas e causam tufão?

E depois ela ficou quieta. Estática no meu ombro. Mas eu me lembrei… Não dela. Mas de mim. E senti saudades. E senti pequenas borboletas querendo nascer no meu estômago, ainda pequenas demais para bater asas, mas nascendo, nesses casulos que guardei em mim.

Eu sou parideira de borboletas. E a que as coleciona dentro de si.A que espera em outra vida ser como elas. Eu sou a casa das borboletas do mundo. É isso que eu sou. O que estou é passageiro, tudo que importa é o que eu sou. E silenciosamente espero o momento em que elas comecem a bater de novo suas asas dentro de mim.

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